Comensais

Curiosidade insaciável

Balthazar - o meu preferido

by Pedro Arraes

A data? Não podia ser melhor, a Lê estava se formando pela NYU.
A companhia? Era perfeita: sogro, sogra, cunhada e esposa.
O lugar? O meu preferido em Nova York: Balthazar.
O preço? 0800, viva o sogrão!

Já havia ido uma vez ao Balthazar em 2006 com as mesmas pessoas exceto minha cunhada que na época estava no Brasil trabalhando, afinal, alguém tem que ganhar dinheiro na família… Passados dois anos e meio fomos novamente ao restaurante francês, que pela grande procura precisa ser reservado com pelo menos duas semanas de antecedência.

O lugar é sensacional. Não é a toa que é meu preferido. De entrada a grande dica é o Seafood Ceviche, de origem peruana, com camarões, polvo, lula, lagosta em fatias finas mas generosas, muito bem temperado com lima, salsa e coentro, juntamente com pequenos pedaços de tomate e cebola. Uma delícia!!

Seafood Ceviche

Seafood Ceviche

Os pratos principais são todos bons, acredite, lá eu já provei de tudo um muito… Todos excelentes. O meu prato preferido é o Plateaux de Fruits de Mer, ou seja, Prato de Frutos do Mar. Existem duas opções, sendo o mais barato (ou seria menos caro?) chamado Le Grand, servido em três andares de bandejas com camarões, ostras, mexilhões, caranguejos, lulas, polvos e escargot, tudo sobre uma crosta de gelo com alguns temperinhos e molhos à parte e tudo muito, muito fresco. O mais caro é chamado Le Balthazar, que é igual ao primeiro com a adição de lagostas, s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l. Ah, o prato pode - e deve - ser dividido entre duas a quatro pessoas.

Le Balthazar

Le Balthazar

Para os que não gostam de frutos do mar, a dica é pedir o Steak Frites. Sim, o nosso conhecido - e simples - bife com batatas fritas. Mas não é qualquer bife com batatas fritas, não senhor. É simplesmente um dos melhores que você vai comer na sua vida. A carne é extremamente macia e saborosa e a batata frita é sequinha e muito gostosa. Vale a pena!!

Steak Frites

Steak Frites

Agora, se você gosta mesmo de mexilhões, mas tem medo de comer aqueles de Búzios “pescados na hora”, a boa pedida é se deliciar com uma panelinha inteirinha só para você do melhor - e mais fresco - mexilhão da sua vida. A Lê só pede esse, chamado Moules Frites.

Moules Frites

Moules Frites

Para a sobremesa, opções para todos os gostos. O Caramelized Banana Ricotta Tart é uma bolinho de banana caramelizado com uma bola de sorvete de banana de acompanhamento. O Warm Chocolate Cake nada mais é que um Petit Gateau com uma bola de sorvete de baunilha. Agora, o mais saboroso de todos é o Profiteroles, com recheio - e muito - de sorvete de baunilha com muita, eu disse muita, calda de chocolate quente. O jarrinho com a calda fica ao lado e você ainda pode pedir para eles reporem se acabar. De lamber os beiços….

Caramelized Banana Ricotta Tart

Caramelized Banana Ricotta Tart

Warm Chocolate Cake

Warm Chocolate Cake

Profiteroles

Profiteroles

Agora minha mania, como sempre, avaliação do banheiro. Nota 10. Limpo, toca música relaxante, sabonete cheiroso, toalha muito absorvente e mais, mantém um funcionário dentro do ambiente “pilotando” a torneira da pia (além dele abrir e fechar a torneira para o cliente não sujar a torneira antes de lavar as mãos e depois consequentemente para não sujar a mão com a torneira, ele tempera a água na temperatura ideal, nem muito frio, nem muito quente), abrindo a porta para você entrar e sair, um mimo que para uns é frescura, mas para mim é sensacional…

Rating: 81

Balthazar Restaurant
80 Spring Street (entre Broadway e Crosby St., no SoHo)
New York, NY
(212) 965-1414
www.balthazarny.com

Foi apenas um susto

by Mariana Souza

Quando li que a rede de hotéis Marina havia mudado de chef executivo, confesso, gelei. Nada pessoalmente contra o Felipe Bronze, mas, em tudo que ele bota a mão, faz questão de inovar e, muitas vezes, estraga.

Por conta disso, passei alguns meses sem ir ao Bar D’Hôtel, um dos meus restaurantes favoritos. Até que resolvemos arriscar um jantar por conta de uma comemoração de fim de ano.

Reservamos uma mesa perto da janela, com sofás e confortáveis poltronas. Ainda bem, pois o lugar estava lotado na última semana do ano.

Para abrir os trabalhos, pedi um Nice (drinque de espumante com sorbet de limão) e fiquei na vontade. Não havia sorbet de limão. Tentei uma opção mais simples, as caipisakês de lichia (afinal, está na época!), que estavam deliciosas (assim mesmo, no plural).

Não tinha minha bebida favorita. Então, arrisquei pedir minha entrada favorita, e veio o susto: os pastéis de queijo emmenthal com manjericão, a melhor entrada da casa, havia sido retirada do cardápio.

Quando já demonizava até a quinta geração do novo chef, o garçom me tranqüilizou – o risoto de camarão com castanhas de caju e chutney de banana resistia, e estava muito bom. Dito isso, respirei fundo e passei à escolha das entradas. Pedimos um mix de bruschettas que estavam gostosas e bem feitas. Outra boa pedida foi o tartar de salmão, que vem com blinis, alcaparras e sour cream, e pode ser tranquilamente dividido. Essas duas, para a alegria da mesa, haviam sobrevivido no cardápio.

Os pratos principais foram todos aprovadíssimos. O minipenne com aspargos, presunto de Parma e champignon; o filé mignon em crosta de ervas com risoni; e o haddock com purê de batatas e alcaparras fritas. Meu risoto de camarão estava sensacional e foi o melhor prato da mesa.

De sobremesa, também foi um alívio verificar que o pão de ló aos três leites (pão de ló com finas fatias de banana e sorvete de doce de leite) continuava espetacular. Isso porque o fondue de chocolate belga foi uma decepção – parecia uma calda de chocolate rala, e não combinava nada com os bolinhos de laranja e financier de amêndoas que acompanhava. Outra boa pedida foi a torta mousse de chocolate, que eu não provei, mas foi devidamente devorada pelas minha prima chocólatra.

De surpresa boa, mesmo, o serviço. Além de simpático como sempre, estava especialmente atencioso e rápido. Passado o susto, ponto para o chef.

Rating: ★★★★☆
Bar D’Hôtel
Hotel Marina All Suites - Av. Delfim Moreira, 696 - Leblon
www.marinaallsuites.com.br

O fenômeno dos chefinhos e o desastre natalino

by Márcia Luz

O que mais tem hoje em dia é gente metida a chef. E onde há um metido a chef há uma pequena platéia disposta a paparicar o chefinho. Parêntesis: o “metido a chef” não é necessariamente aquela pessoa que comanda a cozinha de um restaurante, mas o fulano que fez um cursinho de culinária – geralmente com o nome de “gourmet-alguma-coisa” – ou o sicrano que vive se gabando de sua cozinha super equipada e de suas criações gastronômicas, etc.
Você vai ao almoço de aniversário da tia-avó, e lá pelas tantas a cozinheira chama o metido a chef da família: “Albertinho, você que é chef, vem dar a sua opinião sobre o frango ensopado!” E lá vai o Albertinho todo coisa fazer a sua performance. Cheira o molho de olhos fechados, prova um pouquinho, revira os olhos de um lado para o outro como se estivesse acompanhando o vôo de um mosquito, solta um longo suspiro e dá o veredicto: falta um toque de tomilho. “A senhora tem tomilho fresco?” A tia traz o tomilho, ele joga quatro folhinhas na panela e pronto! O toque do chef! Durante o almoço, os comentários: “não é que o tomilho fez toda a diferença?” “O Albertinho, hein? Que talento!” “Vocês precisam ver o blanquette de veau que ele prepara. Uma iguaria!”
Há algum tempo, num almoço de família, presenciei um memorável mico culinário protagonizado por um desses chefinhos. Ou melhor, chefinha. Era uma ocasião importante, não me lembro bem qual, almoço de páscoa ou aniversário de alguém, e tinha bastante gente, entre família e agregados eram umas trinta pessoas. A chefinha em questão era desconhecida da maioria: sogra do filho do dono-da-casa. Como o casalzinho era recém-casado, os anfitriões se esforçavam para acolher a família da noiva com a maior hospitalidade, e assim a cozinha foi colocada à disposição da mãe chefinha e o almoço foi divulgado como um grande acontecimento: “a dona fulana é que vai preparar as entradas, ela é chef!” A tal senhora era professora em um curso de culinária na sua cidade, e como foi possível constatar mais tarde, não atuava em nenhum restaurante.
Conhecendo a minha família e seu prodigioso apetite, bem como uma certa tendência ao caos nesse tipo de confraternização, fiquei aliviada quando soube que a chefinha iria preparar apenas as entradas. Eu explico: nos almoços da família, normalmente comandados por uma prima de talento excepcional no forno e fogão, geralmente são servidos grandes assados, fartos acompanhamentos, comida bem caseira e gloriosamente saborosa: pernil, frango recheado, maionese, empadões, pastéis. Tudo devorado avidamente pelos comensais entre goles de vinho e papos animadíssimos cujo volume vai aumentando à medida que a bebida faz efeito. Um detalhe importante: por uma misteriosa característica genética, todos os meus primos possuem um altíssimo nível de testosterona e costumam ser acometidos por um mau humor selvagem quando estão com fome.
(Parábola ilustrativa: para que o leitor tenha uma idéia clara sobre essa observação, mencionarei uma ocasião emblemática. Certa vez, combinamos de encontrar com meus dois primos mais velhos e as esposas em um restaurante, e levamos uns quinze minutos para conseguir sentar. Assim que uma das mesas desocupou, um dos meus primos sentou-se imediatamente e, sob olhares perplexos da platéia, terminou de devorar o prato de costelinha borboleta que os ocupantes haviam deixado pela metade.)
Voltando ao almoço. A dona chefinha seria responsável pelas entradas e a minha prima faria o prato principal, peru e chester recheado com farofa e maionese (ah! era almoço de Natal!).
Primeiro fato insólito: a entrada, anunciada com toda pompa e circunstância, seria composta de ostras gratinadas sobre cama de mini-folhas verdes cobertas com lascas de parmesão e azeite trufado. Não consegui imaginar meus esfomeados priminhos “degustando” ostrinhas com folhinhas civilizadamente enquanto aguardavam os javalis, ops, perus. Nem tampouco consegui fazer alguma conexão gastronômica entre os moluscos e as aves com farofa. Decidi ser menos rabugenta e fui beber com os familiares. O tempo passava, passava, e ninguém chamava para a mesa. Meus primos também resolveram ser tolerantes, e afogavam o seu ogro interior com goles e mais goles de vinho.
Por volta das quatro da tarde, achei que devia investigar. Quando entrei na cozinha, deparei com a seguinte cena: minha prima aflita tentando oferecer ajuda à chefinha – uma vez que os pratos principais não só estavam prontos mas sob ameaça de ressecamento – e sendo repelida com um olhar de desprezo, como se mãos plebéias pudessem arruinar a sua criação. Ela organizava minuciosamente cada ostra gratinada sobre a caminha de folhinhas, em seguida deitando teatralmente fios de azeite sobre elas. Choque de horror: não havia mais que duas dúzias de ostras, porção suficiente para somente um primo e meio, que dirá para o mundaréu de gente bêbada e faminta que esperava (quase) pacientemente.
E então o pior aconteceu.
Um dos comensais – o anfitrião, se não me engano - adentra o recinto como quem não quer nada e… zás! Devora uma ostra. Ato contínuo, arrebata outra do pratinho e leva para oferecer a alguém. Sob o olhar horrorizado da chefinha, aparece outro convidado e repete o gesto, e outro, e… em poucos minutos as ostras desapareceram do mundo sem sequer terem saído da cozinha. Enquanto a chefinha permanecia paralisada, boca aberta e expressão homicida, minha prima previu o apocalipse que estava por vir e agiu o mais rápido possível. Enquanto ela corria para sala com os pratos principais, seguia-se uma cena digna de filmes de piranhas assassinas: mal a comida chegava na mesa, apareciam mão e talheres de todos os lados e tudo desaparecia em questão de segundos!!! Sério!!!
Os mais controlados, ou mais bêbados, sei lá – entre eles, eu – almoçaram apenas farofa com arroz.
A chefinha nunca mais foi vista, nem naquele almoço, nem em nenhum outro.

Parece o Fasano, mas é muito melhor

by Mariana Souza

Confesso que não sou fã das casas do Fasano. A comida, na maioria das vezes, até é boa, mas os preços são extorsivos e, para mim, não é uma boa relação custo-benefício. Eis que li na imprensa que um grupo de garçons, maître, sommelier e cozinheiros tinha saído dos restaurantes Fasano e reaberto o Quadrifoglio (vendido recentemente pela Silvana Bianchi). As críticas eram elogiosas. Então, claro, eu e Marido, juntamente com nossos queridos amigos restaurateurs, nos mandamos para lá.

Era uma terça-feira e eu, ingenuamente, achei que estaria vazio. Ledo engano. Esperamos cerca de dez minutos e conseguimos a única mesa vaga da casa.

A decoração mudou pouco, mas para melhor. Há um simpático bar na entrada e o salão se estende até a calçada. Já o cardápio, quanta diferença! Ainda que alguns pratos clássicos do Quadrifoglio tenham sido mantidos, as inovações eram muitas. Algumas delas lembravam pratos do Gero ou do Fasano Al Mare, o que é inevitável. O couvert, inclusive, é praticamente o mesmo – pães e grissinis, manteiga e a indefectível pasta de tomate seco. Depois de muito papo e alguns drinques, fizemos os pedidos, que demoraram a chegar. Talvez por isso o maître – extremamente atencioso e gentil – tenha nos servido, de cortesia, o polvo ao molho de tomate, com batatas e croutons. Estava muito bem feito, mas polvo não é exatamente meu prato preferido.

Servidos os pratos, ficamos todos satisfeitos. O ravióli de maçã com molho cremoso e sementes de papoula, ao que parece, continua divino, como nos tempos do Quadrifoglio original. O ossobuco de vitela com risoto de açafrão e o galeto desossado foram aprovados. A minha sopa – de aspargos com ova de salmão – ficou mais na promessa e menos no sabor. A combinação, no fim, não ficou das melhores. Mas no geral gostamos dos pratos e, principalmente, do serviço.

Chegou, então, a hora da sobremesa. Sabíamos que seria uma hora difícil, pois o chef pâtissier era saído do Fasano – e dos melhores. Nossos amigos foram no profiteroles, que eles adoram. Eu e Marido travamos uma discussão – na presença do garçom – entre petit gateau recheado de limão siciliano e a torta de limão. Optamos pelo petit gateau. Eis que, ao trazer as sobremesas, o maître, mais uma vez extremamente gentil, nos ofereceu a torta de limão como cortesia. As sobremesas estavam todas deliciosas, mas o petit gateau, sozinho, já merece uma nova visita ao restaurante.

Ficamos satisfeitos de ver que o Quadrifoglio está muito bem cuidado e que, apesar dos preços salgados e de alguns pratos não tão maravilhosos assim, o atendimento simpático, educado e atencioso dá um show.

Rating: ★★★★☆

Quadrifoglio
Rua J. J. Seabra, 19 – Jd. Botânico
www.quadrifogliorestaurante.com.br

De manteiga e livre-arbítrio

by Paulo Polzonoff Jr

Ontem assisti ao ótimo Julie & Julia. Desnecessário me deter no óbvio: Meryl Streep é um espetáculo à parte. O que me incomodou no filme foi uma passagem de não mais do que dez segundos, acho. Um diálogo telefônico que transformou o filme num momento de questionamento. Arte (popular ou não) tem destas coisas.

Para explicar a passagem, contudo, é preciso contar um pouquinho do filme. Julie Powell resolve encontrar o sentido da vida seguindo o livro de receitas de Julia Child (grosseiramente comparando, a Ofélia norte-americana). Ela registra sua experiência em um blog que faz um enorme sucesso. O filme conta esta história de autodescoberta e também procura paralelos entre a vida de Julie, a discípula, e Julia, a mestre.

E, agora, a passagem que me incomodou. Já para o fim do filme, Julie, depois de aparecer no New York Times, recebe o telefonema de um repórter que está escrevendo uma matéria sobre os 90 anos de Julia Child. Julie fica toda empolgada ao saber que sua musa inspiradora conhece o blog. Para, logo em seguida, ouvir que Julia Child a odeia – ou coisa que o valha.

Sabiamente, Nora Ephron, diretora e roteirista, não se detém muito nos porquês desta rejeição. Depois de uma crise rápida, Julie logo ignora a opinião da mestre – e segue em frente com a vida. Mas, repito, este trecho me incomodou. Muito. Eu queria entender esta rejeição.

Ainda mais porque, em certo momento do filme, Julia Child diz que queria escrever um livro para mudar o mundo. Ora, ela conseguiu. Mudou o mundo da culinária norte-americana e também o mundo de Julie Powell. Desejo cumprido, pois. Por que, então, teima em rejeitar aquilo que criou com aparente generosidade?

Impossível não recorrer, aqui, à ideia de que é próprio das pessoas quererem controlar aquilo que criaram direta ou indiretamente. Daí porque muitos são incapazes de compreender Deus. O livre-arbítrio é um conceito muito difícil. Julia Child quis criar um mundo no qual fosse possível às pessoas encontrarem a salvação na comida. Conseguiu. O que ela provavelmente não sabia é que queria mais: queria orientar como se daria esta salvação.

Terminado o filme, fiquei deitado, me perguntado por que é tão difícil aceitarmos a liberdade alheia – a mesma que queremos para nós? Mesmo entre as pessoas mais generosas é possível encontrar esta ânsia por controle. Julia Child queria escrever um livro que mudasse o mundo – mas à sua maneira. O quão… humano é isso!

Não é à toa que no Paraíso concebido pelos homens a Árvore do Conhecimento produz frutos deliciosíssimos e proibidos. Criar e oferecer a criação é humano; já o livre-arbítrio é divino.