“Entrei nos Enochatos Anônimos”

Por Evandro Barreto | 5 de Dezembro de 2007.
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“Enochatos Anônimos”é uma confraria de homens e mulheres que se reúnem para buscar forças uns nos outros na luta contra a compulsão de tornar a vida do próximo um inferno a cada vez que a palavra “vinho” é pronunciada. Abaixo transcrevo trecho de depoimento dado por R.M, executivo desempregado e que recentemente aderiu aos EA.

“No princípio achei que falar sobre vinhos era apenas uma curtição, no máximo um exercício de vaidade sem maior conseqüência, que eu poderia controlar tranqüilamente. Mas, com o passar do tempo, a coisa foi piorando. Deixei de ter qualquer outro assunto e os amigos de sempre se afastaram. Ultimamente, só conseguia alguma atenção de outros enochatos, mas assim mesmo até a hora em que todos começavam a falar ao mesmo tempo sobre suas últimas descobertas – do retrogosto de estopa molhada do Chateau Prozac aos reflexos roxo-hematoma do Disturbbio Bipolare, a nova sensação dos vinhedos sardos.
Minha mulher e minhas filhas vinham insistindo para que eu procurasse os “Enochatos Anônimos”, mas eu não dava a mínima. Até o fatídico jantar da empresa, em que tentei estrangular a mulher do presidente quando ela perguntou ao garçom se tinha “Rosé d´Anjou”. Daí por diante não me lembro de mais nada, mas comentam que quando os enfermeiros me levaram eu gritava “tinto para as franceses, branco para os americanos, rosé para os imbecis!”.
Perdi o emprego, perdi a família e aqui estou eu, pronto a começar uma vida nova. Quebrei o termômetro que levava para restaurantes, queimei todos os livros e percebi que não há nada mais parecido com um sambista francês do que um enochato brasileiro. Dois casos melancólicos de paixão não correspondida.
Agora só bebo água mineral. Por falar nisso, posso afirmar que esse engodo de marketing que é a água Perrier não chega aos pés de uma legítima Evian, com seus reflexos de diamante e o inconfundível colar branco que deixa na garrafa e mais parece feito com pó de mármore de Carrara. Isso se deve à intensa mineralização do terreno da fonte, como destaca em seu tratado imortal o eminente aquólogo…”

[BL]eno, enochato, enófilo, Vinhos[/BL]

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