30 anos sem Vinicius e uma receita inesquecível
por Evandro Barreto
Em 1980 a poesia ficou de luto. Vinicius de Moraes cansou de ser “infinito enquanto dure” em tantas vozes desavisadas. A homenagem que um blog que trata de prazeres sábios pode prestar ao poeta é transcrever o final de um banquete para a alma. A última e mais relevante parte de sua Receita de Mulher.
“… Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida
Oh, sobretudo, que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias
A sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume
E destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita
De toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes
Pela transcrição,
Dodô
Comments
Dodô,
Comovente homenagem ao nosso poetinha.
Quanta saudade tenho dele.
Obrigada e um abraço,
Sonia S
Dodo, bela lembrança. Os anos passam e as homenagens diminuem. Comensais é o lugar perfeito para a homenagem a Vinicius!! Abraços, Eymard.
SONIA,
É… na Era do Descartável, há coisas,pessoas e valores de dificílima substituição.
A propósito, a Globonews vai aparesentar amanhã um especial sobre o Vinicius.
Bjs,
Dodô
EYMARD,
Soube que você vai viajar por esses dias. Os Comensais aguardam ansiosos as dicas que você vai nos trazer.
Bon voyage!
Abs,
Dodô
Dodo, trarei. Em primeiríssima mao!! Até já bolei o lugar, a comida e a foto para homenagear os amigos Dodo e Beth!!! E, se nao matar de inveja, ao menos fazer rir os nossos demais amigos que fazem e frequentam os comensais. Aguarde. Abs, Eymard.
Nossa, Dodô, que bela homenagem!
Quem melhor do que Vinícius disse tudo o que as mulheres gostam de ouvir? Talvez Chico Buarque, que entende bem de mulheres.
Vinícius é eterno e etéreo.
Um trecho do seu poema “Para viver um grande amor”, na minha opinião, se encaixa perfeitamente a esse blog. E se me permite.
(…)
Para viver um grande amor, il faut, além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor…
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
(…)
Beijos
Dodô,
bela homenagem. Gostei da dica do programa da Globo News.Vou procurar a hora que vai passar. Uns dois anos atra’s assisti um documenta’rio maravilhoso sobre ele :”Vinicius” do Miguel Faria Jr.
Abraços.
Dodô,
Obrigada ela dica. Programa da Globonews.
Claúdia,
o documentário do Miguel Faria Jr. tem em DVD. É muito bom.
Sueli OVB,
que comentário mais lindo e inspirado.
Um beijo a todos,
Sonia S
Dodô,
O eterno Vinicius e sua eterna paixão cantada em prosa e verso, pelas mulheres.
Quantas ele teve ?
Com a última ele viveu em Salvador, e nos fez acreditar, aos baianos, que sua alma era soteropolitana.
”Se você quer ser minha namorada” e ”Primavera” são as minhas favoritas.
Grande Vinicius, bon vivant.
Ele foi eterno enquanto durou e continua a sê-lo
Belas tardes ele passou em Itapoã… .
EYMARD,
Estamos aguardando, de guardanapo ao pescoço e talheres empunhados.
N. Sra da Gula que o acompanhe e proteja na viagem.
Abraço,
Dodô
SUELI OVB,
Você complementou lindamente a homenagem.
Obrigado!
Dodô
CLAUDIA,
Obrigado pelo cumprimento no post anterior. O documentário do Miguel é um marco no gênero.
E hoje vamos ver o que a Globonews preparou.
Abs,
Dodô
SONIA,
Depois, se puder ver o programa da Globonew, conte para nós suas impressões.
Bjs,
Dodô
HELENA,
Se você passear pela antologia poética do Vinicius, vai notar que ele nasceu velho e foi remoçando a cada mulher nova (contabilizada ou não). Remoçou tanto, que morreu baiano, com a glória de ter composto “Uma tarde em Itapoã”, o hino nacional da preguiça.
Dodô,
que homenagem linda !!
Sua última mulher não foi a baiana Gesse e sim a Gilda Mattoso, minha prima. Ela aparece no filme Vinicius, que é lindo. Assim, eu conheci o Vinicius pessoalmente, frequentei sua casa na Gávea, onde veio a falecer. Porém, concordo que ele nasceu carioca e morreu baiano.
Ele era de fato um carinho só e quanta gentileza com as mulheres até o fim. Adorei conhecê-lo e difícil não se apaixonar por ele. Como dizia o Toquinho, o Vinicius é tão especial que seu nome já está no plural. Por conta dessa relação, pude ir à casa do Tom ouví-lo ao seu piano, cantando Eu te amo, inúmeras vezes, assim que ficou pronta a parceria com o Chico. Momento inesquecível.
Para citar um outro poema do Vinicius, que ele fez no exílio, e me lembrei hj, por conta do hino nacional, no fatídico jogo do Brasil, segue um trechinho do emocionante Pátria Minha.
“…
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
…”
´MADÁ,
Comoventes, ternas lembranças. Eu tinha o disco, editado pela “Festa”, do meu amigo Irineu Garcia, onde Vinicius declamava”Pátria Minha”.
Bjs,
Dodô
O Haver
“…resta essa imobilidade, essa economia de gestos,
essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível,
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
do tempo, essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida, uma só morte,
um só Vinicius.”
30 anos sem Vinicius,
lindíssima homenagem, Dodô!
Madá, que privilégio!! Nos esquecemos, as vezes, que essas pessoas “de dominio publico”, que lemos, ouvimos, gostamos, tem uma familia, amigo intimos, pessoas que gozam de sua intimidade. Outra visao. Outra perspectiva da mesma pessoa.
Fiquei pensando se Vinicius já mereceu um filme (personagem nao falta). E acabei me deparando com o filme Vinicius de 2005 (Camila Morgado e Caio Blat). Nao assisti (Claudia, voce viu? Gostou?). Se o pais tivesse uma industria cinematográfica de verdade, ja teria rendido muitos filmes. Com muitas perspectivas. Abs a todos. Eymard.
….ok, estou falando de filmes “sobre” o personagem Vinicius….O Orfeu da Conceiçao embalou a primeira ida de OBAMA (o cara) em um filme sobre tematica negra. Esta na outobiografia dele. Sua máe o levou para assistir Orfeu em NY. Ele vivia o dilema de ser e nao ser negro e branco ao mesmo tempo. Lembrei-me disso quando postei e minha consciencia (o grilo falante!!!) me fez voltar….eta consciencia!!!
LuciaC: belissimo trecho do poema “Haver”. Recolhi, sobre ele, uma interessante discussao:
“A versão do poema “O Haver”, de Vinicius de Moraes, publicado em “O Jardim Noturno”, foi colhida num original de 1962. Este original encontra-se hoje na Casa de Rui Barbosa. No mesmo arquivo do museu, há outro manuscrito, com modificações, visivelmente posterior. Ou seja, o poema ainda não estava em sua forma final. Por sua vez, a versão que Vinicius recita no disco “Vinicius de Moraes – Antologia Poética” está em “O Melhor do Pasquim 1969/70″, pág. 42. O poema então, quase oito anos depois, está pronto e publicado.” (Daniel Gil, em releituras)
Gosto desses registros precisos e preciosos! E da historia desses “manuscritos” com apontamos do autor e modificaçoes na estrutura do texto.
(mudando de assunto, me lembrei agora, desculpem, sou assim mesmo: voces viram o preço que se pagou recentemente para os originais e alguns livros de 1a. ediçao do W.Faulkner? Em um leilao recente arrecadou-se 833 mil dolares. “Um exemplar de Luz em agosto, de 1932 (Cosac Naify, 2007), com dedicatória ao escritor e jornalista Malcolm Cowley, também recebeu altos lances: seu vencedor desenbolsou 47 mil dólares.” (retirei a informaçao do site da cosac naify). Diga-se que Luz em Agosto é o meu preferido!
Beth, vá recolhendo esses originais do Dodo com as dedicatorias para voce….valerao uma fortuna!!! (rs)
Dodô,
Pois não vi o programa do Vinícius. Uma pena!
Achei que era mais tarde – quando fui ver, estava no final. Sergio Cabral e José Castelo participaram.
Sempre perco as poucas coisas boas que passam na televisão; pois quase não vejo TV.
Beth,
Siga o conselho de Lucia C, guarde as preciosidades que o Dodô escreve, e dedica a você. (risos).
Beijos a esse querido casal,
Sonia S
Dodô e Eymard,
Decididamente, eu sou uma atabalhoada. O conselho é do Eymard. Perdão, Eymard, para tornar mais leve minha gafe, confesso que pensei em você, pois sei que Luz em Agosto era o seu preferido.
Acho que a Beth, mulher de bom senso, seguirá o seu conselho.
Um beijo para todos, e….desculpas,
Sonia S
Dodô e Eymard,
Nenhuma insinuação ou mesmo incitação a vocês formarem uma dissidência de trio elétrico.
Abraços,
GENTE,
Vocês são ótimos! Vão acabar inventado a quadragésima-primeira cadeira da ABL só pra mim.
Agora, falando sério: quando fiz a homenagem ao Vinicius, não imaginava quantos convergências de saberes e emoções,quantas coisas lindas, dele e sobre ele, viriam à luz neste espaço, como se nos uníssemos para docemente contestar o que o próprio poeta escreveu:
“A vida é a arte do encontro, mas há tanto desencontro nesta vida”
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim.
Dodô
Ah Dodô, você usou as citações que mais gosto,
a arte do encontro e os carinhos sem ter fim.
Embora eu prefira os poemas às canções.
Certamente a ABL precisa de você por lá.