30 anos sem Vinicius e uma receita inesquecível

por Evandro Barreto

Em 1980 a poesia ficou de luto. Vinicius de Moraes cansou de ser “infinito enquanto dure” em tantas vozes desavisadas. A homenagem que um blog que trata de prazeres sábios pode prestar ao poeta é transcrever o final de um banquete para a alma. A última e mais relevante parte de sua Receita de Mulher.

“… Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida
Oh, sobretudo, que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias
A sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume
E destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita
De toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes

Pela transcrição,
Dodô