A camisa e o peixe

Por Márcia Luz | 24 de Setembro de 2008.

Essa aconteceu com uma amiga quando ela era adolescente, na época do primeiro Rock in Rio, meados dos anos 80. Nessa época, a mãe dela namorava firme um carioca, e as duas costumavam passar as férias no Rio de Janeiro, no apartamento dele. Boa praça, ele não se importou de hospedar cerca de oito adolescentes – eu incluída - amigos da garota, que saíram de Curitiba em caravana para assistir ao festival de rock.

O apê dele transformou-se numa espécie de acampamento de guerra: jovens por todo canto, dormindo na sala, uma zorra completa. A rotina era assim: dez da manhã, todo mundo acordava, tomava café e ia para a praia. No final da tarde, a galera voltava ao apartamento, tomava banho, se arrumava e ia para Jacarepaguá, onde acontecia o festival. Só retornávamos de madrugada, todo mundo morto de fome. A mãe da minha amiga, pessoa muito generosa e paciente, geralmente deixava um rango pronto na cozinha, já que - como todo adolescente que se preza - éramos duros demais para comer em restaurantes toda noite.

Bem, a história aconteceu numa dessas madrugadas. Chegamos em casa e, como sempre, fomos direto para a cozinha. Sobre o fogão, uma enorme panela. Eu fui destacada para esquentar a comida – pelo cheiro e aparência, tratava-se de uma bela moqueca de peixe. Enquanto a panela esquentava, peguei uma colher de pau e comecei a mexer a comida. Mas a colher enroscava em algo, eu não conseguia mexer, alguma coisa oferecia uma enorme resistência à colher. Fiz uma força enorme, e comecei a puxar algo muito estranho de dentro da panela. Quando finalmente consegui, o que saiu pendurado na colher? Uma camisa!!!!! Uma camisa enorme, masculina, toda empapada de leite de coco e dendê! Claro que ninguém comeu.

No dia seguinte, a explicação. A mãe da minha amiga tinha passado metade da tarde preparando a moqueca, com todo o amor e carinho. No fim da tarde, ela e o namorado sentaram-se na sala para um relax regado a uísque e salgadinhos. Depois de algumas doses, tiveram uma discussão por algum motivo – provavelmente bobo – que não me ocorre no momento. No meio do bate-boca, ele notou que o balde de gelo havia molhado quase toda a mesa. Sem pensar, levantou-se, ainda discutindo, pegou o primeiro pano que encontrou na frente e começou a enxugar a mesa. Nesse momento, a mãe da minha amiga levantou-se, aos brados:

- O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ USANDO PRA LIMPAR A MESA? A BERMUDA DA MINHA FILHA????

- Hein? Amor, eu não vi, não notei, desculpe…

- SEU CRÁPULA!!!! QUE FALTA DE RESPEITO!!!!

Furiosa, ela correu até o quarto e voltou brandindo uma camisa.

- É ASSIM? ENTÃO OLHA SÓ O QUE EU FAÇO COM A SUA CAMISA ITALIANA!!!!!

Impotente, o pobre homem viu a camisa virar moqueca. E o nosso jantar virar camisa.

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