A fonte em que Obama bebeu
por Evandro Barreto
Os quinze minutos de glória universal de “La Fontaine de Mars” duraram um pouco mais: o tempo necessário para o casal Michelle & Barak beber bem e comer melhor, num dos endereços gastronômicos mais acolhedores de Paris: 129, rua Saint Dominique – 7ème, nas proximidades da Tour Eiffel, mas prudentemente à margem do fluxo de visitantes. Chegando ou saindo, conforme o seu trajeto, você vê a estrutura metálica de diferentes ângulos, o que confere um charme adicional à localização, sobretudo à noite.
Depois da tempestade de mídia, a casa voltou serenamente ao uso e gozo dos iniciados, como vem acontecendo desde 1908. Nesses mais de 100 anos, outros bistrots, restaurantes e brasseries, bem como lojas elegantes, instalaram-se na rue Saint Dominique e arredores, atraindo um novo tipo de clientes e de moradores. Hoje, e sem fazer alarde, aquela área talvez seja uma das mais sofisticadas da cidade.
É aconselhável fazer reserva, mas não vá com a certeza de que a mesa estará à sua espera pontualmente no horário combinado. “La Fontaine de Mars” não favorece a pressa. Em compensação, tem mesas do lado de fora, onde você pode aguardar, quando o clima ajuda, e até fumar em paz seu cigarrinho. Em caso de frio ou chuva, passe para o lado dentro e sinta-se imediatamente aquecido, também no espírito. A iluminação é provida exclusivamente por lâmpadas incandescentes, sem aqueles tubos de luz branca e gelada que nivelam templos do paladar a agências bancárias.
Peça o aperitivo no balcão e divirta-se observando a fauna local, que está sempre debatendo calorosamente alguma coisa, do futuro do euro ao bojaulais nouveau. No melhor do papo, você será convidado a subir degraus um tanto íngremes e ocupar o seu lugar, dividindo o salão com uma gama interessante de freqüentadores, que pode variar de executivas americanas da indústria de cosméticos a economistas franceses vergados ao peso de tantos títulos acadêmicos.
Ignoro o que Obama degustou entre as especialidades do chefe, mas Betty la Blonde decidiu-se por um escalope de foie gras com lentilhas e eu, contra todo bom-senso numa refeição noturna, comandei um cassoulet. Ambos os pedidos justificaram o prestígio do estabelecimento, pela perfeição do preparo, pela cortesia do serviço, pelas opções de adega (escolhemos um Pouilly Fuissé). Na seqüência, um belíssimo camembert. La Blonde encerrou os trabalhos com a sobremesa que é o orgulho da casa – a île flottante. Como achei prudente não provocar o cassoulet, pulei esse pedaço e ative-me ao café. Chapeau!
Em paralelo à gastronomia propriamente dita, algo não previsto nos chamou a atenção: o tamanho dos guardanapos quadriculados em vermelho e branco, quase um latifúndio.Pelas proporções, eles estão para seus congêneres comuns como o “carré” do Hermes está para os foulards femininos convencionais. Ao perceber nosso fascínio, o mâitre antecipou-se a eventuais impulsos cleptômanos e nos ofereceu um par de exemplares.
Dias depois, ao acomodarmos o presente na bagagem de volta, dei valor redobrado à precisão geométrica de uma definição da minha avó, sapiente gaúcha da fronteira: “Adolescência é aquela fase em que se é pequeno pra toalha e grande pra guardanapo”.
Comments
Dodô, como sempre, um texto delicioso!! Sua avó era praticamente uma poetisa
Oi, Pedro, obrigado.
Minha avó parecia personagem de “O tempo e o vento”.
Que legal Dodô ! Claro que o charme de vocês gerou o mimo do garçon! Por falar em Obama, adorei vê-lo cantando Lets stay together. Será ?
Mada,
Se não for together com ele, há de ser com um antonio conselheiro do sertão de canudos do deep south. Hope not…
Abs,
Dodô
Em tempo: respondendo ao que você comentou no post imediatamente anterio, concordo que muitas vezes os comentários são mais divertidos do que o texto principal.
A minha avo, quando eu era pequena, dizia me que cassoulet apenas no sul, ou melhor em Carcassone, mas admito que este post me fez pensar: pour quoi pas?
Dodô, e como foi o sono após este cassoulet noturno?
Reparador?
Edu,
Sonhei com o General De Gaulle batendo continência pra mim.
Abs,
Dodô
Dodô , que belo texto !!! Este bistrot é um clássico ,e os pratos sempre divinos , o cassoulet marca registrada da casa é imbatível, a escolha da La Blonde perfeita , sobremesa idem .Ah….os guardanapos , são lindos,o bar aconchegante , a cortina vermelha dá um ar teatral.Na última vez resolvi experimentar uma carne com as famosas gratin dauphinois, e como sobremesa “pain perdu” , (amo rabanadas)com o sorvete de amendoas e a geléia derretendo no pão quente, uma perdição…Bom gosto ,bom paladar é com você.Insisto no livro ,seus textos são delícia de ler!Abs.
Francy,
Até eu, que não sou muito chegado a sobremesas elaboradas, fiquei com água na boca! Na próxima ida lá, acho que vou experimentar o “pain perdu”, talvez acompanhado por un verre de “Coin Perdu”, aquele do filme “Um bom ano”.
Certos livros são deliberadamento escritos, outros se fazem por conta própria. Talvez seja o que está acontecendo.Mais uma vez, obrigado.
abs,
Dodô
Raphaella Perlingeiro,,
Você tem razão. Cassoulet e Carcassone são duas pedidas tão bacanas que nem precisam vir juntas.
Abs,
Dodô
Dodô,
Tenho passado muito pouco pelos blogs.
Comentários, há muito não os faço.
Vida mais do atribulada tem me impedido de manter aquele bate-papo gostoso.
Seus textos e o CP, no entanto, são sempre lidos com prazer.
O final do texto primoroso aqui me trouxe de volta.
Do que você é capaz, caro Dodô!
Como sua sábia avó, embora tenha amarrado meu cavalo no obelisco, sou gauchíssima, da fronteira, mas bá, tche, e de Bagé.
Adoro, minha pequena cidade e os meus pampas.
Eu acho que muita gente da minha família também é personagem do Tempo e o Vento.
Tenho histórias primorosas e hilárias; e sábios ditados.
Um beijo e um carinho para você e para a Beth,
Sonia S,
Barbaridad! Que bom ter você de volta por aqui. Estávamos com saudades dos seus comentários e da sua vivência. A avó da mínha avó deve ter paquerado um certo capitão Rodrigo.
Vê se não some…
Beth e eu retribuímos o beijo e o carinho
Dodô