A mãe e o mico francês
Por Márcia Luz | 9 de Julho de 2008.Minha mãe sempre se preocupou muito com a minha educação. Mas não refiro-me apenas à escola, notas e boas maneiras em geral, mas também ao refinamento, a sofisticação, a cultura… o jenêssequá. E a educação gastronômica era parte importante dessa complexa formação.
Assim, desde muito pequena eu era conduzida a um ritual – bastante agradável, diga-se de passagem – de educação gastronômica. Uma vez por mês, íamos a restaurantes sofisticados, onde eu aprendia a experimentar os mais variados pratos, a lidar com talheres, a me portar a mesa e descobrir novos sabores. Com nove anos, eu já sabia manejar os talheres de escargots (não tinha nojo dos caramujos), dominava perfeitamente a arte de comer fondue sem levar um banho de óleo nem perder o pedacinho de carne na panela (chibatadas!) mandava muito bem nas ostras cruas e pronunciava os nomes mais complicados de pratos sem enrolar a língua – canard l´orange, fondue bourguignonne, blanquette de veau, kassler, eisbein, goulash, paella… e por aí vai.
Uma gracinha, né?
Mas um dia, o feitiço se virou contra a feiticeira. Estávamos no Rio de Janeiro, eu e minha mãe. Saíamos da praia com um amigo dela e suas duas filhas, quando ele teve a idéia de nos convidar para jantar. No Le Fox. Minha mãe ficou toda animada – tratava-se de um dos restaurantes franceses mais badalados na época. Eu também. Aceitamos.
Mais tarde, todos à mesa, comecei o show. Tinha uns dez anos de idade. Analisei o cardápio com ares de especialista, e mandei ver:
- Hummm… deixe-me ver… como entrada, uma dúzia de escargots à provençal, por favor. Em seguida, vou querer o foie gras com maçã verde; e como prato principal… creio que o escalope de veau a la creme parece perfeito. Ah, e pergunte ao chef como estão os crepes Suzette hoje, sim?
O garçom estava boquiaberto, o amigo da minha mãe, mudo e com os olhos arregalados, e minha mãe, vermelhíssima. Ela bem que tentou evitar: quando eu comecei o pedido, levei vários cutucões por baixo da mesa, mas ignorei-a solenemente – achei que era uma manifestação de orgulho.
Quando conseguiu falar, o amigo dela observou:
- Não vai ser mole encontrar marido pra moça, hein?
Apesar de todo o seu zelo, minha mãe havia esquecido de me ensinar uma lição: quem convida paga, e quando somos convidados devemos acatar as sugestões do pagante, e jamais pedir o quisermos, principalmente se forem os pratos mais caros da casa.
A conta paga pelo moço daria para alimentar uma família de seis pessoas por um mês. Ele nunca mais nos convidou, nem pra tomar um refri no boteco da esquina. Não sei porque.



Marcia,
Ainda bem que você não tinha idade para beber Se tivesse, a sofisticada genitora certamente proporia, pela ordem dos pratos: champagne Crystal, Chateau Petrus, Chateau Margaux. Como digestif, cognac Hennessy.
E Isordil para o pagante.
Hahaha é mesmo. O pobre estaria lavando louça até hoje!
Filhinhaaa! Você é um amor!!!