A sabedoria de Troisgros, as moléculas e os raviólis
Por Márcia Luz | 2 de Outubro de 2008.Adorei a entrevista que o Claude Troisgros concedeu à Gula de setembro. Além de chef de primeira grandeza, o homem é o máximo! Ele afirma à revista, por exemplo, que vê com desgosto o momento atual de algumas importantes culinárias mundiais, a começar pela francesa; e acredita que o uso indiscriminado e sem conhecimento adequado de produtos laboratoriais e de novas técnicas de cozimento está provocando a perda de identidade das cozinhas, inclusive da brasileira. Estou com ele e não abro!
Entre outros depoimentos, Troisgros diz que “nada substitui uma boa panela de ferro”. Apaixonei. Recomendo a leitura, totalmente. O fato é que o chef reacendeu um lado meu que andava adormecido: a rabugice gastronômica – e isso não é atributo dele; percebe-se generoso bom humor e adorável delicadeza em suas declarações.
Mas eu tenho ataques de rabugice quando me deparo com o que chamo de “cardápio-instalação-contemporânea”. Codorna cristalizada com flocos de acerola sobre leito de flores comestíveis carameladas e espuma de pimenta. Lâminas de peixe-espada salteadas em óleo de gergelim aromatizado com jabuticaba e emulsão de cardamomo. Sorvete de mussarela com abobrinhas assadas e pó de laranja.
Tenha dó. Não sou contra inovações, nem inimiga da criatividade. Mas o pedantismo assola as cozinhas atuais descaradamente! Socorro! Espuma, pra mim, é aquilo que o xampu e o sabonete fazem. Emulsão era um negócio que a gente passava na pele antigamente. E cozinha molecular, por favor! Parece coisa que astronauta leva consigo quando vai à lua.
Para me vingar (não sei de quem exatamente), resolvi ir almoçar em um lugar que é o oposto de tudo isso, e não dispensa a criatividade: a Cantina do Délio. O proprietário da casa, Délio Canabrava, é amigo das antigas e toca o restaurante e mais duas casas – o boteco Canabenta e o café Bella Banoffi – junto com a mulher, Renata, doceira de mão cheia. Pois bem. A Cantina é um daqueles lugares que você se sente em casa, não tem medo de quebrar nada e não precisa pensar na roupa adequada para aparecer por lá. Só precisa dos cinco sentidos em ordem, para aproveitar todos os sabores e perfumes que vai sentir. Em resumo, sem frescura. A proposta da casa baseia-se no trio “simplicidade, rusticidade e personalidade”, segundo o dono.
Délio viajou a Itália de norte a sul antes de abrir o restaurante para desvendar os segredos da cucina casalinga – a autêntica culinária caseira italiana. A pesquisa in loco resultou em pratos que conquistaram a clientela de imediato, como a bisteca fiorentina, de carne bovina, com batatas, brócolis e salada, ou o penne à putanesca, com anchovas, alcaparras e azeitonas. Aos sábados, serve-se uma paleta de carneiro com brócolis e batatas que faria Obelix corar de prazer. Os pratos são criados pela talentosa chef Gliciara Bueno.
Mas o meu almoço vingativo tinha um segundo objetivo: conhecer os novos pratos do cardápio, criados em homenagem à chegada da primavera (alguém precisa avisar Curitiba que ela chegou). Como entrada, trio de bruschettas: com tomates frescos e manjericão, caponata e caprese (tomate, mussarela de búfala e manjericão). Os dentes de baixo travam uma saudável batalha com a crocância do pão, enquanto os de cima afundam na maciez suculenta da cobertura. O nariz mantém-se ocupado com o perfume dos temperos. Já esqueci a espuma e a vingança quando chegam os pratos principais, que serão divididos com os amigos para ninguém perder nada.
Primeiro, provei o ravióli di pollo. Grandes raviólis de massa caseira (aliás, todas as massas não preparadas lá) recheados com frango, ervas e queijo cremoso e languidamente banhados com molho bechamel e parmesão. Suave, leve, macio e delicioso. Com alguma relutância, vou ao prato do vizinho: tagliatelle giardino, uma ode à estação das flores. O tagliatelle leva um toque de pimenta calabresa e limão siciliano na massa, e vem salteado com tiras de alcatra, alho-porró, cenoura, abobrinha e tomate-cereja. Comovo-me. Mas ainda é cedo, o genial ainda está por vir. Polpete com tagliatelle. O polpete é um bolinho de carne suína e bovina enrolado com especiarias, amêndoas picadas e uvas passas, e vem acompanhado de tagliatelle de manjericão. Simplesmente não dá para descrever a sensação de morder o bolinho e sentir as amendoazinhas sendo trituradas – croc, croc – a doçura da passa, a força da carne. Isso sim, é comida de gente! Ainda mais quando acompanhada de um belo vinho: Ninbus Estate Chardonnay para o ravióli, Ensaios Filipa Pato tinto para os outros pratos. Para finalizar, um inesquecível tiramisú preparado pela Renata. Ai, ai…
E agora, vai uma molécula aí?
Cantina do Délio – Rua Itupava, 1091/ Curitiba. Tel: (41) 3262-0823
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Querida, depois de meses de “convivência” comensal, terei que discordar de você. Primeiro, eu ODEIO o Troisgros e, consequentemente, tudo o que ele faz ou diz. Entrevista dele, nem pensar de ler. Em segundo lugar, adoro essas invencionices culinárias. O Alex Atala, por exemplo, faz isso com maestria. Os pratos ficam lindos e o sabor inalterado. Ou seja, coisa de gênio. Mas não há de ser nada. Seus textos (e é isso que importa) eu continuo lendo e adorando. Bjs.
Oieee Mari!
E que convivência, né? Somos fiéis leitoras e comentadoras uma da outra! E continuaremos assim! Olha só: que graça teria o mundo se todas as pessoas tivessem as mesmas opinões e gostassem das mesmas coisas? Nenhuma! E quanto a nós duas, é por isso que promovemos a diversidade no comensais. Eu sou mais “tradicional” e você adora as novidades, e os leitores têm coisas diferentes pra ler! Sobre o Troisgros, respeito seu ódio - alguma coisa deve ter rolado, né? E eu também gosto do Atala. Na verdade, me refiro mais ao exagero nas invencionices do que a elas propriamente ditas. Tem muita gente que não sabe fazer um bolinho de aipim gostoso mas se mete a misturar melancia com costeletas… sabe?
É isso, queri.
Obrigada pelo elogio!
beijocas!
Márcia querida, acho que você quis dizer “aliás, todas as massas são preparadas lá”, no oitavo parágrafo. Em todo o caso, sempre um texto maravilhoso, o seu, cheio de sabor, nuances, perfume. Beijos. Tio Luiz
Oiii, que saudades!
É mesmo, agora vi o deslize! Vou ver se dá para corrigir, obrigada!
E muito obrigada pelo elogio, querido tio, é sempre um prazer te ver por aqui! E pelo que sei, em breve nos veremos em Curitiba, né? Oba!
beijinhossssss
Marcia
adorei a codorna com espuma de pimenta…
outro dia vi uma tal de carne frita com molho de chocolate. pode ser chic onde for, mas eu ñ gostei.
Oiii James! Nossa, carne frita com chocolate… posso imaginar, mas jamais desejarei provar… Fico feliz em saber que te proporcionei algun minutos de diversão!
beijo!
Marcia
alguns, quis dizer…
Muito interessante o seu post. Estamos em sintonia (nós e mais um milhão de pessoas, graças a Deus)…essa história de molecular é bacana até um certo ponto.
Acabei de postar textos sobre isso tb. Moleculares, comfort food.
Abraços,
Bergamo
Olá, Bergamo!
Que bom que você gostou do texto. Eu ADOREI o seu blog! Muito inteligente, texto maravilhoso! Vou acessar sempre!
beijo
Marcia