A sociedade do desperdício e a sopa de cebola

por Evandro Barreto

O que têm em comum a crise mundial de liquidez, o aquecimento global e a epidemia de obesidade?  Os três fenômenos apontam na mesma direção: chegamos ao fim da Era do Desperdício, que no pomposo dialeto marquetês um dia recebeu o nome da “obsolescência planejada”.

Logo, logo, o arrocho dos salários e aposentadorias que se espalha pelo mundo vai adiar a troca daquele  IPhone 4S mal-saído da embalagem pelo moderníssimo IPhone 16Z, ansiosamente aguardado de Beijing a Quixeramobim. Pensando bem, também aquele carrinho 1.0, que ainda não deu oficina, pode rodar mais uns dois ou três anos.

Empreendedores rurais e urbanos estão aprendendo, da pior maneira, que, assim como o consumo, os insumos não são ilimitados, nem mesmo a água e o ar, num planeta sem fonte externa de abastecimento. E começam a descobrir que produção ambientalmente responsável, e focada no reaproveitamento dos descartes, não é romantismo, é esperteza.

Por outro lado, estatísticas da OMS comprovam que quanto mais alto o sanduíche, mais alto o colesterol, a glicose, a pressão arterial.  O custo do “big mac” local, como comparativo de poder de compra das diferentes sociedades, reflete-se diretamente no custo-saúde, independentemente da faixa de renda do guloso.

O irônico é que foi preciso os velhos e novos ricos perceberem que podem se tornar novos pobres para prestarem atenção na economia dos pobres de sempre. A feijoada nasceu na senzala, com os restos do porco que a casa grande desprezava. Quem quer que tenha convivido no interior do Brasil com imigrantes europeus e sertanejos nativos sabe dos pães assados no forno do quintal, das compotas feitas com frutas da estação para durar o ano inteiro, da paçoca e da tapioca, da carne de sol e do peixe salgado.Viver é simples, até porque a alternativa é péssima. Complicado é mudar de vida.

Diante da crise do primeiro mundo, com o nourráu de brasileiro que durante muito tempo passou por coisa semelhante    (e desconfia que a recaída pode estar esperando na esquina), proponho ao FMI a criação de um troféu destinado a estadistas, economistas e empresários criativos: o “Grand Prix Soupe à l’ognon”.

Não é preciso ser Bocuse para preparar uma refeição saborosa e revigorante com poucas cebolas, pão dormido, casca de queijo e água da bica.