Absinto
por Paulo Polzonoff Jr
Ouvi falar em absinto pela primeira vez ainda adolescente. Eu lia Goethe e, entusiasmado, comecei a estudar os poetas românticos, tanto os brasileiros quanto os europeus. O absinto era a bebida que movia esta turma, assim como hoje a cerveja é a bebida que move uma multidão de maus poetas em botecos pelo mundo afora. Dizia-se, porém, que a bebida azul esverdeada (ou verde azulada, depende de quem vê) era alucinógena. O que, aos ouvidos de um adolescente, pode soar uma coisa e tanto.
Não me levem a mal. Nunca fui chegado a drogas. Na verdade, minha educação neste sentido sempre foi pautada pelo medo – e deu certo. Minha vontade de beber absinto por causa de suas propriedades alucinógenas nada tinha a ver com certo pendor para a sarjeta. Era mais uma comunicação improvável com um passado em que as pessoas bebiam o que bebiam para ver o mundo de forma mais… poética.
Era, como se vê, um tempo de ingenuidade e fantasia.
O tempo passou e, em 2000, fiz uma viagem de mochileiro pela Europa. Naquela época, dizia-se que o absinto era proibido no Brasil. Verdade ou mentira, não sei. Só sei que a bebida tinha esta aura de transgressão. Eu falava às pessoas, antes da viagem, que traria uma garrafa de absinto e elas me advertiam severamente, dizendo que eu iria para a prisão. Claro que desisti da idéia.
Viajei. E já estava quase voltando para o Brasil quando, em Portugal (antes de embarcar para o Velho Continente, eu havia lido que o absinto era permitido na Terrinha), resolvi realizar este pequeno e tolo sonho adolescente: beber absinto. Foi na cidade de Cintra. Fazia calor. E minha impressão sobre este dia pode se resumir em uma imagem que não se apaga da minha memória: a de uma francesa, no ônibus que leva a um belo e colorido castelo, me jogando lânguidos olhares enquanto eu mirava, um tanto quanto enojado, os tufos de pêlo sob seu braço.
Diferenças culturais à parte, eis que lá estava eu. A mesma calça usada por trinta dias – como deve ser no caso de uma viagem deste tipo. Cansado. Numa terra estranha que, embora falasse minha língua, tinha pouco a ver comigo. Eu estava de saco cheio daquelas jóias arquitetônicas todas. Na verdade, eu estava de saco cheio de tudo. Queria apenas ficar na banheira do hotel por longas horas lendo meu recém-comprado exemplar de O Livro de Crónicas, de António Lobo Antunes. Mas, sabe como é, eu achava que tinha a obrigação de conhecer tudo o que fosse possível.
Foi numa curva que eu vi o bar. Uma birosca bem parecida com um boteco brasileiro. Pensei, num arroubo de inteligência: “Que se dane!” Atravessei a rua e entrei. Com toda a confiança do mundo, me sentei no balcão e, gaguejando, provavelmente, perguntei se ali se vendia absinto. O gajo disse que sim. Com toda a naturalidade do mundo. E me deu uma dose.
Que eu bebi a contragosto. Simplesmente porque – ó ignorância das ignorâncias! – não sabia que a bebida era à base de ânis. Mas bebi. Muito macho. Não deixei nem uma gotinha. E, já à saída do bar, disse orgulhoso para quem estivesse ao meu lado:
- Estou vendo umas coisas estranhas.
Estava nada, claro. Mas o poder da sugestão me dizia que, se eu bebesse uma dose de absinto, deveria ver coisas. E, se calhar, deveria escrever versos.
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