Almoços de primeira viagem

por Evandro Barreto

Você chegou onde sonhava. Deixou as malas no hotel e saiu para a inesquecível aventura do novo.

“ O que encontrarei quando dobrar a próxima esquina? Será que já vai dar pra ver o Arco do Triunfo (ou o Empire State, ou o Coliseu)? Que gente diferente! É melhor deixar o museu pra mais tarde, se não perco a hora do almoço. Por falar nisso, onde almoçar? O que é que eu vou pedir?”

Por mais viajado que alguém venha a se tornar, há sempre uma perplexidade inicial a ser lembrada. A lembrança pode ser boa ou má, para a gente rir no futuro ou lamentar o que fez ou deixou de fazer no Primeiro Dia. É claro que a insegurança faz parte de qualquer aprendizado, mas será administrada de um jeito melhor a partir de um mínimo de informação, dada de boa vontade por quem já pagou os próprios micos e passou batido por interessantes possibilidades, sem ter como reconhecê-las.

Existem publicações, sites e blogs de orientação a viajantes de grande sabedoria e utilidade prática (para quem vai à França, conexaoparis.com.br é imperdível). Na Idade da Aldeia Global, sobram informações sobre qualquer destino do planeta. Volta e meia, até Hollywood trata do assunto. Para citar apenas duas produções, lembro-me de “O turista acidental” e “Se hoje é terça-feira, isto aqui deve ser a Bélgica”. Aliás, King Kong poderia se chamar “Como não se comportar em Nova Iorque”.

Mas certos truques a gente só aprende mesmo é no boca-a-boca. Nos Comensais, a mesa é mais importante do que a mala. Por isso, pretendo abrir um forum de pronto socorro estritamente gastronômico, alimentado por nossos blogueiros e comentaristas e dirigidos aos estreantes em terra estranha, mesmo dentro do Brasil.

Começo eu, aqui e agora, e convido cada um que tiver bom coração, estômago veterano e muita milhagem anotada a contribuir com sua sapiência.

Minhas dicas

- Se a distância for grande, você terá mudado de fuso horário e de temperos, além de ser atingido em pleno vôo pela comida do avião. Portanto, pelo menos nos primeiros dias, contenha impulsos extravagantes.

- Na hora de escolher onde almoçar, importe-se mais com a localização do que com a decoração. O luxo combina melhor com o jantar. Procure um café ou uma delicatessen com vista para uma rua interessante e sente-se na varanda ou junto à janela.

- Antes de entrar, consulte o cardápio afixado na entrada, para familiarizar-se com as opções disponíveis e seus preços. Toalha e guardanapos de pano, talheres de metal e copos de vidro são requisitos fundamentais. Se você não faz um picnic ao meio-dia desde a infância, não há razão para fazer logo agora.

- Evite bebidas alcoólicas à luz do sol. O dia promete ser movimentado e a noite longa, se você pretende aproveitar a viagem por inteiro. Existem águas engarrafadas ótimas, como a Evian e San Pellegrino, sem falar na Perrier, símbolo de status preferido pelos yuppies, antes que a crise extinguisse a espécie.

- Se o garçom demorar a atender, dê um tempo sem se estressar. Ele tem mais pressa do que você, porque trabalha durante o seu passeio. Evite mímicas para chamar a atenção dos atendentes. Elas podem ser mal interpretadas e respondidas com mímicas muito piores.

- Aproveite o tempo de espera para estudar o cardápio em detalhes e tentar entender o que ele diz. Mas não se assuste com eventuais dificuldades Em último caso, pizza é sempre pizza e salada soa parecido em todas as línguas ocidentais.

- Se preferir um prato quente, leve e saboroso, peça omelete ou crepe. As palavra são hoje quase tão universais quanto táxi ou hotel.

- Não se esqueça de pesquisar as sobremesas, no fim da lista. É muito difícil encontrar uma que seja totalmente ruim e você vai precisar de calorias para gastar nas andanças. Cafezinho, só se for expresso.

- Em grande parte dos países, o serviço do garçom é cobrado junto com a conta, como parte de acordos trabalhistas. Logo, é obrigatório, variando de 10% a 15% do valor do consumo. Se você ficou muito satisfeito, acrescente o que tiver vontade. Despeça-se na saída… e tenha uma boa tarde.