As cabras nas aldeias
por Autor(a) Convidado(a)
por Cesar Barroso
Num arraial dominado por chateaux, precisa ter coragem de colocar “As Cabras nas Aldeias” o nome de um vinho. Total Wine é uma loja grande de vinhos aqui perto de casa. Suas longas prateleiras dividem os vinhos por uvas e países. Até aí, morreu Neves. Mas no final de cada prateleira tem uma área com os rebeldes, os descamisados; vinhos de vinícolas desconhecidas ou de misturas de uvas incomuns.
Seguindo os impulsos de minha natureza, a passagem por essa área é obrigatória. Eis que há pouco dei com um rótulo atrativo: numa aldeia africana, uma mulher sentada no chão à frente de duas cabanas, e, embaixo de uma árvore um menino apascentando cabras. Origem: África do Sul.
O vinho já foi se mostrando rebelde na caixa. Na prateleira o preço era US$6,99 e a leitura do código de barras acusou $10,99. Levei a moça comigo na prateleira para mostrar os $6,99. – “É, mas vale o que está no código de barras”. – “Não, senhora, vale o que está na prateleira”. A gerente veio e eu sabia que era parada ganha no país do custommer service. Levei um novo saca-rolhas para cobrir a diferença. “Esse vinho dá sorte”, pensei, “vamos ver se a mistura de 78% shiraz com 22% pinotage também dá”.
O nome da vinícola é “As Cabras Vivem Vadiando”(“Goats do Roam”). Vê-se que a fixação caprina não está apenas no nome do vinho, mas é uma constante na vida do viticultor. O texto no verso da garrafa explica muita coisa. Vamos a ele:
“A África faz desabrochar o melhor de cada pessoa. Com sua imensidade e beleza brutal, e a intensidade do seu cotidiano, a África extrai do mais fundo das reservas espirituais de cada um. Rebecca e Gary Mink mudaram-se dos Estados Unidos para os ermos do Caprivi na Namíbia do Norte onde fundaram o Children of Zion Village para cuidar dos órfãos da AIDS. Sua imensa coragem e determinação, porém, não podiam superar a limitação de seus recursos financeiros, e logo foram sobrepujados pela grandeza do problema. Foi feito um pedido urgente de cabras – e imediatamente um grupo de jovens cabritos e cabritas daqui do “As Cabras Vivem Vadiando” se apresentaram como voluntários e partiriam rápido para o norte para fornecer o leite nutritivo e a agradável companhia. Nossos colegas caprinos que permaneceram aqui no Western Cape, selecionaram com cuidado as uvas para fazer esse vinho complexo. Shiraz opulento e aromático, pinotage robusto e maduro, são cuidadosamente mixados para valorizar a fruta, enquanto uma carvalhagem(acuda, Guimarães Rosa! NT) ponderada adiciona elegância e estrutura, fazendo justiça ao nobre gesto das Cabras que Vadiam pelas Aldeias Africanas. Desfrutem esse vinho com carnes churrascadas e pratos de paladar forte”.
Comensais, não é lindo quando criatividade, humor, gentileza, comiseração pelos que sofrem e respeito pelos animais se juntam numa garrafa de vinho? O vinho é bom, como anunciado, e realmente faz jus às cabras vadias do continente-mãe de onde saímos há 60 mil anos para povoar a Terra e vadiar.

Comments
Cesar Barroso, jornalista e fotógrafo brasileiro radicado nos Estados Unidos, tem sido um assíduo e brilhante comentarista dos Comensais. E agora comparece como autor convidado, abordando um assunto até hoje pouco aborado neste blog: os vinhos da África do Sul.
Bem-vindo, César.
Abraços,
Dodô
César,
Meu marido gosta muito dos vinhos da África do Sul .
Eles têm personalidade.
Esse êle não conhece.
Não sei porque, ele me lembra o Jorge Amado que era chegado em cabras e vadiagem.
” As cabras vivem vadiando”, parece título de romance do baiano de Ilhéus.
Saúde !
Caríssimos Beth e Dodô,
Não é todos os dias, em nossas vadiagens, que encontramos amantes da camaradagem, do papo solto, da boa mesa. como vocês e a turma desse blog.
Antes de dominar uma arte, é preciso viver. Vivamos, e a arte virá em consequência. Vivendo, vocês dois criam arte, a aproximação de boas gentes nessas linhas Comensais.
Para mim é uma honra estreiar participação ativa no site, que já frequento com assiduidade na leitura dos ótimos posts , e comentando.
Gostaria que vocês abrissem esse link – http://goatsdoroam.com/wp-content/files_flutter/1282032824_3_1_1_2_label_shot.jpg – e vissem o rótulo do vinho, obra de originalidade que espelha uma atitude ecológica e pacífica do seu autor. Adorei o detalhe da galinha com seus pintainhos. O que seria da gente sem beleza e criatividade?
Mais uma vez, Beth, Dodô e, last but not least, Márcia, um grande obrigado para vocês.
Cesar
Também gosto muito dos vinhos da Africa do Sul e este também não conheço. Vou procurar por aqui.
Concordo com a Helena quanto ao nome do rótulo… rs…
Prezada Helena,
Desculpe a minha desatenção. Pensei que o seu comentário fosse da Beth.
Seu marido tem bom gosto, e certamente você também.
James Michener em um livro de 1980 sobre a África do Sul – “A Aliança”(“The Covenant”) – destina dezenas de páginas à luta da implantação de videiras vinícolas na África do Sul. Custaram a vingar e dar bom vinho.
Desculpe-me mais uma vez, e bom domingo,
Cesar
Cesar, sorvi o texto!!! (risos). Gostei da historia. Pelo visto um bom vinho para uma tarde de vadiagem. Abs, Eymard. (por aqui o Goats do Roam sai entre 40/50 reais, mas eu nao conhecia esse rotulo “pra la de interessante”; que maravilha comprar um bom vinho por 7 dolares!!!!).
Cesar,
Delícia de texto. Gostei de tudo.
O nome do vinhedo e o nome do vinho são ótimos.
O rótulo, então, lindo
Só os portuguses ousam pôr nomes nada ortodoxos em vinhos e vinhedos.
Gostei desse lugar nas prateleiras destinado aos vinhos, que, você, Cesar, com fino humor, chama de ” aos descamisados”.
Combina com cabras, sim; com “A Cabra Vadia”, de Nelson Rodrigues.
Parabéns!
Um abraço,
Cesar querido amigo
Bem-vindo o vinho que vc trouxe à mesa dos Comensais!
Por aqui só tem gente boa e de bem com a vida,,,
Um beijo
Beth
César, posso inserir a imagem do rótulo do vinho no fim do seu post, que tal? Abs, Pedro.
Prezada Terezina,
O Eymard fez sinal que o vinho está à venda no Brasil. Acho que você não se arrependerá.
Prezado Eymar,
Os impostos de importação brasileiros não são fáceis, hem!
Espero que para você valha a pena, e a qualidade do vinho pelo menos deixe o preço justo.
Oi, Sonia,
Ah, a famosa cabra vadia do Nelson Rodrigues! Aquilo sim é que era humor. Nelson Rodrigues faz falta.
Quanto ao vinho, pode jogar na cabra que vai dar na cabeça.
Querida Beth,
Ça va sans dire. Turma da melhor qualidade.
Oi, Pedro,
Um grande favor você inserir o rótulo no texto. Seria ótimo.
César, tá lá!!!! Espero que goste
Abs, Pedro.
Pedro, ficou otima a ilustraçao. Esse rotulo é um achado do Cesar.
Pedro,
Ficou muito legal. Você é mestre em blog.
Eymard,
Não é lindo o rótulo? Ficou muito bom embaixo do post.
César, separa uma garrafa, quando eu chegar em Outubro quero experimentar também!
O texto ficou ótimo!
Grande abraço.
Amigos do Comensais,
Deixem eu fazer a apresentação: Ricardo Adami, um dos ex-proprietários do Alho & Óleo, atualmente grande fotógrafo carioca, enólogo, e amigão de alguns anos.
Adami dentro de um mês virá a Miami, e iremos numa viagem a Saint Augustine, no norte da Flórida, fotografar o delta do rio Matanzas, Washigton Oaks e a arquitetura sulista da cidade mais antiga dos Estados Unidos, fundada pelos espanhóis em 1565, mesmo ano do que o Rio de Janeiro.
Adami,
Ainda tem dúvida?
E coloque o Comensais entre os seus favoritos, que aqui são todos como nós, amigos da boa mesa e da camaradagem.
Cesar, muito bom seu texto! Valeu desvendar os mistérios desse vinho nos comensais.
Que bom que o Eymard já localizou as cabras do Shiraz por aqui. De fato o rótulo é bem legal.
Adami, adorava o Alho e Óleo !
Obrigado, Madá,
O Alho & Óleo era um restaurante de primeira categoria. O Adami vai gostar de saber que você adorava. Eu também gostava muito. Uma pena muito grande que fechou.
Abraço,
Cesar,
Eu adorava o Alho & Óleo; era um restaurante que íamos muito e até hoje lamentamos que tenha terminado. Cotinua lá, eu sei, mas não como era. Agoro, entendo o porquê!
Estou encantada com essa viagem que vocês vão fazer; não nos privem dos relatos e das fotos.
Um abraço,
Oi, Sonia,
O A&O, segundo o Adami, começou a ter problemas com a abertura da filial de Ipanema, que foi asfixiada pelas obras do metrô, e teve que ser fechada com muito prejuízo. Ele deixou a sociedade um pouco depois. Eu soube pelos jornais que o restaurante do Flamengo fechou há mais ou menos um ano. Agora você me surpreende com a notícia de que continua lá. Vou checar com o Adami o que aconteceu.
Quanto à viagem, mandarei notícias. Mantenho um blog com minhas fotos: http://havaiaqui.wordpress.com.
Aqui link de uma viagem fotográfica que fizemos em janeiro, às Montanhas Smoky: http://havaiaqui.wordpress.com/2010/01/20/savana-e-montanhas-smoky/.
Abraço,
Cesar,
Se você tem essa informação do Adami; certamente procede. Apelei para minha memória que é boa; e há uns dois anos passamos pela casa do Flamengo. Estava aberta. Pensei que por lá continuava até hoje. Lembro-me que comentamos o quanto fora boa e fomos jantar no Alcaparra, outro restaurante que decaiu muito.
Muito obrigada pelos links.
Um abraço,
Oi, Sonia,
Lamento saber sobre o Alcaparra. Costumava ser uma boa opção de almoço de domingo. Eles têm no Centro o Aspargus, na rua Senador Dantas, no Clube dos Seguradores e Banqueiros. Era muito bom, e espero que continue.
Abraço,
Comensais,
Não me contive e mandei um email contando a história desse post para a vinícola Goats do Roam:
“”Dear Sirs,
Firstly, I was attracted by the label of the “Goats in Villages”, shiraz
pinotage(for me a unique blend). I loved your wine.
Then, I wrote a post for a gourmet blog in Portuguese. The focus in the post is in the text in the back of the bottle. What a piece of humorous and compassionate text you wrote! Congratulations.
I am a Brazilian photojournalist living in Miami, Florida.
Here is the link to the post:
http://www.comensais.com.br/as-cabras-nas-aldeias.htm.
Best Regards,
Cesar Barroso
http://www.cesarsphotos.com“”
E eles gentilmente responderam, e mandaram o site do orfanato:
“”Dear Cesar,
Thank you for your email. We’re pleased that you liked our wine as well as the true story on the back label. Thank you for posting about our wine on your blog. If you’re interested in learning more about the orphanage referred to, you may visit their website at cozvt.childrenofzionvillage.org.
Best regards,
Robin Back
The Goats do Roam Wine Co.
Paarl, South Africa”"
Nossa história está dando a volta ao mundo.
Abraço,
Cesar,
os Comensais agradecem o “merchandising” transatlântico do blog e esperam novas descobertas eneologicas igualmente interessantes na “prateleira dos descamisados”.
Abraço,
Dodô
Dodô,
Espero novidades em breve.
abraço,
Cesar