Até tu, Belmonte?

Por Paulo Polzonoff Jr | 4 de Junho de 2008.

Sexta-feira. Rio de Janeiro. Chuva. E, para os padrões cariocas, frio. O avião faz um pouso amedrontador no aeroporto Santos Dumont por causa do vento. Não há táxis disponíveis. O mar está agitado. A cidade, cheia de poças d’água. Mas tudo bem. Eu vou ao Belmonte.

Morei alguns anos no Rio de Janeiro. Freqüentei os mais afamados bares da cidade. Durante muito tempo o Jobi foi o meu preferido. Mas só até eu, curitibano nato, enjoar do ambiente claustrofóbico, do barulho e da sensação de ser excluído por não fazer parte de uma espécie de sociedade secreta. Eis que descobri o Belmonte, e com ele me casei.

Não qualquer Belmonte. Para quem não é carioca, vale a explicação: o Belmonte é uma espécie de franquia na cidade. Tem Belmonte no Flamengo, Ipanema, Leblon. Estou com preguiça de pesquisar, mas deve ter também na Barra, em Copacabana, Botafogo e Gávea. Eu sempre freqüentei o Belmonte do Leblon. E, quando vou ao Rio, o bar é parada obrigatória ainda.

Cada um tem o seu motivo para escolher este ou aquele bar. O Belmonte, para mim, tem um bolinho de bacalhau delicioso (que, é necessário dizer, já foi melhor) e um pastel de camarão perfeito (só massa, sequinha, e camarão – mais nada). Além disso, tem uma deliciosa canja de galinha com hortelã para se tomar depois do décimo-quinto chope. E o atendimento não exagera na empáfia dos botecos tradicionais do Rio de Janeiro, como o Jobi e o Bar Lagoa.

Além do mais, o Belmonte foi, para mim, palco de noitadas memoráveis na companhia de dois bons amigos. Muito chope (muito meeeesmo), pastéis, empadas e, claro, bolinho de bacalhau. Muitas dores ali divididas. E alegrias. E dúvidas.

Uma das coisas de que mais gosto no Belmonte é o banheiro. Não sei o quanto doido isso vai soar, mas… O fato é que, no mictório masculino do Belmonte, coloca-se grandes pedras de gelo. Sim, gelo. Você faz xixi no gelo. E o gelo derrete aos poucos. Não sei se este expediente tem alguma propriedade anti-séptica. Mas sei que, depois do décimo chope, mijar no gelo é deliciosamente encantador.

Mas.

Mas na sexta-feira passada fui ao Belmonte. Havia velas sobre as mesas. Estranho. Achei que aquilo conferia ao bar um clima romântico que, bem, não combinava em nada com um boteco. Perguntei, logo na entrada, quem havia morrido. A mocinha que fica na porta coordenando as mesas me disse que era por causa dos mosquitos. Mas em noite de chuva? Deixei passar. E me sentei à mesa onde, aliás, não havia vela alguma.

Sento, cumprimento os amigos, reclamo da chuva, peço meu chope e, de cara, meia-dúzia de bolinhos de bacalhau. E eis que sou alertado por uma das pessoas à mesa para um objeto estranho naquele lugar: uma televisão. Ligada.

O antro da conversa, da convivência, dos porres deliciosos nas noites quentes ou chuvosas rendeu-se à passividade bovina da televisão. Nada contra o aparelho, desde que dentro de casa. Num bar, é uma heresia, um pecado, uma aberração. Por mais que a conversa fluísse com gosto, de vez em quando se olhava para ela, a televisão, para a imagem tremulante e sem som.

Coincidência ou não, naquela noite o atendimento, sempre primoroso, estava esquisito. Uma das coisas mais interessantes de se freqüentar um boteco carioca é que os garçons vêm à mesa sem que seja preciso chamá-los. Para mim, que sou invisível a garçons em qualquer lugar do mundo, isto é uma benção. E meu copo de chope sempre está cheio, até que, à beira do coma, eu peça a derradeira dose. Desta vez, porém, tive de chamar o garçom duas vezes. O copo ficou vazio. Encostados numa pilastra, os garçons riam e olhavam para ela, a televisão. Hipnotizados.

Se deixarei de ir ao Belmonte? Provavelmente não. Ainda. As memórias que tenho do bar são boas demais. E o pastel de camarão não tem igual. Mas se, por algum acaso, decidir que jamais porei os pés lá novamente, antes terei de perguntar ao dono, ao gerente, ao garçom, em alto e bom som: “Quem foi o idiota que teve a idéia de colocar uma televisão aqui”?

Rating: ★★★☆☆

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