Atum com fígado

por Paulo Polzonoff Jr

Odeio quando vou ao médico e ele começa a fazer um monte de perguntas sobre as doenças que tive ou procedimentos médicos por que passei. Simplesmente porque nunca tive nenhuma doença séria. Nunca sequer fiquei internado. Nunca quebrei um osso. Não tenho doença crônica alguma. Resultado: fico com vergonha. E, confesso, me bate até uma vontadezinha de mentir e colocar um colesterol ou pressão alta no meio da frase, só para me sentir menos saudável.

O mesmo acontece quando uma empregada nova me pergunta o que gosto de comer. Implícita na pergunta está, na verdade, o que não gosto de comer. Compreensível. A moça quer agradar ao patrão. E é bem provável que ela já tenha trabalhado na casa de pessoas com sérias restrições alimentares. Sempre que isso acontece, fico procurando nos cantinhos da memória por algum ingrediente que não me desce. E vou logo botando a culpa toda no atum, coitado.

O fato é que não tenho restrições alimentares. Nem quanto ao atum. Para dizer a verdade, eu adoro atum. Não gosto é do cheiro do atum enlatado. Ou melhor, do atum enlatado comum, porque outro dia, na casa do meu amigo Flávio Bin, me fartei com deliciosas postas de um atum enlatado importado diretamente do Paraíso.

Quando criança, porém, eu envergonhadamente confesso que era um chato. Não gostava, por exemplo, de cebola. Até hoje não entendo por quê. Tive ainda uma fase de dizer que não gostava de tomate. Se bem que, aos dez anos, eu adorava comer tomate puro com sal – o que deve ter sido a causa de uma esofagite que me acometeu anos mais tarde. No mais – e como toda criança – não gostava muito de salada, mas daí a dizer que eu não comia salada de jeito nenhum é um absurdo. Simplesmente preferia um bom bife.

Ainda agora, escrevendo este texto, fico procurando por algo que não coma. Algo de que eu tenha nojo. Eu arriscaria dizer… fígado. Mas a verdade é que faz tanto tempo que não como fígado que não sei nem que gosto tem. Algo me diz, contudo, que quando penso em fígado confundo o sabor com moela.

Lembrei disso tudo também porque estava relendo O homem que comeu de tudo, de Jeffrey Steingarten – simplesmente um gênio dos textos sobre comida. Ao ser contratado para trabalhar como crítico gastronômico da Vogue, Steingarten pensou que não poderia ter restrição alimentar alguma, que isso seria antiético ou coisa que valha. Logo, fez uma lista de todas as coisas de que não gostava ou que achava não gostar e se pôs à prova. Resultado: descobriu que não há praticamente nada que um homem adulto e inteligente não seja capaz de comer.

Inclusive, diria eu, atum e fígado. Ou melhor, atum com fígado.