Bizarrices gastronômicas

por Simone Mattos

Todos os que têm um mínimo de respeito pela gastronomia irão concordar comigo. De uns anos para cá as cidades foram invadidas por uma espécie de restaurante incompreensível para mim. As churrascarias. Calma, não estou falando daqueles antigos e tradicionais restaurantes em que – embora nunca tenham sido o meu gênero preferido – os garçons se limitavam a servir picanhas, alcatras, costelas e similares acompanhadas de sensatas porções de saladas, farofa, maionese e, no máximo, banana à milanesa. Não, eu estou falando das modernas e histéricas churrascarias. Aquelas que colocam num mesmo buffet mariscos ao lado de lasanhas, sushis com gosto de plástico dividindo espaço com risoto, peixe assado brigando com queijos, salames, azeitonas e muitos, mas muitos garçons baratinados ziguezagueando pelo salão com carnes no espeto, queijos derretidos no espeto, abacaxis no espeto. Enquanto isso, outros insistem em colocar no seu prato nhoques fritos, espaguete aos molhos mais estranhos do mundo e outras opções que não combinam com nada que foi citado até agora. Assustada, eu pergunto: mas colocar onde, moço? Não cabe. No meu prato já tem uma picanha sangrando, mexilhões, lasanha, bolinho de bacalhau, sushi e três tipos de queijo, onde pôr o nhoque frito? É um festival surreal. Mas a pior parte e mais caótica deste tipo de aventura bizarro-gastronômica que alguns insistem em chamar de refeição é a impossibilidade de manter um diálogo à mesa. Bem, preciso fazer aqui um parênteses e explicar que, para mim, o mais importante momento numa refeição é o compartilhamento, as conversas, a delícia de dividir uma mesa, uma ocasião e, é claro, comidas deliciosas com pessoas que adoramos. Outro parênteses: por este motivo eu sou particularmente fã da culinária japonesa que leva as pessoas inclusive a compartilharem de um mesmo barco de sushis, por exemplo, enquanto conversam despreocupadamente. É o máximo da comunhão entre amigos ou familiares, fecha parênteses. Agora, voltando à cena da histérica churrascaria, eu pergunto: como alguém na face da Terra conseguiria manter dois minutos de um diálogo em meio àquele caos? Eu digo dois minutos porque é o tempo máximo até o garçom com a costela pingando gordura no seu colo interromper a sua conversa e o outro moço, o do nhoque frito, aparecer sorrindo e despejando aquela estranha iguaria em seu abarrotado prato. E o que eu estava falando mesmo? Qualquer conversa encerra ali, sem nenhuma chance de recomeçar.