Botecos de Belo Horizonte

por Autor(a) Convidado(a)

Por Délio Canabrava

Experiente botequeiro curitibano, proprietário da Cantina do Délio e sócio da Bella Banoffi; Délio Canabrava é um hiperativo pesquisador do mundo gastronômico. Viaja constantemente atrás de novos lugares, idéias, aromas e sabores. Sua aventura mais recente foi uma visita ao festival Comida di Buteco, em Belo Horizonte, quando se tornou correspondente temporário do Comensais. Délio conseguiu uma façanha: visitou 30 botecos em três dias, numa espetacular média de dez botecos por dia, alimentando-se basicamente de torresmo e cachaça. Incrivelmente, ele afirma que não teve azia, problema que o atormenta constantemente. Talvez esteja surgindo uma nova descoberta medicinal: torresmo e pinga evita acidez do estômago.

Dessa jornada pelo universo botequístico de BH, Délio tirou algumas conclusões gerais:

• Simplicidade e autenticidade – ninguém faz pose, os donos de bares são pessoas simples e têm muito orgulho de suas raízes. A simpatia reina absoluta.

• Dono da casa na casa – invariavelmente, os proprietários dos botecos estão sempre presentes em seus estabelecimentos, seja atendendo o público, cozinhando ou servindo. Talvez esse seja um dos elementos mais importantes para garantir as casas sempre cheias.

• Democracia – no boteco, todos são iguais, por mais diferentes que sejam. Os botecos de BH são cenário de grande diversidade humana.

• Todos os botecos oferecem pinga e torresmo. E há também o KAOL – carne, arroz, ovo e lingüiça – prato mineiríssimo, oferecido em qualquer casa.

• Copo Lagoinha – é como eles chamam o copo americano. Lagoinha é o bairro das, digamos, senhoras de vida fácil.

• O termo usado para os estabelecimentos “menos sofisticados” é copo sujo, ao invés do comum pé sujo.

• A grande maioria das casas têm mesas na calçada, em alguns casos até na rua, não aceita cartões e não utiliza computador. Quase todos têm um quadro de regras, as mais variadas possíveis, como “não pode subir nas mesas”; “não servimos angu nas terças-feiras”, etc etc.


• Vários botecos têm a cozinha no meio do salão e o caixa é junto da cozinha. Vai entender o porque…

• Os mineiros amam jiló, usam como se fosse cebola.

A seguir, alguns destaques da cobertura de Délio:

BARTIQUIM – O dono, seu Bolinha, costuma sentar-se estrategicamente na esquina, de onde observa tudo. Vende 80 kg de língua e 40 kg de torresmo por dia. Lema: “experimente minha língua e depois coma o rabo do vizinho”. É que o bar ao lado, o Temático, é conhecido pela rabada. O carro-chefe da casa é Pirei com a Língua (língua ao molho com purê de batata e torresmo).

BAR TEMÁTICO – A especialidade da casa é a rabada, e os nomes dos pratos fazem várias gracinhas com a palavra “rabo”. É o caso do prato Com a Mão no Rabo Doce, composto de rabada assada no bafo, servida com batata doce e agrião. Detalhe: é para comer com a mão mesmo, e ao invés de talheres o cliente recebe uma luva de plástico.

KÖBES BAR – Esse alia a mineirice ao sotaque alemão, já que a mulher do dono é uma gaúcha de ascendência germânica. Não por acaso, o prato que participa do festival é o Mineirice com Sotaque Alemão – torresmo estalinho com molho negrito, bolinho de carne e croquete de cenoura com molho de mostarda. Há 300 garrafas de pinga dispostas numa mesa no centro do bar, à disposição dos clientes.

BAR DO ANTÔNIO (PÉ-DE-CANA) – Há dois pés de cana plantados na frente do bar. Apesar de o prato concorrente do festival ser Rolinho de Lagarto com Presunto de Parma, Délio aprovou mesmo foi o Galopé – galo velho cozido com pé-de-porco.

BAR BRASIL – Não participa do festival, mas é um local antigo, tradicional. O orgulho da casa é servir o maior torresmo de BH, com aproximadamente 15 cm. Serve um prato à base de pescoço de peru que, segundo nosso correspondente, lembra uma rabada e é uma delícia.

CASA CHEIA – Fica no mercado central, e faz jus ao nome: mal dá pra se mexer de tanta gente que concentra. Todos os pratos levam orapronobis, famosa verdura mineira, parecida com almeirão.

PAULO´S BAR – Um local simples, “de vila” (expressão autoexplicativa do Délio). Servem uma excelente carne-de-sol com manteiga de garrafa. Uma curiosidade: os clientes têm que pagar se quiserem ver jogo de futebol pela televisão do bar, algo como R$ 1,00 a hora. Em dia de decisão é mais caro.

222 BAR – Era um salão de beleza, e a cabeleireira costumava servir café e bolo para os clientes. Evoluiu para boteco, mas ainda mantém os serviços de cabeleireiro. Dentro do bar. Imagine, cortar o cabelo tomando cerveja.

BAR DO DOCA – Único na cidade a servir torresmo na grelha (normalmente o torresmo é frito). As mesas chegam a invadir o asfalto nos dias mais cheios.

BAR PALHARES – No centro de BH, é um dos melhores na avaliação do Délio. Resume-se a um balcão em forma de U com 24 banquetas em volta, mas serve até 300 almoços por dia.

MERCEARIA LILI – No mínimo intrigante. O dono não tem cartão de visitas, não tem telefone nem celular. Ligações para ele, só no telefone público em frente ao bar. O local é escuro, inclusive a cozinha. A cozinha é mínima, só há uma cozinheira, mas o cardápio oferece 90 pratos. E muito bons, incrivelmente. O destaque é o Pé no Rabo – rabada com pé de porco. Ah, esses mineiros…

BAR DA ANA – O dono faz tudo: atende, cozinha, limpa, lava, passa. A comida é ótima, tudo feito com banha. O bar é famoso pelo ossobuco, mas também merece igual respeito o granito – carne de maçã-de-peito, bem gordurosa, lembra o cupim, e é uma delícia.

BAR DO ZEZÉ – Serve um rabinho de porco cozido delicioso – a essa altura, nos impressionamos com a resistência do fígado do nosso correspondente – jiló recheado, galinhada e angu… tudo maravilhoso.

BAR DO CAIXOTE – Literalmente. Não tem mesas nem cadeiras, só caixotes. No cardápio, além de comida e bebida a casa serve Sonrisal e Sonridor.

BAR PATORROCO – Decoração criativa e cardápio idem: servem uma espécie de acarajé mineiro, com massa de milho e recheio de pernil.

BOLÃO – Lugar de respeito, onde os verdadeiros boêmios mineiros terminam a noite (a casa fecha às sete da manhã), freqüentado por gente como Lô Borges, músicos do Sepultura, J. Quest, Skank, entre outros. Serve um excelente espaguete, prato de resistência da casa.

Agradecimentos do Délio: à gentil acolhida do pessoal de BH e especialmente à família Canabrava Damas, que tornou possível o cumprimento da intensa jornada.

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