Café amargo

Por Paulo Polzonoff Jr | 5 de Junho de 2008.

Durante anos freqüentei o Café Severino, que fica dentro da Livraria Argumento, no Rio de Janeiro. Não seria exagero dizer que eu ia ao café todas as semanas. Às vezes, todos os dias. Na época em que era jornalista, costumava marcar entrevistas ali. Aos domingos, eu e minha mulher tomávamos café-da-manhã e, de quebra, comprávamos alguns livros que nem sempre líamos.

O que me atraiu no Café Severino foi, claro, a livraria. Com uma grande ressalva: é proibido entrar com livros no café, a não ser que você os compre antes. Sabe aquela leitura do primeiro capítulo, aquela que lhe dirá se deve ou não comprar o romance? Pois você não pode se entregar a este momento de experimentação bebericando um café ou vinho. Regras da casa.

Aos poucos, o Café acabou me conquistando por outros motivos. O atendimento da ex-gerente Sandra, por exemplo. Os sofás. O strudel de maçã e a salada Caesar. E até que o que era ruim havia se tornado bom, folclórico. Às vezes eu chegava ao Café Severino e, de cara, tentava descobrir qual mesa estava sendo atendida pela garçonete-mais-insuportável-do-planeta, cujo nome, claro, omitirei. Obviamente que preferia ficar esperando uma mesa vaga na área de outra garçonete a ser atendido por ela. A implicância era de mentirinha e, como disse, fazia parte do folclore de se ir ao Café.

Há ainda o caso do café-com-leite, o meu calcanhar-de-Aquiles neste e em qualquer outor Café. O padrão do café-com-leite e branco demais para o meu gosto. Sempre pedia, pois, mais escuro. O problema é que ele, o café, quase sempre vinha escuro demais, intragável. Com o tempo, tive de desenvolver técnicas que deixavam as garçonetes brabas. Devo ter bebido muito café com cuspe na vida…

Fim de semana passado estive lá, para um rápido café-da-manhã. Pedi o de sempre: café-com-leite, strudel de maçã e suco de laranja. Para minha surpresa, o café-com-leite estava numa cor próxima da ideal. Mas não havia strudel de maçã. E o suco de laranja parecia destes industrializados. O atendimento estava abaixo da média. Digo, as garçonetes até que foram prestativas e rápidas, mas quem é que gosta de tomar café-de-manhã servido por pessoas de mau-humor?

Fiquei ali, bebericando meu café, pensando em certas impressões que não voltam mais. Não é saudosismo; é saudade – algo completamente diferente. Depois de tomar meu café, passei incólume pela livraria, sem nem ao menos olhar para a estante de lançamentos (que, vale dizer, é muito diferente da estante de lançamentos de uma livraria comum). E, ao ganhar a rua, não senti o tradicional “bafo” carioca, e sim um ventinho gelado no rosto. Na boca, um amargo que creditei ao café. Mas era outra coisa.

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