Café-da-manhã
por Evandro Barreto
Da padaria da esquina à declaração de motel do Roberto Carlos, as opções são incontáveis. Numa fazenda do interior cearense, refresco de cajá, tapioca com ovo frito, canja, queijo coalho, aipim cozido com manteiga, café e leite de cabra. No avião de volta ao Rio, barra de cereais. Em Roma, suco de laranja cor-de-abóbora, mais azedo do que entrevista de republicano na Fox News, mas redimido pelo sabor e perfume do capuccino.
Em Minas, a mesa sustentável: pão, café, leite, queijo, coalhada, manteiga, geléia, mel de abelha, compotas – tudo produzido na propriedade. Enquanto turistas e intelectuais ainda dormem, a simplicidade de um café com croissants e brioches na varanda do Café de Flore. No quartel de prontidão, mate em caneca amassada e pão tão vencido quanto o governo derrubado na véspera. Num hotel-castelo da Holanda, camareiras em bando invadem a alcova com a maior variedade já vista de pães, bolos e queijos, escoltados por bules de café, chocolate, leite e creme, sem falar nos periféricos. Pelo menos, podiam bater na porta, para se certificarem de não estar interrompendo alguma coisa.
Esse balanço caótico do primeiro contato com o dia me ocorreu por provocação da Rede Globo. Por que será que nos copos de suco de laranja das novelas resta sempre um terço perfeito do conteúdo? Por que será que as personagens jamais conseguem terminar em paz o chamado desjejum? Há sempre alguém que se levanta furioso e sempre alguém que grita “fulana, volte aqui!”, mas ninguém volta.
Fiquei pensando: se o café-da-manhã é tão importante na vida da gente, e comentários freqüentes sobre o tema aqui nos Comensais dão provas disso, algum cineasta de plantão bem poderia realizar um documentário sobre o assunto.
O que comem os esquimós em seus iglus, quando enfim a manhã nasce, após meses de noite polar? A que horas de que lugar os astronautas fazem a primeira refeição? O que ligava o motor de arranque matutino de gregos e romanos antes da incorporação da cafeína à dieta ocidental? Como reage aos pedidos imprevistos o serviço de quarto de um hotel de altíssimo nível?
A esta última questão eu posso responder. Um brilhante arquiteto brasileiro passou longo tempo lecionando no Japão, a convite do governo, e hospedado no melhor hotel de Tóquio. Todos os dias, ao acordar, ligava para o “room service” e era submetido ao mesmo questionário: café? sim; quantos? um; suco de laranja? sim; quantos? um; ovos quentes? Sim; quantos? um. Isso por meses a fio. Certo dia despertou de ressaca e irritado por ter que detalhar, pela enésima vez, o que queria. E explodiu. Quantos copos de suco? Duzentos. Quantas taças de café? Trezentas. Quantos ovos quentes? Quatrocentos. E foi tomar banho.
Quando saiu do banheiro, uma fila de garçons, como samurais de Kurosawa, havia se formado, da entrada do quarto ao fim do corredor, e se perdia escada abaixo. Oceanos de suco, dilúvios de café e um gerente consternado. Como não havia ovos suficientes no fornecedor local, tinham mandado vir de Osaka no trem-bala.
Comments
kkkkkkk
impagável essa última história dos samurais….kkkkk….nem consigo concatenar (gostou??!!) minhas idéias….só consigo rir….kkkkk. Mais uma maravilha, Dodô!! Ganhei a minha tarde. Abraços breakfestivos!!!!
EYMARD,
Seu acesso de riso me contagiou. Mais uma vez voltei a imaginar a cena…
Agora é sua vez de contar a história do dia em que você cantou em coro com a Yoko e 50% dos Beatles.
Abs,
DODÔ
DODÔ,
Para mim, o começo da crônica é magistral. Roberto Carlos.
Aliás, não precisa nem de café da manhã; só a perspectiva que se insinua sutilmente, ao mesmo tempo que anuncia uma grande noite.
Aqui, você pega o leitor pelo o início, com romantismo, e o leva com um fio condutor que só os mestres sabem conduzir, por caminhos vários, até chegar ao café japonês.
Magistral!
Um grande abraço,
SONIA S
SONIA S,
Para quem busca se comunicar com empatia, um prazer tão requintado quanto o de ser cumprimentado pelo produto final é ter o processo compreendido no seu passo-a-passo. Você me dá essa alegria.
Obrigado e um grande abraço,
DODÔ
Dodô,
Li seu texto, em Paris, logo após meu café da manhã tipo seu Flore. Ainda naquela minha preguiça da diferença de fuso horário, seu texto me despertou muito bem. Muito gostoso o seu passeio pelas diversas opções do pequeno almoço. Ri muito, mas também me encantei, com a cena da invasão das camareiras, mas os samurais dão o final hilário e surpreendente.
Já estou cheia de bom humor para encarar o dia!
beijos,
Madá
Dodô, você está se superando a cada texto! Adorei!
Um ótimo dia começa com um delicioso café da manhã!!!
beijos
MADÁ,
Você lendo o post depois do café em Paris e eu lendo o seu comentário a respeito enquanto tomava meu próprio café aqui. Eta aldeiazinha global!
Beth e eu desejamos que você aproveite a viagem até a última gota.
Beijos,
DODÔ
MARI,
O ego inflado agradece.
Que tal você dar seqüência ao tema, como base na sua própria vivência? Ouso, até, propor um mote- quase-haikai: “Na varanda do Cafeína, a fauna matutina”.
Beijo,
DODÔ
Não, Dodô !
De onde você tirou essa história do Café da Manhã japonês ?
Engraçadíssimo !
Eu fui acompanhando seu escrever,sem imaginar a cena final .
Fui pega de surpresa e gargalhei !!!
É vero ???
hahaha, sensacional!!!!!!
Talvez seja nostalgia provocada pela distância, sem dúvida alguma o melhor de todos é o mineiro. Queijo fresco fabricado na propriedade, bolo de fubá morno ainda, café açucarado e ralo, torradas amanteigadas, pães de queijo, mel ainda nos favos, manteiga salgada e uma gamela de madeira com frutas da fazenda: carambolas, laranjas, limas, pitangas.
HELENA,
Juro que é verdade. La Blonde pode confirmar. Acho que só não lincharam o brasileiro a golpes de karatê porque ele era convidado do Governo. E os japoneses têm a estranha mania de levar governo a sério.
Bjs,
DODÕ
Isso nã é nostalgia, ou só nostalgia. O trem é bom demais da conta, sô!
Bjs,
DODÔ
LINA E HELENA, FALHA NOSSA!
As duas respostas sairam no mesmo espaço… sorry.
Botando ordem, os japoneses para Helena, os mineiros para Lina.
Beijos ao quadrado.
DO X 2
PEDRO ARRAES,
Sensacional, mesmo, era o autor desta e de outras façanhas. Ele existiu, de fato, foi assistente e sucessor do Le Corbusier na Escola de Arquitetura da Sorbonne e reurbanizou a antiga área de mercado junto ao Centre Pompidou.
Abs,
DODÔ
Dodô,
Café-da-manhã que se preze tem que ser na cama, sem escovar os dentes ou lavar a cara, e, claro, em boa companhia, com temperatura baixa lá fora.
Tem que ter ovos, pães variados, café forte, geléias, queijos e frios.
Tô pedindo demais?
CESAR,
Falta desligar os telefones.
Abs,
DODÔ
Cesar e Dodô: por aqui não dá para esperar a “temperatura fria lá fora”. Tem que ligar o ar condicionado e a imaginação!!!!!abs, Eymard
Eymard,
Essa é a solução, ou dar um pulinho à serra… abraço,
Dodô,
Lembrei-me de uma das melhores cenas de “Two for the Road”(“Um Caminho para Dois”), em que os jovens viajantes sem dinheiro Audrey Hepburn e Albert Finney são obrigados pelas circunstâncias a passarem a noite num hotel de luxo na campanha francesa, que levou quase todo o dinheiro que tinham.
Americanos, não acostumados com a tradição do café-da-manhã continental, rejeitaram aquele lindo carrinho de prata recheado de gostosuras, sem saber que estava no preço do quarto. Depois, a única saída, para esconderem a ignorância e a frustração, foi responderem à concierge que não tomavam café-da-manhã “por causa de sua religião”, quando ela lhes perguntou porque não tocaram na comida. Naquele momento, a fome dobrou…
Tenho certeza que você e a Beth assistiram ao filme, mas lembro para recomendar à turma mais jovem do Comensais.
abç
CESAR,
Assim como a Audrey, o filme é inesquecível. E o ex-jovem Albert Finney voltou à Provence com outro filme muito gostoso, ao lado de Russel Crowe e Marion Cotillard:
“Um bom ano”.
Abs,
DODÕ
Ainda dá para participar do café da manhã Dodô?
Não mande tirar a mesa ainda, tomo só um suco de laranja e um cafezinho… se ainda tiver.
Obrigada, os oeufs benedicts ficam para outro dia…
Quero dizer o quanto gostei do texto…e como é domingo, conversinha de brunch… relato uma experiência de interação social com room service no processo de escolhas para um café da manhã. Conversinha de brunch…
O cenário: verão, uma suite de um hotel off Oxford Street em Londres.
Duas grandes janelas verticais dando para área interna do prédio.
Esqueçam os hotéis de Two for the Road ou o do arquiteto em Tokio.
Personagens: marido, filho querido com 9 anos, funcionário do hotel, eu e o telefone. Eu, com meu tímido mas caprichado UK, U cosmopolitan, accent, quase um received pronounciation… (pretensão e água benta…), razão para frequentes caçoadas de marido querido e filho cria de Escola Americana.
Era eu sempre a encarregada dos assuntos que envolviam falar com outros e quaisquer outros em viagens. Thank you!
Aconteceu assim:
-Good mornig? Room service? I would like to order…
Desculpem, tem que ser em inglês ou coisa parecida se não perde a graça…
-“Suri”? (desculpa?)
- I say…is this room service?
-“Vót, má?” (what madam?)
-Excuse me? –
“ Vót? Alou…alou..alouuuu.”(what? Hello, hello…)
-Do you hear me sir? I mean breakfast, breakfast!
-“spique, spique…” (fale, fale)
-This is room…
-“spique, spique…” aos gritos.
Continuou neste nível por mais alguns vóts? Vót, vót? Má? Ã? Ã?
-Orange juice!
-“jus….aahh…”
A estas alturas a voz do funcionário entrava pela janela aberta …marido e filho as gargalhadas. O apoio de cozinha para café da manhã era no andar debaixo…tudo aberto por causa do calor.
-Would you be kind enough to call someone…
-“ vait a minute, minute…”
Silêncio total ao telefone, fiquei na espera.
De repente batem na porta…filho querido abre, eu me aproximo.
“- uum sevici…uum sevici …”
Um indiano de bloquinho e lápis na mão olha para mim e com movimentos de negação com a cabeça, diz:
“- Ió inguish, máda…vari vari badi…vari vari badi”
Era ano de 1975 ou 76 (ar refrigerado raro) e relatando o caso lembrei até do nome do hotel, hotel que é bom de esquecer! Clifton Ford, na Welbeck Street ! Nunca mais!
De bom só o walking distance de Christopher’s Place, do Selfridges… também não era longe da South Molton nem da New Bond … mas só sei que não recomendo.
Caro para o que era. Com este tipo de serviço. Brega.
Muitos anos depois, quando fui morar na cidade e tinha que ir a Harley St consultar-me com Dr. Godfrey, rodava procurando lugar para estacionar pela região e ria sozinha lembrando…claro que na época marido querido contou o caso para todos que quisessem ouvir. Ele se divertia as minhas custas com este tipo de situação!
“Máda, vari vari badi” virou código!
“Tisk tisk máda, tisk tisk…”então, sempre me soou péssimo!
Oops!
Este vale por dois!
Ou três, desculpem!
LUCIA,
Você não só chegou a tempo para o café & suco, como fez uma entrada triunfal! Quando consegui parar de rir, tive um estalo: o copeiro era o Peter Sellers!
Bjs,
DODÔ
Dodô:
Nunca nos acostumamos por aqui a ter um farto breakfast. O nosso é constituído por uma fatia de torrada e uma media. As vezes, uma aveia sobre uma banana cortada em fatias.
CARLOS MARIA,
Em casa o nosso cardápio é mais ou menos o mesmo
que o de vocês. Abrimos exceções em hotéis, ou depois de uma noitada que termine em dia claro.
Abs,
DODÔ