Comida japonesa: ascensão e queda
Por Paulo Polzonoff Jr | 5 de Maio de 2008.A gente costuma não dar valor a estas pequenas mágicas da vida, simplesmente porque as consideramos normais. Não são. Quando me dou conta de que sou descendente de russos, espanhóis e italianos, por exemplo, fico pasmo. Em que outra época que não o maluco século XX tal combinação seria possível? Só na guerra, mas neste caso a união não seria nada romântica, porque uma aliança entre russos, italianos e espanhóis era improvável.
E eis que este homem que se considera mais russo (matemática simples: 50, 25, 25) adora comida japonesa. Algo incrível. Ainda mais se levarmos em conta que, russo por russo, só fui comer o meu primeiro frango à Kiev com 28 anos, muito longe de casa. Novamente vale exercitar a imaginação. Só mesmo se eu vivesse no extremo leste da Sibéria é que poderia ter contato com comida japonesa. Mas, para que tal milagre se desse, seria preciso que os japoneses antes da Segunda Guerra Mundial não fossem tão xenófobos.
O simples fato de eu empunhar dois pauzinhos com incrível desenvoltura pode ser creditado a uma conjunção de fatores capazes de deixar qualquer um louco. Meus bisavós fugiram da Rússia por causa do comunismo. Do lado materno, deve ter sido a fome da Espanha e Itália que trouxeram meus ancestrais para os trópicos. E o hashi só chegou aqui com força porque a imigração japonesa foi incentivada pelo governo depois do fim da escravidão. Neste caldeirão, portanto, há até um toque de sangue africano.
Pensava em tudo isso outro dia, num restaurante japonês, enquanto saboreava sushis com nomes estapafúrdios. Tinha o Felipão e acho que também o Severino – ou algo assim. Eram inegavelmente gostosos, mas me perguntava, enquanto os mergulhava delicadamente no molho de soja, o quão distante aqueles sushis estavam da verdadeira comida japonesa.
Não faz muito tempo que como comida japonesa. Aliás, a simples menção desta culinária em casa sempre provocou ânsia de vômito em meus pais. Isso porque eles cresceram no norte do Paraná, terra de muitos japoneses. Eles me contaram que foram ao casamento de um amigo – japonês, claro – e lá entraram em contato com o temível bolinho doce de feijão (cujo nome original não sei). Sério: minha mãe ainda tem ânsia quando se lembra do episódio.
Por experiência própria aprendi que o famigerado bolinho doce de feijão causa estragos indescritíveis nos estômagos de outras culturas. Depois de ouvir várias histórias sobre esta bomba, decidi experimentar e. Bem, melhor deixar para lá. Ainda é cedo e eu quero poder digerir meu café-da-manhã.
Como dizia, comida japonesa é uma coisa recente na minha vida. Quase um ato de rebeldia. Meu primeiro contato com hashis foi em São Paulo, num restaurante muito bom (não vou me lembrar do nome), perto da sede da editora Companhia das Letras. Eu e alguns jornalistas fomos escalados para entrevistar José Saramago, quando do lançamento do livro A Caverna. Antes da entrevista – e como cortesia da empresa que nos levou -, compartilhei meu primeiro barquinho.
Não me lembro da sensação, na época. Isso porque tinha tomado tantos calmantes (eu era um jornalista recém-formado, morrendo de medo do Escritor com Nobel na lapela) que nem sei como fui capaz de ficar acordado. Mas a experiência foi boa, sem dúvida alguma. Porque algumas semanas depois eu estava sentado numa mesa do antológico Shima, em Curitiba.
Ir ao Shima era algo especial. Primeiro por causa da companhia: meus amigos Simone e Flávio e uma quarta pessoa, que podia ser uma conquista em potencial (e, neste ponto, é preciso reconhecer: o Shima sempre me deu azar) ou um amigo em comum. O restaurante era pequeno e extremamente aconchegante. Para chegar às mesas, passava-se por um corredor com alguns enfeites japoneses. Havia uma música ambiente japonesa muito baixa. E a dona, japonesa da gema, nos recebia vestindo lindos quimonos.
Nós três naquele ambiente éramos um milagre do milagre. Eu, russo. Meu amigo Flávio, italianíssimo. Minha amiga Simone, descendente de poloneses.
Éramos conservadores nos nossos pedidos. Quase sempre um combinado e um prato quente. Conservador também era o cardápio do Shima. Nada de invenções. Apenas ingredientes de primeira, atendimento primoroso – e muitas, mas muitas mesmo, garrafas de saquê.
Que eu bebia como se fosse água – e era mesmo. Até hoje tenho a impressão de que, depois do segundo ou terceiro gole, o saquê tem a propriedade mágica de se transformar em água. Mais precisamente água-de-coco. Posso estar ficando louco ou bêbado, mas realmente acho que o saquê lembra água-de-coco. Se bem que, depois de quatro garrafas, eu poderia jurar que saquê tem gosto até de groselha, se quisesse.
Contribuia, e muito, para minhas lembranças etílicas o fato de conhecermos a dona da casa. Que sempre nos brindava com mais saquê – na verdade, o que sobrava das garrafas usadas para se servir doses. Havia noites em que ela (como é nome dela mesmo?) se sentava na mesa com a gente e conversava longamente. Saíamos de lá às três da manhã, bêbados, satisfeitos e felizes como nunca.
Uma sensação que jamais consegui reproduzir onde quer que fosse.
E olha que eu tentei. Morando no Rio de Janeiro, fui ao badalado Sushi Leblon. E àquele restaurante no alto de shopping que tem uma linda vista para a Enseada de Botafogo. E a vários outros. Comida japonesa, para mim, sempre combinou com o Rio de Janeiro. Mas nunca encontrei um lugar que fosse aconchegante, simples e saboroso. Havia sempre uma pretensão que me incomodava. Ou preços abusivos. Ou sashimis mal-cortados.
Quando me mudei para São Paulo, há pouco menos de um ano, achei que minha sorte tinha mudado. Afinal, esta é uma metrópole que tem um bairro todo japonês, a Liberdade. E mesmo fora deste bairro a fama dos restaurantes japoneses é enorme. Foi também em São Paulo que experimentei meus primeiros sushis e sashimis. Aqui tinha de ser bom.
A verdade, contudo, é que só tenho encontrado decepções. Não quanto ao sabor, que melhorou muito e, confesso, é mais atraente até mesmo do que o Shima. Mas isso só porque gosto de invenções. Torço o nariz para sushis com nomes estapafúrdios, (mal) abrasileirados. Me recuso terminantemente a pedir uma porção de Felipões ou Severinos. Mas o sabor pode ser algo epifânico.
O sorvete frito, por exemplo. Ou a lula recheada com shimeji. Recentemente, no Koi, provei algumas delícias: sushi que, em vez de alga, usa acelga; outro de salmão empanado; um com ovas e um delicioso creme de kani. Mas.
Mas comida japonesa, para mim, é algo que está além do sabor. É uma experiência meio cósmica – para usar uma expressão esotérica e algo vazia. Não quero, como podem pensar muitos, reviver os tempos do Shima. O restaurante acabou – e também sou outra pessoa. Quero, porém, saborear um japonês num ambiente que seja acolhedor como aquelas salinhas de paredes de papel e bambu. No silêncio da conversa em tom civilizado com os amigos.
Minha experiência recente nos restaurantes de São Paulo mostram que isso é impossível – pelo menos fora da Liberdade. Os restaurantes a que fui são desconfortáveis. Escuros demais (fui a um há alguns meses no qual era difícil enxergar a comida), com televisores nos cantos; ou claros demais, com sushimen falando alto sobre o último jogo do Corinthians. As cadeiras são mais desconfortáveis do que as do McDonald’s. E o atendimento é algo inacreditável. No Koi (experiência mais recente), o garçom não sabia o que eram os sushis inventados pela casa. E, quando eu pedi uma recomendação, ele me disse que “tudo é bom”.
Claro que, para os bolsos recheados (não é o meu caso), há o Aizomê. Mas a experiência tem sido tão ruim ultimamente que tenho medo de me decepcionar até mesmo neste que é o mais badalado restaurante japonês da cidade.
A verdade é que a comida japonesa se popularizou de tal forma que até um bebê sem nenhum sangue nipônico sabe segurar a mamadeira com pauzinhos. E, com a popularização, acabou o respeito. Uma das coisas que mais me agrada na culinária japonesa é a forma compartilhada de comer. Algo que só é possível, acho, na companhia de bons amigos. Por isso é com alguma melancolia que vejo as pessoas comendo sushis e sashimis ensimesmadas, muitas tomando cerveja, em ambientes que mais parecem a área de promoções da Tok Stok depois de um domingo movimentado.
O resultado disso é a comida japonesa que se come solitariamente em casa, embebida em molho de soja aguado, com raíz-forte cheia de corante verde, em frente à televisão. Uma versão supostamente mais saudável de fast-food.
Há salvação? Tenho me policiado muito, ultimamente, para evitar o saudosismo. Não é fácil. Enquanto não encontro meu novo restaurante-japonês-preferido, só me resta fechar os olhos e me lembrar do tempo em que comida japonesa era uma experiência para muitos exótica e, para mim, um ritual.



O que mais me incomoda são as “criações” bizarras que muitos sushimen (inclusive famosos) cometem. Mas isso é mania de brasileiro, quer substituirr e mudar (trocar um ingredientes por outro sem senso etc - somos macacos de norte-americanos…rsrsrs).
abs.
Nina,
Não vejo mal nenhum em invenções. Eu adoro novidades. Minha melancolia vem mesmo da falta de ritual, do cuidado com o consumidor, sabe?
bjs