Comida não é mais para comer!!

Por Márcia Luz | 17 de Novembro de 2008.

Eu sei que a onda de saudosismo dos anos 80 já deu pra bola, mas sofri um ataque de nostalgia gastronômica e não consigo evitar o assunto. Parte da minha infância e adolescência se passou naquela década, e toda vez que minha filha, no auge da curiosidade dos dez anos de idade, me pergunta como era isso ou aquilo “no meu tempo” sofro novo surto nostálgico.

Desta vez o assunto foi comida. Ela queria saber sobre as coisas que eu mais gostava de comer, algo assim, e no meio do papo tive um estalo: não existem mais propagandas apetitosas! Ou melhor, tornaram-se muito raras.

Por exemplo, a propaganda do Leite Moça. Quando eu tinha meus dez, doze anos, houve uma fase em que os anúncios mostravam na TV pequenas receitinhas de sorvete com leite condensado. Uma lata de leite Moça (derramando-se languidamente no liquidificador), uma lata de suco de laranja, bate tudo, coloca-se nas forminhas de gelo e leva ao congelador. Em seguida, a propaganda mostrava uma criança saboreando lindos e apetitosos cubinhos de sorvete! Cada anúncio ensinava a fazer um sabor diferente de sorvete, e sempre terminava com os cubinhos perfeitos sendo devorados. Lógico que eu tentei fazer em casa, lógico que nunca dava certo – em vez de cubinhos eu tinha amebas, sopa ou gelo de leite condensado – mas o sabor era sempre divino.

Depois, veio outra leva de receitas com leite Moça – de doce-de-leite. Cozinhava-se a lata numa panela de pressão e obtinha-se diversas consistências do doce. Todo mundo queria sempre a mais dura, que era mostrada na telinha como um irresistível cilindro de doce sendo cortado em grossas fatias. Claro que também não dava certo na maioria dos casos, e era perigoso – foi a época recorde de acidentes com panelas de pressão e esguichos de doce de leite escaldante no rosto das pessoas. Mais politicamente incorreto impossível. Mas era delicioso.

E o requeijão cremoso Poços de Caldas? A propaganda era de salivar: aquele queijo branquinho, cremooooso, sendo passado lentamente numa fatia de pão, os dentes afundando num mar de cremosidade. Virou febre. E as mães nunca deixavam a gente passar a quantidade de requeijão da propaganda! Tinha que ser uma camada fina, que deixa os risquinhos da faca aparecendo. Eu me vingava assaltando o copo de requeijão com uma colher de sopa.

Quem não se lembra do Chokito, com leite condensado caramelizado e flocos crocantes etc. etc.? Os iogurtes com pedaços de frutas, onde colheres eram mergulhadas no creme rosado e saíam plenas de pedaços de morango…humm.

Havia a sopa de tomate dentro de um tomate – sopas Máággi – o arroz branquinho e soltinho com caldo Knorr, o irresistível estrogonofe – com creme de leite Nestlé – as batatas fritas seguinhas e douradas feita com o maravilhoso óleo de soja Lisa. Sem falar no mandiopã, aqueles salgadinhos que triplicavam de tamanho na frigideira.

Resumindo: as propagandas de comida eram feitas para abrir o apetite do telespectador e ressaltavam as qualidades básicas do produto: ser gostoso, ter ingredientes de primeira, trazer a felicidade ao paladar e ao estômago. Longe de fazer apologia à publicidade de antigamente, estou apenas constatando como tudo era mais simples e direto nesse terreno.

Hoje, não. A propaganda não pode dar fome, cruzes, e a obesidade?

Nos anúncios de leite, tem sempre que ter alguém fazendo ioga, vestido de branco com cara zen. E tome aditivos como ômegas, alfas e betas. Nos de cereais tem sempre um carinha pulando em poses contorcionistas – comendo esse ou aquele cereal você pode se transformar num acrobata ou num tigre skatista. (???) Nenhum produto alimentício parece vender se não desfilar um monte de elementos químicos “naturais” e propriedades mágicas que vão te deixar magro, saudável e feliz. Independente do gosto que a coisa tenha.

E os refrigerantes? Eu lembro de um comercial de soda limonada em que um cara atravessava o deserto escaldante e encontrava uma garrafa de soda gelada. A simples visão do homem transpirando, sorvendo a bebida como se fosse a única coisa capaz de salvar a sua vida, dava uma vontade louca de correr até a mercearia e pedir uma soda geladinha. Mas hoje é assim: anúncio de refrigerante tem que parecer um videogame sem pé nem cabeça e não pode dar sede. Quem toma refrigerante hoje pode sair voando pela janela, conversar com limões ou transformar a cidade numa festa rave, mas não matar a sede. Se for cerveja, então, nem se fala. Ou tem mulheres gostosas de biquíni ou mostra um monte de marmanjos de comportando como retardados mentais. Ou as duas coisas.

Mas leitores, o pior, o mais bizarro do mundo eu deixei pro final: as propagandas de fazer cocô (perdoem a abordagem direta do assunto). São tantas que acho que deve haver uma forte epidemia de intestino preso no país e ninguém contou pra mim. Iogurte não é mais iogurte, é laxante. Sabiam? As tramas desse tipo de comercial são um primor da teledramaturgia. Uma moça triste confessa à outra que a pele está ruim, a barriga está inchada, a angústia toma conta da sua vida… a amiga responde: ai, eu também vivia assim até conhecer tal iogurte. Minha vida mudou. Aí aparece a ex-garota angustiada saltitando de felicidade e elogiando as maravilhas do produto. Ela agora consegue fazer cocô!

Uma outra peça mostra vários quadros de pessoas gargalhando de felicidade ao sair do banheiro. Cocô é euforia!

Mas a mais estrambólica de todas é a do iogurte que promete o dinheiro do cliente de volta caso ele não comece a evacuar em 15 dias (todo mundo sabe qual é esse, né?). Vem cá, como é que o cliente prova que o iogurte não funcionou? O fabricante manda um inspetor de banheiro à casa do reclamante? A pessoa entrega um relatório fotográfico das suas tentativas vãs no banheiro? Gravações?

Convido os leitores a refletir sobre essas importantes questões…

9 Comentários

(Obrigatrio)
(Obrigatrio)

Comentário para este texto serão fechados em 17 de November de 2009.

Obrigado por por deixar um comentário. Se ele não for ofensivo aos autores, a outras pessoas ou a empresas, ele será aprovado. Às vezes, contudo, o comentário pode ficar preso no sistema anti-spam e ser apagado por engano. Desde já pedimos desculpas se isto acontecer. Ah, e obrigado pela visita.