Comidas traumáticas
por Antigos(as) Autores(as)
Por Márcia Luz
Todo mundo deve ter algum trauma gastronômico de infância. Eu acho que nunca superei os meus. Até hoje implico ferozmente com certas coisas, algumas delas muito apreciadas por praticamente todas as pessoas. Isso às vezes me torna um tanto impopular. Por exemplo, azeitonas. Todo mundo adora azeitonas, eu odeio. Quanto maior, pior. Se for daquelas pretas, então, argh. Não é que eu não curta sabores diferentes, ao contrário, quanto mais exótica a comida mais eu tenho vontade de experimentar. Mas é que para algumas coisas meu paladar permanece infantil. Por exemplo (continuem meus amigos depois disso, please):
A maldição da bolinha verde – Entre as maiores crueldades que já se cometeu contra a felicidade infantil está a criação da cereja falsa. Quem nunca estendeu os dedinhos para aquela tentadora esfera vermelha em cima da torta e descobriu que não se tratava de uma cereja de verdade? Feitas de gelatina, borracha ou sei lá o que, tem gosto de qualquer coisa menos de cereja. Mas o pior, o pior mesmo são as malditas bolinhas verdes que, tenho quase certeza, são feitas de doce de mamão verde. Eu era louca por cerejas em calda, e um belo dia, numa festinha, deparei-me com uma cereja verde em cima de um doce. Pensei: “uau, existe cereja verde, como acontece com as uvas!” E nhac! O gosto era tão horrível, amargo, enjoativo, que abri o berreiro. Até hoje tenho vontade de bater em quem diz que gosta de doce de mamão verde. Aliás, lembrei, o empenho em iludir pobres criancinhas gerou algo ainda mais aterrador: o brigadeiro falso!!!! Eu caí muitas vezes nessa. Na confeitaria, aquele brigadeirão tentador praticamente implorava para ir parar na minha boca… eu dava uma bela mordida, de olhos fechados, e… eeeeca! Era uma espécie de massa de bolo de chocolate encharcada de rum, maquiavelicamente enrolada em forma de brigadeiro, com chocolate granulado e tudo. Deve ser por isso que tenho pavor de rum ou qualquer outra bebida alcoólica em doces.
Pedacinhos de desprazer – Talvez por causa das bolinhas verdes, também detesto frutas cristalizadas. Aliás, elas são uma grande incógnita para mim. Será que realmente tem alguém que goste delas ou são apenas meros instrumentos de cozinheiras sádicas para estragar nosso prazer de enfiar os dentes numa fatia de bolo ou outro doce qualquer? O pior é que geralmente a gente só nota a presença delas quando já estão na boca, destruindo o paladar.
Peixe de pano – Bacalhau. Pronto, falei. Bacalhau é um dos maiores mistérios da humanidade. Como tanta gente pode ser tão fissurada e gastar tanto dinheiro com um peixe que tem textura de pano? Não acho bacalhau ruim, como numa boa, mas realmente não sei qual é a grande graça. Antes que os fuzis sejam apontados, confesso que nunca provei o bacalhau fresco – dizem que é algo celestial, mas primeiro preciso ganhar na mega sena – nem fui a Portugal. Mas já comi o peixe preparado das mais diversas maneiras, em ótimos restaurantes e continuo na mesma. Com um preparo maravilhoso e acompanhamentos fantásticos, até pano fica gostoso.
Larvinhas – Gosto muito de coco, desde que seja em pratos onde ele é a atração principal – quindim (mas prefiro a gosminha amarela que vem em cima), cocada, manjar branco, essas coisas. Tirando o leite de coco em pratos salgados, amaldiçôo as pessoas que acham que tudo fica melhor com coco. Você acha que vai comer uma clássica nega maluca e alguém misturou coco ralado na massa. A sensação é a de morder larvinhas no meio da massa macia. E o gosto do coco se impõe sobre qualquer outro sabor. Tortas de qualquer fruta com coco só tem gosto de coco. Doce de leite com coco idem, pavê de chocolate idem, tudo idem. E com as aflitivas larvinhas, ai…
Ervas metidas – Muitas ervas têm duplo poder: o de tornar uma comida especialmente deliciosa ou absolutamente intragável. Um pequeno erro na medida, um punhadinho a mais e… tcharaans! Comida horrível. Isso pode acontecer com qualquer temperinho, com exceção do cheiro-verde. Mas o campeão da intragabilidade, pelo menos para mim, é o coentro. Ele foi a única fonte de sofrimento que tivemos em Recife, quando nos hospedamos na casa de um amigo e ficava feio recusar os almoços e jantares preparados com capricho pela cozinheira da casa. Porque tanto coentro, Senhor? Será que ninguém percebe que coentro tem gosto de pneu de caminhão? E que deixa tudo com gosto de pneu de caminhão? Mas naquele contexto, tudo bem, vai, é uma questão regional. O problema é quando me deparo com coentro em comidas “normais”. Saladas, quibes e outros, por exemplo. O maldito é igualzinho à salsinha, e quando é tarde demais percebo que ficarei horas sentindo o gosto de pneu. Blergh!
Outras ervas têm esse poder de predominar na comida, mas com menos agressividade. Sementinhas de erva-doce, tomilho, alecrim, etc. Quando usadas com sabedoria podem valorizar incrivelmente a comida. Com exceção do orégano, que considero o banalizador universal das pizzas. Não entendo essa mania de colocar orégano na pizza. Ou melhor, considerar que qualquer disco de massa coberto com queijo e qualquer outra coisa, acrescido de orégano, pode ser chamado de pizza. Desprezo o orégano. Orégano tem gosto de tédio.
Comments
Ainda conseguirei superar o trauma do chuchu. Como de tudo, tudo mesmo, mas este mero legume, que todos dizem não ter gosto de nada, fica rolando na minha boca até descer com dificuldade goela abaixo. Pura bobagem, né? Mas me lembro da minha mãe me obrigar a ficar na mesa até terminar o prato. O aroma do chuchu frio refogado vem á minha mente até hoje.
Não gosto de presunto cozido (tipo royale), ma como por educação quando aparece no meio da lasanha ou do risoles.
bjo
Menina, e a maldita da salsinha??? Tem restaurante que cisma em colocar aquilo em cima dos pratos, como se enfeitasse alguma coisa e não tivesse sabor nenhum! Agora dou uma de louca e digo que sou alérgica, devolvo o prato e peço para vir sem salsinha!! Argh!! Beijos
Marcia,
Parabéns pelo texto.
Mas o que seria “gosto de pneu de caminhão”?! rsrs
Oiiiii
Sabe, Mariana, que eu também não vou muito com a salsa… mas depois de provar o coentro ela ficou beeem mais simpática… ahahah
Mas não recomendo a terapia!
Melina, é inexplicável o gosto de pneu – claro que nunca provei um, né? – mas é isso que me vem à cabeça quando mordo o detestável coentro!
beijos para todas, obrigada pela visita!!!
Oi Márcia!
Sabe que já superei “quase” todos os traumas? Um orgulho! Desde o prosaico feijão com arroz, que insistiam em doses duplas pra ver se eu engordava um pouco até as muito consistentes vitaminas de frutas… Me esforço, afinal, como uma apreciadora da boa comida devo me aventurar sem preconceitos, mas as tais frutas cristalizadas não passam, não encontrei nenhuma ainda que valesse a pena. Você já experimentou fazer o bacalhau Dias que já vem dessalgado? Não tem a textura de pano, não.
Beijo e parabéns pelo texto.
Ju
Oiii Ju
Oh, que bom encontrar uma parceira de repulsa às frutas cristalizadas! Já anotei a dica do bacalhau e farei mais uma tentativa, depois te conto!!!
beijocas!
Marcia
Marcia querida, qual o seu email??
Prezada Márcia,
alertado pelo amigo Dante Mendonça em sua coluna de hoje vim comer na fonte o seu artigo.
Que delícia! Como é bom falar mal de coisas asquerosas que nos fizeram comer vida a fora. Noto que temos o mesmo rancor pelo coentro -morei um ano no Recife, então você pode imaginar o tamanho do trauma. Sou capaz de jurar que às vezes o meu Marlboro vinha com coentro.- E temos também o mesmo amor pela língua com purê, que para mim é a mais perfeita expressão do que era bom na infância. A língua que minha avó fazia levava três dias pra ficar pronta, começava na sexta pra ir pra mesa do domingo, maravilha. A sobremesa perfeita para o dia de língua era pera em compota (caseira), tudo acompanhado de vinhada (vinho com água e açucar para as crianças, isso em tempos politicamente incorretos e abençoados).
Mas voltando ao assunto da coluna, como tem coisa ruim por aí, mas seguramente a coisa que eu mais detesto, principalmente no quesito estragar pratos gostosos é a maldita ervilha (a de lata), que coisa nojenta, farelenta, pegajosa…tem gosto de morte.
Um abraço
Clelio
Márcia, parabéns pelo seu artigo, sou coentrofóbico, sei exatamente o significado de sabor de pneu de caminhão !! Gostaria de um dia ser ministro da agricultura para soltar um único decreto que proibiria a plantação, comercialização, utilização em culinária e etc deste produto malígno ao paladar de qualquer pessoa. Ah a pena para quem descumprisse o meu decreto seria a amputação de um dedo da mão !!!
Parabéns
Pessetto
Pneu de caminhão? Pra mim coentro sempre teve gosto de Pinho sol, aquele produto de limpeza sabe? KKKKKKKKKKKKK é horrível, traumatizante…