De boas lembranças e algum amargor

Por Paulo Polzonoff Jr | 14 de Janeiro de 2008.

damici.jpgO que faz um restaurante perfeito? A comida, claro. Mas não só isso. O atendimento deve ser bom, se não ótimo. A partir daí, é possível estabelecer inúmeras variáveis para se admirar ou não um restaurante. A carta de vinhos, por exemplo. A temperatura correta do ar condicionado. A decoração. A qualidade dos pratos e talheres. O hálito do maitre. O D’Amici é quase perfeito.

Fui ao D’Amici, no Leme, em viagem recente ao Rio de Janeiro. Eu estava há um ano e meio sem visitá-lo. Guardo lembranças maravilhosas do restaurante, desde o primeiro momento em que pisei lá, para um almoço, longos cinco anos atrás. Naquela época, eu era um menino tímido entrando num ambiente de homens.

O D’Amici era diferente de todos os restaurantes que eu havia freqüentado até então. Eu era um “miserável gastronômico”. Uma destas pessoas que acham que comer é se empanturrar de carne e coca-cola. Não havia, para mim, o conceito de me sentar em uma mesa e saborear. O D’Amici foi, portanto, uma espécie de escola.

 Tanto carinho pelo lugar me pôs medo. Decepções são constantes. E costumam ser do tamanho de nossas expectativas. Ao entregar o carro para o manobrista, parei um minuto na porta. Respirei fundo. E rezei rapidamente para que nada tivesse mudado muito. Quero dizer, talvez eles pudessem ter tirado aquelas obras de arte modernosas da parede…

Entrei. As obras de arte ainda estavam lá. Mau sinal? Talvez. Sentei-me e logo fui agraciado com o couvert. Imediatamente me esqueci de que havia quadros horríveis nas paredes.

Um couvert é um couvert é um couvert – dirão os mais céticos. Não no D’Amici. Os pães temperados são sempre uma surpresa agradável. As pizzas brancas fazem sucesso – e é preciso tomar cuidado para que elas não tirem o seu apetite. O queijo parmesão é o mais cheiroso que já provei. Deu vontade de passá-lo pelo corpo.

O couvert me trouxe lembranças banhadas em azeite de oliva. Pode um homem se apaixonar por um azeite? Eu me apaixonei. Certa vez estive no D’Amici e provei o azeite Tittarelli, de fabricação argentina. O aroma se espalhava pelo pequeno restaurante. Eu, embriagado, me sentia no próprio Monte das Oliveiras. Havia algo de sagrado naquela mesa – e talvez fosse o azeite.

Desta vez, porém, nada de azeite Tittarelli. Influenciado, porém, pela marca, resolvi pedir um vinho de mesmo nome. Reserva Especial, 2004. Talvez não tenha sido um bom ano. Ou talvez meu paladar estivesse incomodado com problemas outros, que nada tinham a ver com o pobre vinho. Que continuei sorvendo em pequeno goles, teimoso, até que eu me acostumasse.

Chegou a hora de pedir. Conservador, comi o de sempre: ravioli de vitela ao molho funghi. Simples, não? E é para ser. A culinária do D’Amici nada tem de complicada. Os pratos não levam ingredientes inusitados e tampouco têm nomes criados por publicitários. É comida simples e extremamente bem feita, com os melhores ingredientes possíveis.

Uma das pessoas na mesa, contudo, resolveu ousar. E pediu um ravioli de pêra com queijo brie. Quando a comida chegou, eu maldisse meu conservadorismo gastronômico. Porque o prato da amiga era simplesmente luxuriante. Em minha boca o ravioli de pêra explodiu em mil e uma sensações indizíveis. Fiquei ali por alguns minutos com aquela cara de quem acabou de ter um orgasmo. E não tive?

A noite estava pesada, porém. Uma taça de cristal foi quebrada em nossa mesa. Bebi mais um gole de vinho, que desceu quadrado. Poderia ser um Romané Conti que ainda assim eu dele desgostaria, acho. Há noites assim.

Eu poderia dizer aqui que o ponto alto do D’Amici é, além da comida feita com esmero, o atendimento. O premiado sommelier Antônio Salustiano ri da ostentação que se tornou o mundo dos vinhos. Foi ele, aliás, que me recomendou o Tittarelli – nem de longe um vinho caro – há alguns anos. À distância, porém, eu o vejo entreter os clientes com decantadores e rituais dignos de um mestre de cerimônias. Rolhas passam de mão em mão numa mesa. Antônio sorri.

À saída, eu também sorrio, certo de que voltarei em breve só para ter um prato de ravioli de pêra só para mim. E esperançoso de que, da próxima vez, o vinho não amargue tanto na boca.

D’Amici
Rua Antônio Vieira ,18
(21) 2541-4477

Rating: ★★★★☆

[BL]azeite de oliva, brie, couvert, cozinha italiana, d’amici, funghi, leme, pêra, ravioli, rio de janeiro, tittarelli[/BL]

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