Devorando Paris

por Antigos(as) Autores(as)

Por Márcia Luz

Queridos e amados leitores, eu voltei! Depois de um longo jejum de Comensais, e também de umas belas férias, volto com todo o apetite do mundo e muitas histórias comestíveis!

Para início de conversa, vou contar a grande aventura que inaugurou minhas férias. Sabe aquelas coisas loucamente maravilhosas que só costumam acontecer uma vez na vida? Essa foi uma delas: minha adorável mamãe simplesmente decidiu nos carregar com ela para uma temporada em Paris. Eu, marido, filhota, mamãe e Dodô, meu padrasto, em dez dias de sonho na cidade-luz. Tudo patrocinado pelas Organizações Maternais!

Isso já bastaria para fazer qualquer pessoa saltitar de felicidade, mas a coisa vai além – mais do que uma simples viagem turística a uma das mais belas cidades do mundo, a empreitada tinha um propósito extra. Minha mãe e Dodô conhecem Paris como a palma da mão. Melhor dizendo, as muitas idas à cidade ao longo de suas vidas os credencia como profundos conhecedores da alma parisiense. Adicionando a isso uma boa dose de bom gosto, tínhamos a melhor companhia do mundo nessa aventura. Bem, os fofos prepararam um roteiro gastronômico autenticamente parisiense, a ser cumprido nos jantares. Durante o dia, estávamos livres para explorar a cidade como quiséssemos – já que visitar o Louvre e a Torre Eiffel não estava nos planos dos dois – e à noite, nos reuníamos para degustar Paris. A cada jantar, um restaurante diferente, uma especialidade diferente, para conhecermos “como os franceses comem”, desde os célebres bistrôs até os locais mais elaborados, mas sem chegar a extremos luxuosos e passando bem longe dos lugares turísticos. Enfim, a idéia era mergulhar no clima e na comida do cidadão parisiense. Criatura esta que passei a invejar saudavelmente a partir dessa experiência.

Cada um desses jantares foi uma experiência única, que comentarei em etapas nos próximos textos, com as devidas dicas e coordenadas para os felizes leitores que tiverem a oportunidade de ir à Paris. Me aguardem!

Porém, antes de concluir, gostaria de comentar algumas impressões muito particulares que tive da cidade. Bem, o óbvio do óbvio é tão óbvio que nem vou me estender: para quem não conhece, Paris é tudo isso mesmo – é linda, é mágica, é de tirar o fôlego. É uma experiência deslumbrante (me belisquei várias vezes para conferir se estava acordada), do Louvre à Torre Eiffel, do Marais à Champs Elysées, e por aí vai.

Maasssss, para além disso tudo, o aspecto mais marcante da experiência foi o estado permanente de surto gastronômico que nos acometeu – a mim e à minha filha, Laura. Nós duas comemos metade da cidade enquanto o Paulo, maridón, comprava todos os livros que podia – o surto dele foi literário.

Paris é altamente comestível – e olhe que já vivi na Itália, páreo duro! O festerê gustativo começava no café da manhã, que hora tão feliz! Nada daqueles cafés de hotel cheios de guéri-guéris, com quarenta tipos de qualquer coisa etc. Era muito simples: o melhor chocolate quente do universo, dois tipos de queijos, manteiga que poderia ser comida de colher, geléias celestiais e pães que me fizeram mudar completamente a interpretação da palavra pão. E, claro, os croissants – atingi o patamar de três croissants diários, além de todo o resto. Eu, que vivo de dieta!

Depois de começar o dia de forma tão singela, ganhávamos as ruas, e entre um monumento e outro, invadíamos pâtisseries, boulangeries, mercadinhos; conquistávamos brasseries e cafés! Provamos incontáveis sanduíches, devoramos metros de baguettes, mergulhamos em taças e mais taças de chocolate quente…. ah, e também não esquecemos das frutas: cerejas, framboesas, amoras, mirtilos! Descobri que comer essas frutas aqui deve ser mais ou menos como comer banana lá; totalmente sem graça. Nesse inebriante itinerário de gula, um doce em especial nos levou à loucura: o macaron. Para quem nunca provou, tentarei explicar: o formato é igualzinho ao hambúrguer de siri do Bob Esponja (cultura, leitores!). Você enfia os dentes nele, vence a casquinha crocante – feita de uma massa de amêndoas – e mergulha num nirvana cremoso, que pode ser de vários sabores: chocolate, café, avelã, pistache, framboesa, aaaai… Melhor parar por aqui. A lembrança do macaron me emocionou.

Os dez graus abaixo de zero mais os quilômetros de caminhadas me impediram de virar uma morsa gigante.