Dicas infalíveis para quem pretende abrir um boteco

por Antigos(as) Autores(as)

Por Márcia Luz e Simone Mattos

É enorme a quantidade de bares que abrem e fecham suas portas em Curitiba com a velocidade da luz. Alguém arrisca um palpite? É tão simples. Bares precisam ter personalidade própria. Como as pessoas, aliás. E é isso que muitos empresários não têm a sensibilidade – ou o requisito básico – para perceber. Não adianta emprestar um conceito. O cara foi a Miami e constatou que a febre do momento são os bares sem cadeiras, onde os clientes se sentam em almofadas indianas, os barmen preparam o drinque de olhos vendados e os garçons usam roupa fluorescente. E achou, ou melhor, teve plena certeza de que aqui isso faria o maior sucesso. E o empreendimento durou três meses. A história é fictícia, mas se encaixa bem no contexto curitibano.

Não adianta contratar o arquiteto mais chique, escolher o melhor ponto, gastar milhões em reforma, ouvir palpites do marketeiro da hora falando sobre o conceitual da coisa – que pode remeter a um antigo armazém, a um pub irlandês ou a um quiosque havaiano, blábláblá. Esqueça. Tudo papo furado. Nada disso é garantia de sucesso. Repito: bar precisa ter personalidade.

Um bar tem sempre a cara de seu dono, invariavelmente. Não importa a quantidade de maquiagem. O dono sempre aparece por trás de tudo, como um espírito que dá vida ou como uma alma penada. Como um ente ganancioso que conta quantos reais cada cliente gastou, que avalia os preços das comidas e bebidas com base no lucro que pode tirar. Ou como alguém que gosta de estar cercado de pessoas, que gosta de conversar, que cozinha bem e quer ver as pessoas saboreando seus quitutes com ar de felicidade.

Há donos e donos de bares. Há aqueles que enxergam um negócio da China – afinal, comida e bebida são itens básicos, todo mundo precisa consumir. Esses normalmente têm tudo informatizado, fichinhas para controlar cada cliente, que precisa enfrentar fila tanto para entrar como para pagar a conta. Aberração! Há os que vêem o bar como uma forma infalível de saciar o ego, os vaidosos, que planejam tudo de forma a atrair as mulheres mais bonitas, os empresários poderosos, as socialites, os formadores de opinião. Esses empenham muita energia – e dinheiro – para manter suas casas presentes nas colunas sociais, promovem degustações, convidam artistas, pagando, é claro, para aparecer no lugar e tirar uma foto abraçados com o proprietário.

E há os que estão ali por prazer, destino ou necessidade. Os que não saberiam fazer outra coisa na vida senão servir. Os boêmios que fazem da noite regada à bebida uma profissão. Os que prezam a qualidade da comida e da bebida acima de tudo. Os que amam estar cercados de gente e encontraram uma forma de manter-se assim o tempo todo. Os que gostam de ver gente feliz, se sentindo à vontade. Os loucos, os generosos, os pródigos. Esses normalmente começam o negócio sem grande pretensão e logo se vêem cercados de pessoas que não querem mais nada além de relaxar, conversar, se embriagar. Essa simplicidade acaba sendo pano de fundo para grandes histórias, de bares e de pessoas; e muitas vezes culmina em fidelidade. E clientela fiel é tudo que um bar precisa para sobreviver ad infinitum.

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Estas e outras histórias do gênero fazem parte do livro Chama o Garçom, de Márcia Luz e Simone Mattos.

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