Diretorias
Por Márcia Luz | 8 de Janeiro de 2008.
“Boteco de verdade tem que ter diretoria.” Não me lembro quem disse a frase, mas a afirmação é consenso entre os especialistas no assunto. Como definir a diretoria de um bar? Já ouvi mais de uma vez que “diretoria é aquele grupo de freqüentadores que manda mais que o dono”. É uma boa definição, mas acho que o assunto merece maior reflexão.
Ser membro da diretoria é ser mais que um habitué. Quando se é habitué, o garçom te chama pelo nome. Já quem é da diretoria recebe seu drinque favorito assim que senta à mesa – ou no balcão, lugar predileto dos “diretores”. O garçom aperta a sua mão com respeito e pergunta se a família vai bem. Ouvi um caso de dois membros da diretoria de um bar que, quando chegaram ao estabelecimento entupido de gente, numa sexta-feira à noite, presenciaram o garçom praticamente sacar uma mesa do bolso do paletó para que eles não precisassem esperar para sentar.
Porém, engana-se quem acha que pertencer à diretoria de um boteco é apenas aproveitar as mordomias e paparicos. Nada disso, é um compromisso sério e afetivo com o estabelecimento em questão. Como num casamento, membros da diretoria jamais traem seu boteco. Pode até freqüentar outros lugares, encarados como casos passageiros, mas jamais fazer parte de outras diretorias. Só se for escondido, como amante. Sob pena de ter de encarar um longo período de beicinho do dono do bar traído.
A freqüência é uma obrigação. Diretores não podem ficar mais de duas semanas sem aparecer no boteco, sob pena de perder o posto e ter que enfrentar fila pra sentar. Também têm de saber aceitar eventuais apelidos, suportar gozações de diversas procedências e ter paciência quando outros diretores exageram na bebida e precisam extrapolar sua afetividade, abraçando forte e berrando “eu te amooo!” na sua orelha. Ouvir as desilusões amorosas de fulano, as mentiras de sicrano e os delírios de beltrano também faz parte. Afinal, quando você passa da conta, todo mundo entende. Essa é uma das vantagens de ser diretoria: você nunca precisa se envergonhar quando dá vexame. Afinal, a diretoria também é uma espécie de confraria secreta dos vexames etílicos. Ninguém vai comentar sobre o seu impulso incontrolável de beijar o garçom ou cantar “nemequitepá” usando a garrafa de cerveja como microfone.
Mas o melhor de tudo é saber que há um lugar onde é sempre possível sentir-se especial e anônimo ao mesmo tempo, onde ninguém se mete na vida de ninguém e pode-se esquecer as amarguras da vida por algumas horas.
[BL]bar, boteco, garçom, habitué, vexame[/BL]



Era só o que me faltava!
Tentando fazer dieta, para “smaltire” os quilinhos a mais adquiridos no Natal e no Ano Novo (em Natal e em Recife), e alguém me inventa um site que fala de comida, boa comida, e de bebida, boa bebida.
Vou ter que virar freguês.
Quem sabe, colaborar com uma seção dedicada aos mais prelibados petiscos do Nordeste…
Parabéns e beijos…
Luiz Carlos
Marcia, adorei o texto! Isto que eu chamria de poesia de bar!
Parabéns.
abs.
Muito bom! Quem sai aos seus não degenera…
Beth, Luiz e Nina,
Obrigada pelos comentários e elogios, fico felicíssima que gostaram do texto. Logo tem mais!
abraços!