Dois cancerianos e três louras
por Evandro Barreto
Eu e meu genro, Paulo, temos muito em comum. Ele, como arquiteto e urbanista, eu como publicitário e escritor, trabalhamos com a ocupação criativa de espaços – físicos, mentais, emocionais. Somos cancerianos; carregamos pela vida a dentro o ônus e o bônus das águas, das luas, das marés. Amamos as louras de nossa vidas, Beth, Márcia, Laura. Fazemos anos com dois dias de diferença. Por tudo isso, comemoramos juntos o que o tempo nos soma.
Desta vez, o jantar de duplo aniversário foi em Curitiba, no “D. Louis Bistrot”. David Louis é um chef parisiense, casado com a brasileira Giovanna. E como em todo bistrot autêntico, ele no fogão, ela no salão. Conhecemos a casa há alguns anos. Da primeira vez, entramos por impulso e não nos arrependemos. Tudo foi além da expectativa. Das opções de cardápio ao preparo e apresentação dos pratos, do bom-senso dos preços até o atendimento, mais do que gentil, amistoso. O tempo passou, o bistrot conquistou um público requintado e cativo e, sempre que estamos no pedaço, voltamos lá para um jantar “tête a tête”, ou com a neta que adora o lugar, de vez em quando com a família completa.
A idéia inicial, por imposição da Laurinha, que exerce na plenitude sua autoridade de filha única e neta , deveria consistir numa só pedida para todos: a monumental cascata de frutos do mar, que congrega numa travessa de múltiplos estágios (acho que projetada pela NASA), lagostins, camarões, vieiras e quase tudo mais que o frio oceano sulino oculta, à exceção das sondas do pré-sal. Quando ligamos para encomendar, David Louis estava chegando das compras no litoral e avisou com tristeza que o caos climático estava retendo os barcos de pesca no cais. “Pas de cascata”. Mas, ainda assim, ele não nos deixaria totalmente frustrados.
Dito e feito. O jantar começou com uma generosa porção de “moules a la marinière”, prontamente devoradas em consórcio, já que a moderação era aconselhável, em vista do que viria depois. Os mexilhões estavam fresquíssimos, o caldo de vinho branco e ervas, resultante do cozimento, pedia para ser tomado de colher ou barbaramente absorvido pelo pão, quando as colheres já se mostravam inúteis.
Na seqüência, as louras pediram o mesmo prato, provado e aprovado com louvor em ocasiões anteriores: “magret de canard” com “risoto de champignons de Paris au champagne”. Por sugestão do David Louis, e com a mesma guarnição, substituí o peito rosado pela dourada coxa da mesma desventurada ave, lentamente cozida em sua própria gordura. O genro escolheu outra dica do chef, igualmente perfeita: contra-filé com batatas sautées e lascas de maçã glacées. Cabernet-sauvingon para os adultos, suco de uva para a senhorita.
Por mais que todos estivessem felicíssimos com suas escolhas, olhares de admiração e velada súplica ante o aspecto e o aroma do ”confit” extraíram de mim um desprendimento relutante e promovi uma degustação homeopática do meu prato. A reação foi unânime – da próxima vez, “confit de canard” para todos. Ou reservamos com antecedência, ou o David Louis vai ter que inventar um pato com cinco coxas.
Dado o estado de beatitude que se apossou dos presentes após a última garfada, sedutoras sobremesas e queijos foram dispensados. Somente flutes de champagne oferecidas pela casa aos aniversariantes e convidados. O frio da noite curitibana providenciou as condições mínimas de dirigibilidade, quando deixamos o bistrot, já com saudades antecipadas.
Comments
Dodo: se visse as fotos e nao lesse o seu belissimo comentario, acharia que estavam em Paris. As loiras belas e elegantes. O frio ajudou a compor a moldura.
Se lesse, sem ter visto as fotos, os imaginaria no Vagenende. Com a mesma alegria descrita pela Marcia na temporada de janeiro.
A leitura? Puro deleite de uma noite memorável. Eu ja tinha ouvido falar do D.Louis Bistrot. Das qualidades desse chefe. Mais um motivo para ir a Curitiba, ainda que nao tenha nenhum outro motivo. Abraço para toda a familia.
Eymard
Estava fazendo um frio danado, quase igual ao da última temporada em Paris, risos. Até as ostras se fecharam na suas conchas…
Quanto ao menu, achei que Dodô foi meio econômico ao descrevê-lo, coisa da emoção da festa, Esqueceu até do fantástico molho de poivre vert que recobria o canard. As sobremesas do David Louis são maravilhosas, dignas de quem gosta MUITO de doces. Desta vez nem Laurinha teve coragem de pedir. As moules da entrada falaram mais alto!
Abraços
Beth
Esse menu me deixou com água na boca .
Adoro Confit de Canard assim como o Magret. Entre os dois meu coração balançaria.
O pedido do Paulo també foi dez. Adoro maçãs glaçadas e acho o contra filet um dos melhores cortes da carne.
O texto de Dodô, deliciosamente gostoso de se ler. É óbvio !
Eymard,
O dia que você for a Curitiba, vá mesmo ao bistrot do David Louis. Também você terá o que contar de uma noite deliciosa.
Abs, Dodô
Helena,
Como balançar o coração pode ameaçar as coronárias, fique com o melhor dos dois mundos. Peça ao David uma sala de magret e arremate com o confit, voilá!
Bjs,
Dodô
Gente,
Mudando de pato para bola, o que são a Alemanha e a Argentina jogando ? Bolão… . Me convenceram !
Vamos ver como joga nossa selecinha amanhã.
Parabéns aos aniversariantes, por terem nascido, e por participarem de uma refeição que qualquer vivo gostaria de ter engolido.
Helena: acho que teremos um Brasil x Alemanha por ai! (será?) Nesse caso ja anotei a sua dica de vinhos alemaes para bebe-los no dia do jogo!!!
Dodo: foi exatamente essa combinaçao: magret/confit que saboreei no Senderens. De joelhos!!! Uma saladinha com o magret e o confit servido depois. Nao antes sem apresentar o pato inteiro (a romana)!!!! Voce sabe das coisas.
HELENA,
Também mudando eu de canard para placard, 3X0 neles e menos um pela frente. Agora, é soltar u pouco mais da fantasia do meio de campo para frente para baguçar o esquema tático holandês, que parce traçado pelo Mondrian.
No jogo Alemanha X Argentina, já sei por quem vou torcer: pela prorrogação! De preferência, com decisão nos penalties e dois expulso de cada lado.
Beijos patrióticos.
ps – discordo da FIFA; o melhor em campo não foi o Robinho, foi o Juan.
CESAR,
Obrigado. E parabéns pela sua comovente crônica sobre “futebol biográfico”, no seu site “Leia Junto”, que recomendo com entusiasmo aos leitores dos “Comensais”.
Responda, por favor, mandando o link.
Abraços,
Dodô
EYMARD,
O Senderens é que sabe das coisas. Eu apenas como as coisas que gente como ele prepara para nos dar nesta vida uma amostra do paraíso que pode, ou não, existir depois dela.
Por enquanto, vamos comer ceviche com um belo vinho branco plantado além da cordilheira, no ritual da vitória desta tarde. Agora é esperar a Holanda e torcer para que mais nenhum jogador nosso leve cartão por chutar os países baixos.
Abraços,
El Dodô
Dodô:
Um português literário que faz inveja principalmente para um “gringo” como eu na terra do Tio Sam.
Quando na minha querida Curitiba, farei um esforço de ir a este Bistrot.
Parabéns pelos 40 anos de vida! Vc e Beth, deveriam escrever um livro: “Adventures of two International Globetrotters”.
Quanto ao World Cup, não tenho tempo de acompanhar ao vivo mas sim assistindo as gravações feitas quando chego em casa.
Abs,
Carlos M.
Um ambiente de bistrot, um chef frances, menu escolhido com requinte, clima de festa.
Muita alegria!
Esta gente bonita e feliz leva Paris onde quer que va’ .
Linda famlia!
Parabens, Dodo & Paulo!
Adorei XXX
CARLOS M,
Obrigado pelos 40 anos(???) e pelo “português literário”. Na verdade, quando escrevo, procuro ser o mais fiel possível na tradução do subjetivo pessoal para o “comprimento de onda” das outras pessoas. Expressão sem comunicação é solidão.
Voltando ao bistrot, não deixe de conhecer quando voltar à cidade de suas raízes. E veja se consegue tempo para ver Brasil X Holanda ao vivo, pois vai ser um jogão.
Grande abraço,
Dodô
LUCIA,
Que coisa bonita de se ler! Em nome de toda a família, a começar pelos aniversariantes, nossos agradecimentos. E fique certa de que na Paris que levamos conosco os amigos estão sempre por perto.
Beijos de todos nós
Dodô,
que comemoração prazerosa ! A alegria e sintonia dos cancerianos com as louras já era garantia de sucesso, mas pelo visto o David Louis conseguiu se superar. Meu marido também é canceriano e adoramos patos, inclusive o enchaîné. Se eu estivesse à mesa, acho que também pediria o magret e pelo visto atacaria seu confit. Parabéns pelo desprendimento e parcimônia na degustação.
Grandes lembranças de harmonia para a Laurinha levar para sempre.
VALEU, MADÁ!
E o aniversário do marido canceriano? Planos já feitos? Dê a ele nosso abraço por conta.
E a Laurinha, aos 12 anos, tem clara consciência de que está vivendo uma história de vida privilegiada. Tanto que apresenta uma certa síndrome de Peter Pan – gostaria de continuar criança por muito tempo.
Beijos de todos
Dodô
Dodô,
Comeração à altura da famlía. Requintada e alegre, feita num agradável bistrô, sob a batuta ou a colher do David Louis.
Arremata o grande jantar, com um brinde a nós: nos oferece mais uma linda crônica.
Que muitos aniversários assim sejam comemorados nessa família verdadeiramente especial!
Beijos a todos,
Sonia
SONIA,
A família, alimentada de corpo e espírito, agradece eretribui o seu carinho.
Beijos de todos.
Dodô
Dodô,
essa combinação de cancerianos e louras tem provado que tem dado muito certo, então tem mesmo é que comemorar. Um abraço atrasado, mas sincero.
Eu sempre correndo, do azul do Mediterrâneo, ao cinza do Seine, “avec beaucoup de retard” compartilho com vocês este momento delicioso.