Gula em calda
Por Márcia Luz | 28 de Fevereiro de 2008.
Águas termais, ofurôs, caminhadas ecológicas, piscinas de todos os formatos e temperaturas, milhares de atividades. Tudo não passa de um ardiloso disfarce. O resort Plaza Caldas da Imperatriz é uma cruel armadilha que conduz à prática despudorada de um dos mais perigosos dos sete pecados: a gula.
Localizado, ou melhor, encravado nas montanhas da Serra do Tabuleiro, próximo ao município de Santo Amaro da Imperatriz, nas vizinhanças de Florianópolis, o resort desencoraja os hóspedes a deixar suas dependências – afinal, quem quer perder qualquer uma das refeições? E, é verdade, há um mundo de diversão à disposição dos hóspedes. As águas termais da região são um convite à imersão de todo tipo – banheiras de mármore, piscinas, cascatas, jacuzzis, ofurôs, enfim, água por todo lado. O roupão é a vestimenta básica. Por mais pudor e autocrítica que se tenha, em algum momento você desfilará feliz com o seu roupão pelo restaurante do hotel. Eu falei restaurante? Calma, já chegaremos lá.
Uma intensa programação de atividades é a maquiagem perfeita. Vôlei, caminhadas, futebol, jogos de todos os tipos, excursões, tênis… tudo cruelmente planejado para o pobre hóspede acreditar que sairá de lá mais esbelto e saudável. Bem, saudável talvez, mas esbelto… O supra-sumo da ironia praticada pela direção do Plaza é um propagandeado spa que o hotel abriga. De massagens a ginástica de todos os tipos, o tal spa promete maravilhas às vítimas da obesidade. Mal sabem elas. Ao passear pelas dependências do spa, procurei sem sucesso o porão de tortura onde os que se submetem a uma dieta de 900 calorias são torturados. Novecentas calorias, dizem, aos cochichos, os hóspedes que não se inscreveram na programação de emagrecimento, entre garfadas e risadinhas.
Logo nas primeiras horas, descobri as verdadeiras intenções do resort. Oito e meia da noite. Sexta-feira, véspera de Carnaval. Enquanto os desavisados de primeira viagem planejavam as atividades do dia seguinte, era servido o jantar. A partir desse momento, gradual e inexoravelmente, todos se iniciam no principal esporte praticado por lá: levantamento de garfo.
O BUFÊ SEDUTOR
Bufê é uma palavra perigosa. Normalmente é sinônimo de um monte de comida cujo sabor oscila entre o ruim e o mais ou menos. Bufê é um lugar onde as pessoas se amontoam em filas patéticas e retornam com uma montanha de comida no prato, uma espécie de território livre das combinações bizarras. Como batata frita com alface sobre risoto de frango em molho de pastéis e cobertura de estrogonofe acompanhada de milho verde e salpicão de atum.
Bufês nunca me impressionaram nem me atraíram. Até surgir o bufê do Plaza. A cozinha do hotel guarda um segredo insondável. Como uma estrutura tão grande – o hotel tem capacidade para 500 hóspedes – consegue manter um padrão de qualidade tão uniforme em relação à comida? Obviamente seria impossível que cada item do bufê fosse uma criação genial da gastronomia, mas o fato é que nada era mal feito. Nenhum pãozinho do café-da-manhã pecava em textura ou frescor, nenhuma fruta madura ou verde demais, nenhuma alface murcha. Nenhuma vagem cozida demais! Impossível!
Para não dizerem que exagero, devo fazer uma ressalva. Havia algo mais ou menos: as sobremesas. Algumas excelentes, porém a maior parte das opções era mediana. Mas as poucas excelentes já faziam um belo estrago. Houve quem se viciou na cocada, e teve crises de tremedeira um dia em que ela não foi servida.
Uma pequena lista das principais atrações do bufê sedutor.
CAFÉ-DA-MANHÃ
O croissant. O maldito croissant é responsável por pelo menos um terço dos quilos conquistados no Plaza. Uma obra-prima da arte croissântica. Pequenas meias-luas douradas e fumegantes aguardavam os hóspedes diariamente, voluptuosamente aconchegadas dentro de um réchaud com tampa que, ao ser aberta, exalava um aroma doce e algo alucinógeno. Sempre quentinhos, crocantes e macios ao mesmo tempo, à espera do recheio mais apreciado pelo comensal. Comovente.
Além dos croissants, diversas opções muito corretas completavam a tentação matinal. Ovos mexidos molhadinhos, quadradinhos de bacon crocantes e sequinhos, uma interminável lista de bolos, pães, queijos, geléias, frios, frutas, sucos… e sempre uma surpresa diferente a cada dia. A mais sádica de todas foram os pastéis de banana cobertos de canela e açúcar. Duas famílias brigaram por causa deles.
ALMOÇO
Dia sim, dia não, o hotel oferece churrasco. A estratégia é a seguinte: enquanto os hóspedes tentam queimar as calorias do café jogando vôlei na piscina, um leve odor de carne assada começa a impregnar o ar. O tempo vai passando e o leve odor começa a se materializar em picanha no cérebro das pessoas. Por volta das treze horas, todos começam a se transformar em leões famintos na savana do resort. Para piorar tudo, a cerveja e a caipirinha de cachaça estão incluídas na diária e podem ser consumidas à vontade durante as refeições. Resultado: leões embriagados e totalmente desprovidos de auto-controle quase devoram o churrasqueiro. Fico imaginando onde trancam o pessoal do spa nesse momento.
JANTAR
Pelo menos um ensinamento nobre é aprendido no hotel. A disciplina. Dá gosto de ver: todas as noites, religiosamente, os hóspedes se reúnem às oito e meia em ponto no restaurante principal. É no jantar que as melhores surpresas ocorrem, por isso ninguém quer correr o risco de se atrasar. Nessa altura do campeonato, lá pelo terceiro dia de estadia, as maravilhas oferecidas pelo resort já se tornaram um mero meio de passar o tempo entre as refeições. Resignadas, as pessoas rolam obedientemente em direção ao bufê.
É lá que um simples creme de abóbora pode se tornar uma terrível poção transformadora de humanos em ogros. Aveludada, suave, doce, cremosa, de um lindo tom alaranjado, a tal sopinha nada mais faz do que abrir escandalosamente o apetite do povo. Ouvi uma senhora jurando que não comeria mais nada além dela. Mais tarde, foi vista afundando num prato de moqueca. Devia ser crime inafiançável servir moqueca no jantar.
Mas o fato é que o peixe é outro ardil da cozinha. Inexplicavelmente suave, fresco, firme e macio ao mesmo tempo, ele fica bem em diversas formas de preparação – belle meuniére, ao molho de camarão, com maracujá… Agulha-negra é o nome do bichinho, um peixe de alto-mar, de carne branca e suave, e absolutamente sem espinhas. É uma das principais espécies de peixe praticadas no hotel.
Eu falei que as melhores surpresas ocorrem no jantar. Então, vou me despedir dos leitores com a mais incrível delas, oferecida aos submissos hóspedes na noite de terça-feira, às vésperas da despedida do feriado. Cordeiro ao molho de jabuticaba. Luxuriantes pedaços de carne desmanchando-se num molho escuro e espesso, perfeitamente equilibrado entre o ácido, o doce e o picante. Para acompanhar, um arroz de três grãos com lascas de amêndoas crocantes. E fim.
O MENTOR
Miguel Ângelo Boesio é o apropriado nome do chef que comanda a cozinha do hotel. Meus cumprimentos.
SERVIÇO
Para quem quiser se arriscar no templo da perdição, o Plaza Caldas da Imperatriz não sai caro. Uma família de três pessoas paga cerca de 400 Reais a diária com tudo incluído, da banheira de mármore ao croissant.
O Plaza fica na Rodovia Princesa Leopoldina, 3355
Santo Amaro da Imperatriz - SC.
Tel: (48) 3281-9000.
www.plazahoteis.com.br



Humilhante! Onde fica mesmoooo?