Maridos X Dietas
Por Márcia Luz | 25 de Agosto de 2008.Diz a lenda que casamento engorda. Sempre achei isso uma bobagem, como outros lugares-comuns – homem é tudo igual, etc. Mas agora vejo que faz sentido o lance de engordar. Descobri que é praticamente impossível fazer dieta tendo um homem ao lado – eles são capazes de destruir a mais determinada das intenções de emagrecer.
O fato é que eu nunca dei bola para essa história de dieta – acredito em alimentação equilibrada e muito exercício físico – porém, as circunstâncias atuais me levaram a decidir passar uns tempos em regime de restrição calórica.
Acabo de concluir um trabalho exaustivo de reportagem para um guia gastronômico. Foram dois meses entrevistando uma centena de donos de bares e restaurantes de Curitiba. Dois meses ouvindo falar de comida, fazendo perguntas sobre comida, escrevendo sobre comida. Sete dias por semana. Na segunda semana de trabalho, comecei a sonhar com comida – nadava em piscinas de catupiry, escalava montanhas de bolinhos de aipim, era perseguida por sobrecoxas assadas gigantes… Loucura! Apesar de, por questões éticas, não ter experimentado nenhum quitute nos locais entrevistados, eu descontava minha ansiedade no supermercado. Comprava ingredientes diferentes, preparava os mais inspirados pratos, até aprendi a fazer escondidinho (grandeeee mistério, mas me orgulhei muito). Gastei parte do meu pagamento em coisas como queijo de cabra, salmão defumado, manteiga de garrafa e até um pato. Idiota descontrolada! Resultado: quatro quilos a mais.
Decidi colocar um ponto final nessa situação. Depois de heroicamente estancar a compulsão culinária, admiti que teria que fazer algo mais radical, caso não quisesse continuar me sentindo um provolone – e parecendo um. O problema é que a simples idéia de freqüentar a prateleira de produtos light do supermercado me causa arrepios de horror. Acredito piamente que os produtos light têm no mínimo 30 % de plástico na composição. Decidi fazer algo mais inteligente e menos radical: cortar coisas obviamente engordativas e comer comida leve. E comer menos. Afinal, uma hora e meia de exercício todo dia deve ajudar em alguma coisa.
Seria fácil, se não fosse o fator MF. O marido e a filha. Pra começo de conversa, não pensem que esse texto é um subterfúgio para eu reclamar do marido. Não, não. Tenho a sorte de ter um marido mega-sena, maravilhoso. É apenas uma constatação a respeito das diferenças. Parte da vida. O primeiro impasse: fazer comida diferente para mim e para eles (MF) seria praticamente iniciar uma grave crise conjugal. Meu marido gosta de comer JUNTO comigo, compartilhar, é um ritual importante. E ele, na teoria, não se recusa a comer comida leve. Na teoria, repito. Primeiro, ele odeia frango. Pessoas, como é possível fazer dieta sem frango? O frango é o ícone número um das dietas! Suspiro. Vamos lá. Podemos tentar eliminar os carboidratos. Mas como eliminar os carboidratos da vida de um italiano, me digam? Um homem que tem crises de abstinência quando baixa o índice de tagliatelle no sangue? Tá, farei o tagliatelle ao sugo, menos mal.
Também preciso deletar o domingo da dieta. É o dia sagrado da picanha com maionese, e qualquer modificação nesse calendário seria considerado terrorismo doméstico. Ok, passarei mais fome nos outros dias.
Mas e se eu dissesse que o homem em questão é um excelente cozinheiro? E que adora cozinhar? E que cozinha sempre que pode? Isso quer dizer o seguinte: se eu demorar mais de cinco minutos na cama pela manhã, depois que ele acorda, é praticamente certo que haverá uma imensa omelete com muito queijo derretido me esperando, com uma cesta de torradas (de pão branco, óbvio) brilhando de manteiga. E ai de mim se eu recusar. Nada o deixa mais ofendido do que recusar o que ele prepara com tanto carinho! Como ofender um homem que costuma sempre lavar a louça? A estratégia é colocar o despertador para tocar mais cedo, voar da cama e correr para a cozinha, fazer um suco de frutas, pão integral com peito de peru e queijo branco e torcer para ele não reclamar. E assim sigo competindo no 100 metros rasos para ver quem ocupa a cozinha primeiro. Mas é difícil, leitores, muito difícil. Uma simples bobeada e ele chega em casa carregando 10 caixas de morango: “Amor, vou fazer aquela minha geléia”. Cinco quilos de manga. “Farei mango chutney, nossa filha adora!”. Dois potes imensos de doce-de-leite, salame de picanha e meio quilo de requeijão. “Querida, o mineirinho passou no meu trabalho e eu não resisti, olha só o que ele trouxe de Minas dessa vez!” Vontade de esfolar o mineirinho vivo, lentamente.
Acho que vou desistir. E aumentar a carga de exercícios em mais uma hora por dia. Por amor.



Ao ler o seu texto, logo me identifiquei, lá em casa é igual. Por isso o melhor mesmo é aumentar nos exercícios e continuar feliz, e há coisa melhor???
Realmente, Moira, não há. E como arrumar maridos maravilhosos não é moleza, vamos malhar e aproveitar nossos adoráveis sabotadores!
beijo
Nossa, Marcia, vc colocou ‘no papel’ a situação pela qual todas nós passamos!! Ainda mais quem, como eu, tem um marido de quase 2m de altura (o que significa que ele demora mais pra engordar do que eu), então não há dieta que resista!! O jeito é correr pra academia mesmo pra compensar…Adorei! bjs.
Pois é, Mari. Sabe que quando escrevi esse texto tive a impressão que muitas mulheres iriam se identificar. Aliás, adoraria saber se alguém tem marido que apóia dieta! Será que isso existe?
Aposto que não!!!
beijocasss
Márcia, como sempre muiiito inspirada!! Adorei o texto e
como conheço o marido cozinheiro, tenho certeza que será
muito difícil fazer regime. A malhação continua a melhor
estratégia…
Beijos
A D O R E I !!!!
Guria, que massa ! Quero dizer, que salada !
Espero que a parte dos 4 quilos a mais seja apenas
licença poética, ou melhor, pura ficção…
Genial ! Você só esqueceu duma coisinha,
deliciosa e bem calórica…
O pudim diário durante a gestação ! KKKKK
Beigos gordilindos
sua dona
Ah ! por falar em calorias,
voltei pro pilates !
Queridona
Que bom que você gostou!
Infelizmente, a licença poética depositada na minha cintura não me parece nada fictícia, chuif…
Ai, é mesmo, o pudim!!!! E o cirquinho de abacaxi com nata. E o camarão com catupiri. Aaaaaiiiii…
beijos piláticos
Só vejo umas saída: marido grelhado. Para informações mais detalhadas sobre gastronomia canibal, consultar “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, onde os chamados silvícolas do litoral baiano (aqueles mesmos que cometeram o pecado da gula ao devorar o bispo Sardinha) tecem considerações didáticas sobre a superioridade da carne dos invasores holandeses em comparação com os clérigos ibéricos.
Bom apetite!
Em tempo: Garota, você está escrevendo cada vez melhor!
Oiiiii
Eba, vou ler o babau! Quem sabe tem uma receita de marido ao molho holandês!
Obrigada pelo elogio, snif, estou emocionada.
beijíssimos!