Menos, Ana Cristina. Bem menos…

por Mariana Souza

Sou fã da Ana Cristina Reis, uma jornalista que escreve no caderno Ela, de O Globo. Seus textos são sempre divertidos e inteligentes, e não raramente refletem situações e sentimentos que me são bastante comuns. Enfim, é daquelas colunas que eu abro o jornal de sábado e já vou logo procurando.

Mas algumas vezes eu não gosto dos textos da Ana Cristina. Ou melhor (quer dizer, pior), eles chegam a me irritar. E isso acontece quando ela resolve escrever textos de consagração (puxa-saquismo, para ser mais clara) ao Claude Troisgros.

Desde que me conheço por comensal o Troisgros é referência na gastronomia carioca. Durante muito tempo teve seu restaurante no Jardim Botânico. Uma vez meu pai me levou lá. Lembro que comi uma carne com farofa de alho deliciosa. E isso já tem uns 15 anos.

Muitos anos se passaram e o Troisgros foi ficando mais badalado. Fechou seu restaurante antigo, abriu o Boteco 66 e, depois, o Olympe. A idéia na época, me recordo, era ressuscitar pratos famosos do chef, como a codorna com jabuticaba feita para o ex-presidente Fernando Henrique lá pelo século XVII (se a pobre da ave cobrasse royalties…).

Ainda com a lembrança da carne com farofa de alho, convenci o Marido (e quem mais?) a me levar no Olympe, logo que abriu. O restaurante estava em todos os guias da semana, então foi preciso fazer reserva, e cedo.

Chegamos e nos sentamos. O ambiente era agradável. Paredes brancas, móveis confortáveis, objetos de decoração moderninhos. O garçom trouxe a carta de vinhos e começou a servir o couvert. Não lembro exatamente em que consistia o couvert, mas não esqueço dos biscoitos de polvilho com curry. Deliciosos.

Escolhido o vinho, passamos à análise do cardápio. Os pratos eram bem criativos. Para falar a verdade, um pouco criativos demais pra mim. Cherne com banana d’água caramelada e molho de passas, filé de pargo com berinjelas confit ao mel, a bendita da codorna com jabuticaba…
Além disso, havia observações dispensáveis ao lado dos pratos como “o preferido da Claudia Raia e do Edson Celulari” – na boa, who cares???

Achei melhor não arriscar e pedi um frango. Nunca vou esquecer: filé de frango com cubos de pão crocante (como se fosse empanado, só que com cubos de pão), com molho de cogumelos, acompanhado de purê de espinafre. Nem sei se esse prato ainda consta do cardápio, mas me marcou.

Feitos os pedidos, nos pusemos a degustar o vinho e comer o couvert. Como disse, não lembro de mais nada além do biscoito de polvilho, mas lembro que o couvert era gostoso. Ainda bem, porque os pratos levaram quase uma hora para serem servidos.

Finalmente chegou nosso jantar. Olho para o meu prato e ali estava o filé de frango, com seus cubos de pão, e o molho de cogumelos. E só.

Já tinha passado muito tempo desde que havíamos feito os pedidos, mas tinha a impressão de que o prato tinha algum acompanhamento. Estaria eu equivocada? Por via das dúvidas, antes de reclamar qualquer coisa com o garçom, pedi novamente o cardápio, só pra checar. Abri e ali estava a descrição do prato. No fim, o acompanhamento: purê de espinafre. Rá!

Chamei o garçom novamente e perguntei sobre o purê de espinafre. Afinal de contas, o prato havia saído da cozinha sem o acompanhamento. Será que ninguém tinha notado?

O garçom não sabia o motivo e foi até a cozinha descobrir. Quando voltou, o choque: o prato não tinha purê de espinafre porque eles não tinham encontrado espinafre para comprar naquele dia. Simples assim.

Respirei fundo e perguntei ao garçom se, em situações como aquela, eles não ofereciam um outro acompanhamento para o cliente. Um arroz, uma salada, qualquer coisa para acompanhar o frango. Fui além. Perguntei se eles não informavam isso ao cliente no momento em que o prato era pedido. Afinal, poderia acontecer de o cliente pedir o prato especificamente por causa do acompanhamento, que não tinha.

Num lampejo de genialidade, o garçom perguntou se eu gostaria de algum outro acompanhamento. A essa altura o Marido já estava terminando o prato dele, e eu estava roxa de fome. Expliquei isso ao garçom e agradeci, mas recusei. Comi o frango com molho de cogumelos mesmo. E não estava lá grandes coisas.

No fim do jantar, o chef, dono do restaurante, referência culinária, Claude Troisgros, vem ao salão. Como sói fazer, foi de mesa em mesa, claro, receber os cumprimentos e elogios pelo novo restaurante.

Eis que chega à nossa mesa. Eu, fina e educada, elogio o ambiente, o couvert, o frango. E, com todo cuidado (afinal, era o Troisgros!) digo que havia ocorrido um pequeno (quase imperceptível) problema com o meu jantar. Relato o ocorrido a ele, esperando, claro, uma justificativa ou um pedido de desculpas.

Nada disso, reles mortais. O super Troisgros me sai com a seguinte pérola: você tem que ser mais compreensiva; afinal, acabamos de abrir.

Sim, o dono do restaurante, que acabara de me servir um prato sem acompanhamento, me deu uma bronca. Fiquei bege.

Eu, que acredito nas pessoas e na salvação da raça humana, ainda esperei que viesse uma sobremesa de cortesia, ou que o prato não fosse cobrado (nem que fosse parcialmente!). Mas nada.

Conta completa (e cara, obviamente), fomos embora para nunca mais voltar.

E essa foi a ascensão e queda do Troigros na minha vida comensal. Por isso fico indignada quando o vejo todo festejado, com textos elogiosos da Ana Cristina Reis e programa na televisão com o Renato Machado (onde ele faz aquela cara de bonzinho e fala em português errado – impressionante, considerando que o cara já mora no Brasil há uns 30 anos).

E minha indignação aumenta mais ainda quando imagino que esse povo todo (jornalistas, críticos da Veja Rio, do Rio Show, etc) deve ser bajulado por ele e muito provavelmente não paga nada pelas refeições. Argh!

Rating: ★☆☆☆☆

Olympe
R. Custódio Serrão, 62
Lagoa, Rio de Janeiro
Tel. (21) 2539-4542