Moqueca com feijão, a salvação
por Márcia Luz
Queridos e amados leitores: volto triunfalmente a escrever com freqüência no mínimo decente no Comensais! Uma série de furacões profissionais me tiraram de combate nos últimos meses, mas finalmente, veio a bonança!!!! Depois de longas semanas em regime de semi-escravidão, passei quatro gloriosos dia em Fernando de Noronha, e recomendo: a ilha apaga qualquer vestígio de estresse e cansaço.
Mas vamos ao que interessa nesse espaço: comida!!!!
Antes de escrever esse texto, hesitei um tanto por conta do senso de ridículo que me acometeu. Afinal, quem seria tão imbecil a ponto de dar maior importância à comida de um lugar onde se pode mergulhar com tartarugas gigantes, observar bandos de golfinhos saltitantes e interagir com peixinhos coloridos em um deslumbrante aquário natural? Como ter pensamentos gourmets em um lugar onde o mar atinge todos os matizes de azul e verde e o sol brilha full time?
Eu não!
Portanto, o que se segue são apenas constatações… com algumas pitadas de acidez. Afinal, por mais deslumbrante que seja o lugar, em algum momento a gente tem que se alimentar, né? E essa não é uma tarefa fácil em Noronha caso você não se inclua na faixa entre “muito rico” e “milionário”.
Exemplos: lá, uma garrafa de água mineral 500 ml custa R$ 6, mate de copinho, R$ 5, picolé de limão, R$ 4,50, cerveja de latinha, R$ 4. Em qualquer biboca! Imagine uma refeição completa! Sem falar no fato de que o convívio diário com o mundo marinho estimula muito o predador que habita em nós.
Assim, empreendemos uma nobre expedição em busca de boa comida a preços condizentes com nossa condição financeira. Somente no jantar, já que o almoço era obtido através do saque inescrupuloso ao bufê do café-da-manhã na pousada.
O relato a seguir pode ser bastante útil a você, leitor, quando for se aventurar nesse paraíso.
NOITE 1 – TARTARUGÃO: o embuste!!!!!
Cansados da viagem de dez horas de Curitiba a Noronha, fomos em busca de um lugar perto da pousada. O gerente nos indicou o Tartarugão, onde (segundo ele) poderíamos comer bem sem gastar muito, a dois quarteirões dali. A primeira impressão foi boa: lugar simples, varanda, jeito de restaurante-boteco. Pedimos a sugestão “da casa”, e o garçom nos recomendou o mix de peixes e frutos-do-mar feitos na brasa, cuja porção seria suficiente para três (eu, marido e filha). O prato era bonito: fartos pedaços de peixe, polvo e lula dourados e fumegantes e alguns camarões médios. Só posso dizer uma coisa: a comida realmente deu para três, pois estava tão salgada que não dava para distinguir o gosto de nada, e tivemos que beber litros de água/refri/cerveja para poder ingerir o suficiente para matar a fome. Tudo saiu pela módica quantia de 160 Reais, sede e mau humor incluídos.
Conclusão: nada pode ser mais ridiculamente amador num restaurante do que salgar demais a comida.
NOITE 2 – ECOLOGIKUS, o infarto anunciado
Eu odeio lugares que usam K onde devia ter C no nome. É pra ficar tipo assim meio estrangeiro? O K é mais charmoso que o C? Também abomino aqueles cujos nomes terminam em “us” – é pra parecer que o dono sabe latim?
Por fome, cansaço ou dormência cerebral acabamos indo parar num local que mistura as duas gracinhas e atende por “Ecologikus”, olha que fofo. Bem feito. Mas não fomos lá à toa, o lugar foi recomendado por várias pessoas e é especializado em lagosta – tínhamos uma promessa lagostística a cumprir com nossa filha. Bem, a “especialidade” da casa consiste em mergulhar a lagosta na água fervente e servi-la com manteiga, arroz e saladinha básica. Por módicos 120 Reais. Que viraram 200 com entrada – um vinagrete de asfalto, ops, de coentro, ops, de polvo – mais bebidas. Maldade minha com o vinagrete, ninguém tem culpa de eu odiar coentro – na terra do coentro. O polvo estava no ponto certo. A lagosta estava ok (óbvio, a “receita” não tem erro, a menos que o cozinheiro cometesse a atrocidade de deixá-la passar do ponto, o que não ocorreu) mas saímos de lá mais pobres e ainda com fome.
NOITE 3 – A trégua
Resolvemos fazer uma trégua e pedimos pizza no hotel. Medo de não sobreviver a mais uma tentativa de satisfazer nosso estômago.
NOITE 4 – Mais uma chance a um famosinho
Achando que não havia como errar, e já sem esperanças de economizar, fomos ao famoso restaurante do Zé Maria, na pousada homônima igualmente famosa. Engoli minha aversão por lugares sofisticadinhos, charmosinhos e cheios de mauricinhos em nome de uma boa refeição. Nas paredes, muitos prêmios gastronômicos emoldurados, pratos da Boa Viagem, credenciais mil. Pedimos, novamente sob recomendação do garçom, o prato mais conhecido da casa: filés de Meca (ou espadarte, um parente do atum de carne branquíssima e sabor suave) com camarões flambados e purê de mandioquinha. De entrada, escolhemos um ceviche de frutos do mar com laranja e graviola e uma saladinha. Também pedimos um vinho, conformados com a falência iminente.
O ceviche é um capítulo à parte, e traduz toda a minha repugnância ao surto de invencionice gastronômica que assola o mundo. Eu nunca tinha comido ceviche. Segundo meu marido, fã desse prato, trata-se basicamente de peixe marinado no limão e outros temperos, e é justamente o limão que “cozinha” o peixe e confere ao ceviche status de, digamos, ceviche. Aquele ceviche não era um ceviche, mas uma gororoba gosmenta disfarçada de prato chique. A laranja e a graviola não operam a mágica do limão, ou seja, tudo estava cru. Não tinha peixe, pois a gosma, ops, o ceviche, era de frutos do mar. Nobre leitor: você alguma vez já comeu lula crua? E camarão cru? Pois bem, lula crua é uma coisa, me faltam palavras, absolutamente impossível de mastigar. Imagine uma tira de borracha gelatinosa e escorregadia, envolta em um molho igualmente gelatinoso, doce e amargo (a felicíssima mistura da laranja com a graviola), mas também salgado e peixoso, que teima em não ceder à mais vigorosa pressão dos molares. Em nome da boa educação, acabei engolindo um pedaço inteiro (e grande, suprema crueldade do cozinheiro), meu aparelho digestivo esforçando-se para devolver aquele corpo estranho, concluindo a operação com a ajuda de vários goles de água… Nossa! Teimosamente, resolvi tentar um camarão. Piorou. O camarão cedeu fácil, explodindo lesmosamente na minha boca, novamente induzindo meu organismo a um ataque de rejeição. Eu merecia uma indenização!
Mas não, ao invés disso, o garçom esqueceu nosso vinho!!!!!! PODE? Es-que-ceu o vinho, a última esperança de superar aquele pesadelo! Quando ele trouxe o prato principal, a Meca, observamos o deslize. O moço se desfez em desculpas e disse que imediatamente corrigiria a falha. Como eu não sei, já que terminamos de comer e nada de vinho nem de garçom. Suspendemos o pedido e pedimos a conta, ouvimos novas desculpas e ficou por isso. MAS… NEM A CONTA ELE TROUXE! Decidimos ir embora, pagamos direto no caixa – chiiiique – e nos empenhamos em ignorar o episódio.
Ah, a Meca estava ótima, mas não conta. O mérito é do peixe, que só precisa de alguns minutos numa chapa quente para tornar-se um manjar dos deuses. E foi exatamente assim que ele foi preparado.
NOITE 5 – Redenção Tricolor
Finalmente, nossa busca foi recompensada. Tricolor, Vila dos Três Paus. Anote esse nome. É o paraíso gastronômico. É simples, bonitinho, impecavelmente limpo, simpático. O preço é justo, os donos são bacanas mas sem salamaleques. E a comida…. snif…. é… chuif… comovente, celestial, aaah…
As moquecas são as estrelas da casa – de peixe, polvo, camarão, lagosta, com um ou mais sabores, a combinar. Seu Jorge, o proprietário, explicou que haviam apenas duas postas de peixe (namorado) e que devíamos pedir dois sabores para não passar fome (a honestidade tocou meu coração, buáá…). Pedimos de peixe e polvo. Antes da moqueca, veio uma cumbuca de arroz e outra de feijão, e estranhamos… moqueca com feijão? “É que todo mundo pede o feijão da Edna, então resolvemos servir com todos os pratos”, esclarece Jorge, com ares de marido orgulhoso. Experimentei, e concluí que era a melhor entrada do mundo antes da moqueca. E que alguém que faz um feijão daqueles deve ter poderes mágicos.
A moqueca? Não deu outra. Farta, cheirosa, generosa, com ingredientes tão frescos que podiam sair nadando pra fora do prato. A mistura de temperos e texturas era de tal forma harmoniosa que dava vontade de compor um soneto. O pirão, então… a essência do prazer cremoso estava escondida nele, revelando-se aos poucos, trazendo em cada bocada a sensação de que a felicidade existe. E tem gosto de moqueca da Edna.
Fim.
(não quero nublar esse momento falando da conta, mas certamente foi o lugar de melhor custo-benefício, em todos os sentidos)
Comments
Marcia
Eu me engasguei de tanto rir!
Mas o jantar final deve ter sido inesquecível, moqueca com feijão!
Bjs.
Marcia,
Até para se irritar, o talento ajuda! O relato das desventuras gastronômicas da família ilhada no paraíso deve ser preservado pelo Ministério do Turismo numa placa de bronze colocada ostensivamente na saída do aeroporto de FN.
Eu chego a pensar que a ilha está para a culinária como Santa Helena para Napoleão. Pelo menos resta um consolo: ninguém foi devorado pelos tubarões, mesmo sendo capaz de devorá-los crus, em nome da sobrevivência.
Você, marido e filha estão convidados para comer tesouros do mar, preparados com engenho em arte, em Paris, nos primeiros dias de 2010, d´accord?
Beijos
Queridos Beth e Dodô;
Adorei os comentários, obrigada!
Mal posso esperar para lavar a alma faminta em Parrí!
beijoooos
Marcia
Welcome back!!!
Adorei as dicas! Comer mal em viagem me deixa num mau humor absurdo, você não faz idéia. Eu já teria pedido um Big Mac de Recife há muito! rs
Escreva mais, querida. Beijos