O fenômeno dos chefinhos e a aventura natalina

por Antigos(as) Autores(as)

Por Márcia Luz

O que mais tem hoje em dia é gente metida a chef. E onde há um metido a chef há uma pequena platéia disposta a paparicar o chefinho. Parêntesis: o “metido a chef” não é necessariamente aquela pessoa que comanda a cozinha de um restaurante, mas o fulano que fez um cursinho de culinária – geralmente com o nome de “gourmet-alguma-coisa” – ou o sicrano que vive se gabando de sua cozinha super equipada e de suas criações gastronômicas, etc.

Você vai ao almoço de aniversário da tia-avó, e lá pelas tantas a cozinheira chama o metido a chef da família: “Albertinho, você que é chef, vem dar a sua opinião sobre o frango ensopado!” E lá vai o Albertinho todo coisa fazer a sua performance. Cheira o molho de olhos fechados, prova um pouquinho, revira os olhos de um lado para o outro como se estivesse acompanhando o vôo de um mosquito, solta um longo suspiro e dá o veredicto: falta um toque de tomilho. “A senhora tem tomilho fresco?” A tia traz o tomilho, ele joga quatro folhinhas na panela e pronto! O toque do chef! Durante o almoço, os comentários: “não é que o tomilho fez toda a diferença?” “O Albertinho, hein? Que talento!” “Vocês precisam ver o blanquette de veau que ele prepara. Uma iguaria!”
Há algum tempo, num almoço de família, presenciei um memorável mico culinário protagonizado por um desses chefinhos. Ou melhor, chefinha. Era uma ocasião importante, não me lembro bem qual, almoço de páscoa ou aniversário de alguém, e tinha bastante gente, entre família e agregados eram umas trinta pessoas. A chefinha em questão era desconhecida da maioria: sogra do filho do dono-da-casa.

Como o casalzinho era recém-casado, os anfitriões se esforçavam para acolher a família da noiva com a maior hospitalidade, e assim a cozinha foi colocada à disposição da mãe chefinha e o almoço foi divulgado como um grande acontecimento: “a dona fulana é que vai preparar as entradas, ela é chef!” A referida senhora era professora em um curso de culinária na sua cidade, e como foi possível constatar mais tarde, não atuava em nenhum restaurante.

Conhecendo a minha família e seu apetite, bem como uma certa tendência ao caos nesse tipo de confraternização, fiquei aliviada quando soube que a chefinha iria preparar apenas as entradas. Eu explico: nos almoços da família, normalmente comandados por uma prima de talento excepcional no forno e fogão, geralmente são servidos grandes assados, fartos acompanhamentos, comida bem caseira e gloriosamente saborosa: pernil, frango recheado, maionese, empadões, pastéis. Tudo devorado avidamente pelos comensais entre goles de vinho e papos animadíssimos cujo volume vai aumentando à medida que a bebida faz efeito. Um detalhe importante: por uma misteriosa característica genética, todos os meus primos possuem um altíssimo nível de testosterona e costumam ser acometidos por um mau humor selvagem quando estão com fome.

Voltando ao almoço. A dona chefinha seria responsável pelas entradas e a minha prima faria o prato principal, peru e chester recheado com farofa e maionese (ah! era almoço de Natal!).

Primeiro fato insólito: a entrada, anunciada com toda pompa e circunstância, seria composta de ostras gratinadas sobre cama de mini-folhas verdes cobertas com lascas de parmesão e azeite trufado. Não consegui imaginar a turma “degustando” ostrinhas com folhinhas civilizadamente enquanto aguardava os javalis, ops, perus. Nem tampouco consegui fazer alguma conexão gastronômica entre os moluscos e as aves com farofa. Decidi ser menos rabugenta e fui beber com os familiares. O tempo passava, passava, e ninguém chamava para a mesa. Meus primos também resolveram ser tolerantes, e afogavam o seu ogro interior com goles e mais goles de vinho.

Por volta das quatro da tarde, achei que devia investigar. Quando entrei na cozinha, deparei com a seguinte cena: a anfitriã aflita tentando oferecer ajuda à chefinha – uma vez que os pratos principais não só estavam prontos mas sob ameaça de ressecamento – e sendo repelida com um olhar de desprezo, como se mãos plebéias pudessem arruinar a sua criação. Ela organizava minuciosamente cada ostra gratinada sobre a caminha de folhinhas, em seguida deitando teatralmente fios de azeite sobre elas. Choque de horror: não havia mais que duas dúzias de ostras, porção suficiente para somente um primo e meio, que dirá para o mundaréu de gente bêbada e faminta que esperava (quase) pacientemente.

E então o pior aconteceu.

Um dos comensais adentra o recinto como quem não quer nada e… zás! Devora uma ostra. Ato contínuo, arrebata outra do pratinho e leva para oferecer a alguém. Sob o olhar horrorizado da chefinha, aparece outro convidado e repete o gesto, e outro, e… em poucos minutos as ostras desapareceram do mundo sem sequer terem saído da cozinha. Enquanto a chefinha permanecia paralisada, boca aberta e expressão homicida, minha prima previu o apocalipse que estava por vir e agiu o mais rápido possível. Enquanto ela corria para sala com os pratos principais, seguia-se uma cena digna de filmes de piranhas assassinas: mal a comida chegava na mesa, apareciam mão e talheres de todos os lados e tudo desaparecia em questão de segundos!!!

Os mais controlados, ou mais bêbados, sei lá – entre eles, eu – praticamente almoçaram farofa com arroz.

A chefinha nunca mais foi vista, nem naquele almoço, nem em nenhum outro.