O nome do fruto

por Evandro Barreto

Há um misterioso vegetal que brota somente na planície de Savasandir e cuja silhueta ao entardecer lembra uma ave. No dialeto local é chamado de u-á.

A planta propicia uma iguaria digna dos deuses, desde que o solo forneça nutrição abundante. Super-alimentada, produz um único fruto, difícil de ser percebido porque se desenvolve internamente. Na terceira lua cheia do ano, os iniciados se reúnem em torno de fogueiras acesas na planície e dão início ao ritual de degustação. O u-á é colhido pelas virgens de Savasandir enquanto os sacerdotes repetem como mantra o nome do fruto: “ fu-á… fu-á… fu-á…”. Absolutamente intraduzível. E seu algum bárbaro ousar pronunciá-lo será fulminado pelo anjo Escoffierus.

Depois de convenientemente tratado, segundo receita mantida em segredo ao longo dos séculos o fu-á é cortado em porções da mesma espessura, que revelam seu hipnótico interior rosado. Numa cerimônia comovente, as tenras fatias são depositadas com todo o cuidado em pratos de magnífica porcelana da dinastia Koste, ladeadas por torradas ainda fumegantes e geléia de frutas colhidas na negra floresta que se estende do outro lado do rio. Viajantes que se aventuram pela região contam dos “ais” e suspiros que se propagam sobre as águas e podem ser ouvidos à distância.

Ultimamente, porém, teme-se pela continuidade do ritual na forma consagrada há milênios. Um noviço do mosteiro, que se pensava devorado pelos lobos, retornou na terceira lua cheia, trazendo garrafas de um elixir de denominação impronunciável na língua de seus antigos: chateaulatour. Provado pelas virgens e sacerdotes na Festa da Degustação, entre bocados de fu-á e crocantes torradas, provocou urros, delírios e demasias. Dizem até que pode faltar mão de obra na próxima colheita.

Mas há um perigo maior. Hordas cada vez mais numerosas de avatares, ululando maldições contra o fruto, rondam dia e noite a mágica planície de  Savasandir.

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