O Pão de Sol

por Paulo Polzonoff Jr

O Pão de Sol nasceu, obviamente, num dia de sol. Eu gostaria de dizer que não se trata de um pão especial, mas não é verdade. Apesar da extrema simplicidade dos ingredientes, o Pão de Sol é especial, sim. Até porque leva o mais divino dos aditivos: sol. Muito sol.

Adoro pão feito em casa. Daquele branquinho e fofinho, que se serve ainda quente, com muita manteiga Aviação por cima. Pão feito em casa lembra tardes de amassa e assa. E até uma ida à vizinha para emprestar o cilindro.

Receitas de pão, contudo, costumam ser desnecessariamente complicadas. Muitas levam ovos e leite. O Pão de Sol não leva nada disso. É simples como um dia de sol. E tão gostoso quanto.

A receita básica não é minha, e sim do Jamie Oliver. O que o garoto-prodígio inglês não tem, contudo, é sol. Pior para ele.

Mas então por que eu o chamo de Pão de Sol?, você pergunta. Para entender o fascínio, é preciso contar que, por uma coincidência ótima, eu estava lendo um livro da Ruth Reichl, Conforte-me com Maçãs, um dia antes. Em dado momento do livro, a autora diz que entrou numa padaria e havia tantos e tão bons pães que ela podia ouví-los crescendo. Achei aquilo extremamente exagerado. Até que.

Na manhã seguinte, receberíamos a visita de uns amigos para o almoço. O cardápio era um simples risoto de funghi. Para acompanhar, resolvi fazer o pão. Foi aí que tudo aconteceu.

Para que o pão crescesse, resolvi deixá-lo ao sol, com um pano umidecido por cima. Quando fui pegar a massa para sová-la mais uma vez, eis que se deu o milagre: eu ouvi o pão crescer. Ao sol, fiquei escutando aquelas borbulhas por alguns minutos, apaspalhado.

No almoço todos comeram o pão com alegria desmedida. Talvez eu devesse creditar o fato ao vinho. Mas prefiro pensar que foi o pão, encharcado de sol, que fez aquilo. Neste dia nasceu o Pão de Sol, para ser feito em momentos especiais e em dias de muito sol.

Ingredientes (para dois pães)

½ kg de farinha de trigo de boa qualidade
½ kg de semolina
600 ml de água morna
30g de açúcar
30g de sal
2 tabletes de fermento biológico fresco

Modo de preparo

A receita diz água morna – e não é frescura, não. Se a água estiver pouco ou muito quente, o fermento não vai gostar. Sabe como é: o bichinho é exigente. Para sentir a temperatura ideal da água eu não uso termômetro. Para ser sincero, eu uso o dedo. Quando estiver na temperatura da água do banho está bom.

Você terá de dar “comidinha” para o fermento. Isto é, açúcar. Misture-a na água morna e, então, dissolva nela os tabletes de fermento. Mais uma vez: eu uso a mão para isso.

Tem gente que prefere métodos mais – como direi? – limpos. Eu prefiro o método do Jamie Oliver de misturar tudo. Ou seja, eu jogo a farinha, a semolina e o sol na mesa e faço um buraco (ou, como minha mulher prefere dizer, uma piscininha) no meio. Jogo a água com o fermento e vou misturando aos poucos. Deve haver meios mais práticos. Eu gosto deste porque me parece traquinagem.

Depois de tudo misturado, é hora de deixar o pão crescer. Coloque-o numa vasilha com um pouco de farinha em volta. Faça uma cruz em cima. Dizem que é para a massa respirar – e eu acredito. Cubra com um pano úmido. E deixe ao sol para crescer até que a massa dobre de tamanho.

Depois que ela estiver beeeeem grande, mostre às pessoas. Convide-as a colocar o ouvido perto da massa. Peça silêncio absoluto. E se divirta com o maravilhamento das pessoas ouvindo o pão crescer.

Agora é hora de sovar a massa novamente, por alguns minutos. Molde-a do jeito que quiser, coloque na forma e deixe crescer mais uma vez, até dobrar de tamanho. Daí é só assar até ficar dourado. Se quiser uma casca bem crocante, preaqueça o forno como se ele fosse uma filial do inferno. Apesar da blasfêmia, tenho certeza de que seu pão será digno do Paraíso.

Variação

Uma dica: quando for sovar a massa pela segunda vez, acrescente ervas e uns grãos de sal grosso. O pão fica ainda mais especial. Só cuidado para não exagerar no sal grosso, porque ele reage negativamente com o fermento.

[bl]receita, pão, Conforte-me Com Maçãs, Ruth Reichl, Jamie Oliver[/bl]