O Reveillon dos Hollibolas
por Antigos(as) Autores(as)
Por Márcia Luz
O texto do nosso novo e bem-vindo colaborador me fez lembrar da minha antiga implicância com lugarzinhos pitorescos em cenários paradisíacos comandados por europeus (“questionar o francês se ele sabia o que tinha nos servido”). Quando alguém me recomenda “aquele restaurantezinho em Angra cujo dono é um suíço divertidíssimo” ou “aquela pousadinha na Praia do Forte que é de uma velhinha alemã” sempre fico desconfiada. Não é uma questão de preconceito, mas, sei lá… É que muitas vezes essas figuras me passam uma impressão de arrogância e superioridade, ou talvez seja um tico de revolta por vê-los explorando nossas belezas naturais e ganhando um monte com isso. Ou talvez porque eles costumam ser esquisitos.
O fato é que lembrei de uma história que ilustra bem essa sensação, ocorrida com um casal de amigos (nomes fictícios, história verídica). Lá vai:
Daniela e Álvaro planejaram passar o reveillon em Florianópolis, cidade que há tempos não visitavam. Como a Dani é a responsável pela logística das viagens da família, ela passou semanas na Internet até achar o local ideal para se hospedarem, perto de uma praia tranqüila, longe da confusão da Lagoa da Conceição. Era uma pousada aconchegante e agradável, em frente à calma praia do Campeche, cujos donos são… holandeses.
Eles acertaram uma estadia de quatro dias. Ao chegar, os três – Dani, Álvaro e a filha Luiza, de sete anos – ficaram maravilhados. A pousada era uma delícia, o quarto confortável, os proprietários eram simpáticos. Eram dois holandeses, homens relativamente jovens, que mal falavam o português.
Muito felizes, deixaram as malas no quarto e foram para a praia. Foi aí que a coisa começou a desandar. Luiza não parecia bem, e logo se revelou a causa do mal-estar: febre de 40 graus e garganta inflamada. A criança fervia. Dani ligou para o pediatra e recebeu as instruções. Antibiótico, repouso, comida leve e nada de praia. Comida leve em Floripa, a capital das ostras? E sem praia? Resignados, os pais zelosos decidiram pedir autorização aos holandeses para fazer a comida da criança na cozinha da pousada. Autorização recebida, lá se foi Álvaro comprar bifinhos, frango e legumes.
Enquanto os dias passavam na rotina de criança convalescente, a pousada foi enchendo de gente… todos holandeses, parentes e amigos dos donos. Que, gentilmente, convidaram o casal de brasileiros para festejar o dia 31 na pousada, combinando que cada um colaborava com um prato. Ok, pensaram Dani e Álvaro, com a Luiza desse jeito não dá pra pensar em sair mesmo. Álvaro acertou que faria uma lentilha, sua especialidade culinária, para colaborar com a festa.
Tudo ia razoavelmente bem e, no dia 31, Luiza finalmente melhorou. Após preparar a lentilha para o jantar, Álvaro constatou que havia sobrado um bom pedaço de carne comprada para a dieta da criança, e decidiu prepará-lo na chapa e servir aos outros hóspedes na piscina. Foi aí que o verdadeiro desastre começou. Enquanto nosso amigo cozinhava, um dos donos da pousada entrou na cozinha e disparou:
- Querr dizerr que focê está se aprroveitando da nossa cozinha para cozinhar parra si mesmo? Ou a crriança tem tanto apetite assim?
Mudo diante da grosseria do Holandês – que virou as costas e saiu -, Álvaro terminou o que estava fazendo, levou a carne para os hóspedes na piscina, catou a Dani pelo braço e saiu.
- O que foi, Álvaro?
- Precisamos sair deste lugar, vamos passear na cidade, em outra praia, sei lá. Pega a Luiza e eu espero vocês no carro.
Álvaro espumava. Ao saber de tudo, Dani começou a cogitar a possibilidade de irem embora daquele lugar imediatamente. Mas fazer o que, ir pra onde no dia 31 de dezembro em Florianópolis? Decidiram ficar e enfrentar a situação. Jantariam no quarto, iriam dormir e no dia seguinte rumariam para longe daquele lugar esquisito. O mais difícil seria conter Luiza, empolgadíssima com a festa do reveillon.
Quando chegaram, o dono da pousada os esperava na garagem. Assim que Álvaro desceu do carro, ele principiou a se desculpar. Dani, conhecendo a personalidade do marido, puxou Luiza e se mandou para o quarto. Não deu outra: Álvaro explodiu com o holandês, que ouviu o pito estoicamente, balbuciando pedidos ininteligíveis de desculpas.
Reveillon devidamente arruinado. Álvaro emburrado no quarto, Luiza querendo festa, Dani sem saber o que fazer. Decidiu enfrentar a situação. Desceu para a piscina com a criança. Iria fazer um social básico, levar um prato de lentilha no quarto para o marido… e beber o máximo possível.
Na piscina, deparou-se com a seguinte cena: vinte holandeses, cada um com uma latinha de cerveja na mão, em torno de uma mesa cheia de bolas esquisitas. Eram os famosos “hollibolas” (não sei se é a grafia correta), prato típico de reveillon holandês. Trata-se de uma espécie de sonho, massa recheada com frutas e frita. Estavam frios e moles. Imagine: comer doce frito, frio, com cerveja, na noite de reveillon. Onde estava o tender? O peru, sei lá?
Dani entrou em pânico. Ninguém havia tocado na lentilha com medo do Álvaro. Que, para alívio da nossa amiga, decidiu sair do exílio e veio se reunir a todos. Ele esquentou a lentilha e serviu. Nunca tantos holandeses comeram tanta lentilha. A meia-noite se aproximou, e com ela veio a chuva. Luiza queria pular ondinhas no mar, mas não dava para arriscar uma recaída. Dani improvisou um mar de ondinhas no banheiro do quarto. Álvaro e Luiza dormiram.
Dani tomou uma garrafa de champagne sozinha.
Até hoje eles não podem ouvir falar em holandês, hollibola ou reveillon em Floripa.
Eu os respeito.
Comments
Sou paulista mas moro em Florianópolis há 16 anos .Adorei
a matéria, realmente aqui é um lugar paradisíaco, mas muito estranho em estranho quando se fala de pessoas, uma ilusão.
Abraços