O velho e bom Bar Palácio

por Antigos(as) Autores(as)

Por Simone Mattos

Quase oito décadas após a sua inauguração, o Bar Palácio ainda mantém seu astral boêmio, decoração rústica e pratos tradicionais, como o churrasco paranaense e o mignon grisé, sem falar na sobremesa mineiro com botas que reúne bananas, goiabada e queijo, flambados ao rum pelo garçom, num espetáculo à parte.

O que mudou no Bar Palácio foi o horário de funcionamento, antes característico por varar a madrugada. No início, o bar ia diariamente até às 7h30 da manhã, nos anos 80 mudou o fechamento para às 4h30 e hoje, durante a semana, as portas se fecham à 1h30. Há muita violência nas ruas e os clientes não gostam mais de ficar até muito tarde , conta o proprietário José Fráguas Lopes (seu Pepe). Sinal dos tempos.

É estranho tocar a campainha do Bar Palácio às oito da manhã, num dia de semana, para entrevistar o seu Pepe. A rua ainda meio dormindo, comércio fechado. Expediente ele só dá cedinho, para fechar a noite passada.

Bom dia. E já começam as histórias. Entre recortes antigos e fotos amareladas, atrás de sua escrivaninha no escritório que mantém em cima do restaurante, ele lembra das agitadas noites curitibanas da década de 40, quando o Bar Palácio ainda era um jovem estabelecimento. Para manter a ordem na casa durante as madrugadas, depois que as boates fechavam, os proprietários criaram uma regra de que mulheres sozinhas não podiam entrar no Palácio. Funcionou. Elas vinham acompanhadas de seus clientes, o que evitava disputas e brigas entre os freqüentadores do bar, e ainda os incentivavam a consumir. Um ótimo negócio.

O que ninguém jamais imaginou era que a inusitada lei, 40 anos depois, se transformasse numa das melhores estratégias de marketing já registradas em Curitiba. Se eu tivesse pago R$ 1 milhão para uma agência de publicidade, jamais conseguiria um resultado tão bom, afirma Pepe, desde 1950 no Bar Palácio.

Ele explica: em 1984, quatro feministas indignadas com a fama que corria o país de que mulheres não eram atendidas ali caso não estivessem acompanhadas por um homem, resolveram desafiar o bar. Foram até lá numa madrugada, chamaram a imprensa e foram à polícia para denunciar o ato discriminatório. O inquérito policial contra o Palácio foi instaurado, o fato virou pauta nacional, com matérias de destaque nos jornais e TVs de todo o Brasil, mas o ganho de causa foi dado ao bar.

Desde os anos 30, jamais uma mulher desacompanhada foi barrada. Aquela regra valia apenas para as prostitutas, que traziam confusão ao bar , conta Pepe. Mas graças à divulgação maciça que as feministas fizeram, a história se espalhou rapidamente e o Palácio virou objeto de interesse e curiosidade das mulheres. Depois de reportagens que saíram no Fantástico, no Jornal Nacional, passamos a ter uma procura enorme por parte do público feminino , explica ele.

O assédio da imprensa local e nacional era tão grande nesta época que, certa vez, quando chegou ao Palácio para trabalhar, ele encontrou uma aglomeração de jornalistas na porta do bar. Antes de ser reconhecido, perguntou em bom tom: O Pepe ainda não chegou? Ele está atrasado ao nosso encontro, talvez nem venha mais… . A estratégia funcionou, dispersando a imprensa.

Restaurante e Café Palácio
Rua André de Barros, 500, Centro,
Curitiba-PR, fone 41-3222-3626.