O violão corso
por Evandro Barreto
Para Lina, que tem um pied-a-terre na Córsega de fazer inveja à família Bonaparte
Amo o verão e amo Paris – mas nunca juntos. Se o americano T.S. Eliot tivesse escolhido viver na França, e não na Inglaterra, jamais escreveria que abril é o mais cruel dos meses – teria escolhido agosto.
Uma vez fui à Europa em agosto por motivo de trabalho. Encerrada a missão em Munique, aluguei um carro para ir passeando até Paris e lá pegar o avião de volta ao Brasil. Enquanto atravessava a Floresta Negra, parando aqui e ali para uma wurst ou uma torta, tudo bem. Mas quando saí da sombra e atravessei o Reno, bateu um calor insuportável. Em Strasbourg escolhi o hotel pela potência do ar condicionado. E mal deu para caminhar pelas ruas de uma cidade adorável, nas outras estações do ano. Comi todo o foie gras a que tinha direito, mas meu condicionamento tropical impôs distância do vinho, por mais que eu tentasse racionalizar a neura. Fui de cerveja. Na manhã seguinte, entreguei o carro na Hertz e embarquei no primeiro vôo doméstico.
Paris não estava tão quente, apesar da sensação difusa de desconforto. No hotel, fui informado que na véspera estava muito pior, mas um aguaceiro durante a noite melhorou as coisas. Como de hábito, a cidade estava de férias. No boulervard Saint Germain, tudo fechado, menos o Vagenende, reaberto dias antes, para sorte minha, que curto o ambiente, a comida e o atendimento de lá.
Entrei… e parecia que tinha chegado a Ipanema. Como as francesas ficam mais familiares aos olhos, quando bronzeadas dos dedinhos dos pés à altiva fronte! Acho que é uma compensação da justiça divina a quem veio de longe para bater com o nariz em portas cerradas.
No dia seguinte, o barato foi passear a pé pelas ruas vazias, beber pastis na varanda do Fouquet, andar simplesmente, sem ansiedade consumista, desviando o rumo para percorrer jardins tranqüilos, onde crianças comandam barquinhos no lago por controle remoto. Mas à noite, o que fazer? Acabei esbarrando num daqueles pequenos “cinemas de arte”, que exibem o ano inteiro filmes que não vimos porque saíram de cartaz antes de nascermos. Naquela sala específica, o filme não era tão antigo, mas merecia ser revisto em cada oportunidade: “Cidadão Kane”. Meia dúzia de espectadores – um devia ser o Goddard. Pulo o discurso crítico e corto para cena de rua, após a sessão, onde me vejo de novo sem script, mas agora com fome.
Fui parar na Ilha de Saint Louis, em busca de um hotel recomendado pela excelente mesa de hors d’oueuvres do seu restaurante, boa pedida em noite quente. Esse não estava de férias – estava em reforma. Já não sabia o que fazer, quando o som de um violão veio flutuando de uma discreta rua transversal. Não era um violão qualquer; tinha acordes que lembravam guitarra cigana e algo mais, entre o grego e o árabe, Domenico Modugno e sei lá o quê. Guiado pela música, cheguei a uma portinha com o letreiro esclarecedor em cima: “Especialidades da Córsega”. Então era isso!
Da mesa, guardo pouca memória. Pão caseiro, bons salames e queijos, salada correta e bem temperada, vinho jovem decente. Mas o violão corso até hoje me soa vez por outra na alma.
Comments
Dodo: as “meLinas” estao ficando muito mal acostumadas com os seus textos cheios de poesia!!
Mais um texto gostoso de ler….e como literatura nao tem compromisso com o real, ate eu ja estou ouvindo um “violao corso”, “guitarra cigana e algo mais, entre o grego e o arabe”!!! Esse Dodo sabe agradar as meLinas…..sou um dedicado estudante deste imenso professor (rs).
Abracos, Eymard.
Dodô,
delícia de texto…viajei junto neste roteiro e nesta homenagem a nossa querida Lina.
Tem um restaurante de comida da Córsega delicioso no Quartier Latin: Le Cosi – 9, rue Cujas. Ele está entre os meu preferidos em Paris, e sempre o recomendo aos amigos.
Abraços e parabéns pelo blog.
Dodô,
Senti calor em Strassbourg( não sem antes me deliciar com o frescor verdejante da Schwarzwald),andei por uma Paris vazia de parisienses, jantei noVagenende, assisti Cidadão Kane e vaguei pela Île S. Louis até o restaurante corso em sua companhia, lendo essa delicia de texto .
Escreve um livro, vai!
Lina merece a homenagem .
E nós as (me)linas aplaudimos.
Eymard,
Sua tirada foi genial.
Eymard,
O presidente do grupo das meLinas é você! No mais, agradeço, de novo e sempre com prazer e motivação, o seu incentivo.
Abração
Dodô
Adriana Pessoa,
Fico muito feliz com sua participação nos Comensais, como “companheira de viagem”. A sua dica do Cosi fica registrada para uso na primeira oportunidade. Embora já tenha me hospedado uma vez na rue Cujas,não conhecia o lugar. Talvez não existisse na época.
Obrigado e um abraço.
Dodô
Helena, meLina constante, indispensável e insubstituível nessas jornadas virtuais, peço o seu apoio para nomearmos o Eymard nosso assessor para assuntos mitológicos. Não bastassem as náiades e nereidas,ninfas e sílfides, ele ainda dâ uma de gênio do pecado e inventa as meLinas para tirar homem do sério.
Beijo,
Dodô
Teria a sua(dele) inspiração vindo da música de Chico ?
Eymard é assessor para todos os assuntos. E tem sido seu fiel seguidor , está se especializando na arte de seduzir.
Deixa a Lourdes saber … !
Dodô,
Parabéns, delícia de texto, adoro Paris em agosto, mesmo com os lugares fechados, como diz a Lina, “flanei” durante a leitura.
Abraços,
Ana Lucia
Dodô,
Crônica de beleza incomparável. Pura poesia, eu “vi” o seu passeio. Isso é escrever bem; o resto é “armazem de secos e molhados”, como diz o Millôr, que o aplica em outro contexto; mas me arvoro em aplicar à sua crônica. A Lina merece. Você merece os mais lindos e dourados louros da vitória!
Um grande abraço,
Linda homenagem, Dodo. A quem mais se reportar senão à Lina, quando se fala da Córcega? E esses violões, nossa…
Dodo, acho que a sua Paris de agosto não é a mesma q
Ops, toquei na tecla errada. Pensei até que ia tudo para o buraco negro, mas entrou.
Continuando: …a sua Paris de agosto não é a mesma que tenho costumado frequentar, pois NUNCA senti calor nessa época, pelo contrário, já passei muito frio e enfrentei chuva. Sempre vou no finalzinho de agosto, mas o tempo está mesmo mudado.
Eymard é um poço de idéias e observação, nada lhe passa despercebido. Só que eu acho que estamos mais para veLinas.
Já estou com escudo na frente, que venha a artilharia!
Abraço
Dodô
Avec mes remerciements.
A Córsega é o meu segredo, revelado com elegância.
Dodo,
assim como a homenageada,
leitura adorável e sempre elegante.
Dodô, não fosse mês de agosto, com metade dos restaurantes de Paris fechados, talvez você não tivesse sido atraído pela música corsa, e nós não teríamos tido o prazer de ler tão agradável post. Então, vive le mois d’août ! rrs.
A música corsa que só conheci recentemente num documentário, é realmente daquelas lamúrias que nos contagiam e descortinam a alma do seu povo.
Bela homenagem para a Lina e para o Alby também.
Abraços,
Cláudia
ANA LÚCIA,
Obrigado pelas palavras gentís. Ame Paris, sempre. Com o meu apoio e o endosso do Fernando Pessoa: tudo vale a pena, se a alma não é pequena.
Abraço,
Dodô
SONIA S,
Quer me fazer chorar lágrimas de esguicho???
Comentários como o seus são o sonho de quem quer que se atreva a escrever! E a Lina merece tudo de bom.
Grande abraço, meLina do Rio.
Dodô
SUELI OVB,
VocÊ está em excelente companhia. Cole Porter também amava Paris o ano inteiro.
Abraço,
Dodô
LINA,
Revelar um único segredo de mulher é apontar para o céu e nomear uma só estrela.
Abraços,
Dodô
LUCIA,
Adorável e elegante são adjetivos sob medida para você.
Abraços,
Dodô
CLÁUDIA,
Deus escreve certo por linhas corsas.
Abraço,
Dodô
Passando bem rapidinho, pois só trabalho…
Não pude resistir, após ver o mar translúcido na foto do CP, segui o link correndo para o Comensais.
Dodô, seu texto está ainda melhor que o mar. Que homenagem linda para a Lina. Acho que ouvi os acordes do violão…
Eu também já sofri em agosto/setembro em Paris ! Sim, é possível sofrer em Paris com o calor, ficar triste com a “nossa” padaria fechada, o “nosso” restaurante fechado. Até o sorvete do Berthillon fecha ! Corria atrás de sombras e cheguei a derramar um copo de água na minha cabeça… Calor basta o Rio. Eu também não tive escolha, mas podendo escolher nada de agosto.
Engrosso mais uma vez o coro do livro by DoDô.
beijos,
Madá
MADÁ,
Pois é, a França fecha sorveterias no verão… e o Brasil é que não é um país sério!
Pelo que eu soube, você está agora no limiar no verão setentrional, mas em outro país, onde não se come tão bem em qualquer das estações do ano. Quem sabe você não encontra um violão corso por aí?
Bjs,
Dodô
Dodô:
Como não tenho a experiencia com a Europa, vou escrever o que aconteceu por aqui quando casamos.
Chegamos as 18 horas em Miami em lua de mel no dia 15 de Junho de 1970 após uma viagem diurna na saudosa PanAm proveniente de Viracopos.
Resolvi alugar um coversivel e assim nos deram uma ’70 Plymouth onde o tamanho da mesma era de um quebra gelo Russo. Ficamos perdidos nas ruas e “freeways” pior que o Robinson Crusoe e ali pelas 23 horas conseguimos chegar ao hotel situado em Miami Beach.
Não existia um restaurante ou um mísero café aberto e assim, ficamos em jejum até o dia seguinte.
Bem, estamos nos EU desde aquela data!
Abs,
Carlos M.
Carlos Maria
Simplesmemente genial!
Acho que passar fome dentro de um carro do tamanho de um trasatlântico deve ter sido a chave do sucesso do seu longo e feliz casamento com a Millie. Parabéns por mais um Aniversário de Casamento recém-comemorado!
Abs.
Carlos M,
A PanAm acabou, conversíveis como aqueles já não se fabricam mais… e vocês continuam cultivando um amor inabalável por quarenta anos. Certos estão os místicos que dizem que o jejum faz bem ao corpo e à alma. Parabéns e votos de pelo menos outros quarenta anos de igual felicidade.
Grande abraço,
Dodô
Dodô,
Encontrei meu violão corso!!! Foi graças ao presidente dos pitaqueiros do CP, o grande Eymard !!!
Tive uma experiência única no restaurante Quince, claro que agora estou em São Francisco, o que melhora as opções gastronômicas nos EUA. O Quince se mostrou digno dos grandes restaurantes de Paris e com uma amabilidade de dezenas de pessoas nos servindo. O ambiente é de muito bom gosto, com uma carta de vinhos de alto nivel. Fizemos um jantar de 6 courses escolhidos a la carte com harmonização de vinhos da região até a sobremesa. Descobri um novo conceito para os Chardonnays, que acompanhou a massa, servida entre a entrada e o prato principal. Enfim, fomos muito paparicados como todos os demais clientes.
Madá, fiquei feliz, muito feliz com o seu relato. Que bom que voces conseguiram e gostaram…lugar pequeno, perfeito!!! Posso imaginar essa harmonizaçao e, so de imaginar, hummm!! Bom demais.
Indiquei porque achei que voce gostaria. Mas nunca se sabe!!! Uma pessoa como voce que conhece muitos e bons lugares, é sempre um risco indicar restaurante!!! Abraco, Eymard.
MADÁ,
Que grande alegria você me dá com esta notícia. Todos nós, se dermos chance à vida, acabamos esbarrando em nossos violões corsos, na Île Saint Louis, na Telegraph Hill ou na primeira esquina à nossa frente. Você me faz gostar ainda mais de San Francisco e dos vinhos da California.
Entre os tintos, curto principalmente o carbernet sauvignon do Robert Mondavi. E não consigo me lembrar da marca de um Chardonnnay que experimentei em Sausalito, há muitos anos.
Aproveite cada minuto e volte a contar.
Abração,
Dodô
EYMARD,
É assim que você vai pavimentando seu caminho pro céu.
A Madá estava driblando big macs e burger kings, quando o facho de luz que você enviou em socorro dela apontou para um restaurante como o que ela descreve numa cidade que, depois de Tony Bennett, ninguém mais precisa descrever.
Tá lá na Bíblia, abençado seja quem dá de comer a quem tem fome.
Abraço,
Dodô
Parabens lá. Parabens cá!!!! Dodo, comemore a alegria de viver e continue compartilhando um pouco conosco dessa satisfaçao!!!! Eymard e Lourdes.
Dodô,
Você é tão querido; que merece que votos de felicidades sejam ditos em todos os blogs, em todos os jornais, em todas as TVs. Me deem um megafone, preciso dizer alto e bom som: seja feliz, Dodô, junto à sua Beth!
Um beijo,
LOURDES E EYMARD,
Obrigado lá, obrigado cá!Prometo que no jantar de hoje farei um brinde especial a vocês!
Abração,
Dodô
SONIA S,
Mesmo que isso significasse envelhecer mais depressa, eu gostaria de completar aniversário todos os dias, só para me derreter com tão encantadoras mensagens suas. Obrigadíssimo.
Beijos,
Dodô
AH ! Então você está recebendo os parabéns aqui , é?
Espero que o jantar esteja à altura da data.
Qual é o cardápio ?
Foi a Beth quem preparou ???
Mais um cheiro baiano pela sua data querida !
Helena
Também quero saber do cardápio da grande celebração !!!
Vou brindar daqui também, with flowers in my head.
Dodô já que vc “insistiu” aqui segue a lista dos vinhos que experimentei no Quince.
Eymard, eles se mudaram e agora o restaurante não é tão pequeno assim, a adega aparente ocupa um espaço bem grande, o bar é bacana e a sala em si tem uma arquitetura linda.
. Champagne Brut Rose?, 1er Cru, Marc He?brart, Mareuil-sur-Ay, France
. Chardonnay “Estate,” Melville, Santa Rita Hills, California 2007
. “P.O.V.” Napa Valley Red, Robert Sinskey Vineyards, Carneros, California 2006
. Quarts de Chaume, Cha?teau de Suronde, Loire Valley, France 2005
HELENA,
Obridado, com atraso justificado pela comemoração. Considero-me “cheirado” e retribuo com um beijão.
Quanto ao jantar de ontem, vou descrever em detalhes, se possível ainda hoje. aguarde-me, pois!
MADÁ,
Cá, como lá, merci again.
Do Quincy ao Quince, a vida é bela!
Bjs,
Dodô
Helena e Madá: nunca li nada sobre a Beth na cozinha!!! Ela é boa de garfo, faca e colher. Mas tenho minhas duvidas sobre os dotes culinarios. Me parece que no fogao so mesmo o Dodo!!! Agora, em compensaçao, como eu, ela tem uma cadernetinha de endereços e bons fornecedores!!! Ah, isso ela tem (risos).
Madá: entao preciso ir ate la urgentemente. Bela lista de vinhos também.
Eymard
Vc pelo jeito resolver pegar no meu pé, risos.
Realmente, a cozinha não é bem o meu forte, mas até que sei fazer uma coisinhas gostosas. A minha grande especiallidade na cozinha são os …livros de culinária! Tenho uma bela bibliografia a respeito. Na dúvida, corro lá e copio! Mas também, vc quer o que? Meu Dodô tem até diploma de curso de culinária…
Risos e abs.
Beth,
de maneira nenhuma!! Jamais faria isso com a nossa lady la Blonde!! (rs). Considere que foi um elogio. Nao acho obrigatorio saber cozinhar. Acho obrigatorio saber comer bem, escolher lugares e bom parceiros(as) de garfo, faca e caminhadas na vida!