Comensais

Curiosidade insaciável

O Natal de Noel

by Evandro Barreto

Noel estava muito cansado. Depois da queda da cortina de ferro e do ingresso da China nas delícias do consumo, o trabalho tinha aumentado demais. Agora ele tinha que começar as entregas pelo leste e dar a volta ao mundo inteiro para atender às encomendas das crianças de todas as cores, latitudes e longitudes.

Por uma questão de método poético, havia escolhido Natal, no nordeste brasileiro, para deixar o último pacote. Não encontrou meia ou sapato debaixo da cama da criança para colocar o presente. Aliás, não havia nem cama. O jeito foi deixar a barbie fake sobre o par de havaianas junto à rede.

O sol nascia no Atlântico quando ele tomou o rumo de casa. Colocou as renas no piloto automático e ajeitou-se no trenó para um cochilo. Quando acordou, o dia já ia adiantado e estava sobrevoando Gibraltar. Espreguiçou-se, decidiu que o Pólo Norte ainda estava muito longe e resolveu presentear a si mesmo com um pit stop em Paris. Afinal não é todo dia que se pode encontrar Cézanne, Matisse e Picasso juntos, ilustrando a história do início do Século XX  –  graças à sensibilidade e ao dinheiro da família Stein, ganho com os bondes de San Francisco e muito bem aplicado na  fabulosa coleção exposta no Grand Palais. Tinha que ser agora, a mostra encerra-se em 16 de janeiro.

Noel mandou mensagem pelo Smart-Phone para Madame: “Pegue já o trenó de reserva, pouse nos Jardins de Tulleries e me encontre na fila do Grand Palais”.

Quando ele chegou lá, Madame Noel já o esperava com os ingressos. Tinha furado a fila na base do “Você sabe com quem está falando?”.

Deslumbramento total. Obras dispersas pelo mundo inteiro voltavam a reunir-se na cidade onde haviam se agrupado pela primeira vez. O cansaço que ainda restava dissipou-se no instante em que o casal Noel parou diante do menino nu com cavalo, provavelmente a melhor peça da fase rosa de Picasso. Mais adiante, outro Picasso do mesmo período: o retrato de Gertrude Stein, onde a força da personagem parece ter queimado os tons do fundo. Uma seqüência de Matisses e logo o impacto: as cinco maçãs de Cézanne. Substância pura, imune a adjetivos, levou Noel a entender, enfim: sem Cézanne, jamais Gertrude teria descoberto que uma rosa é uma rosa, é uma rosa.

Saíram da exposição com os olhos embotados de encanto e lágrimas. Foi preciso caminhar em torno do Grand Palais para restaurar um mínimo de normalidade tranqüilizadora, se é que se consegue ser normal em Paris. Chegaram à entrada do Mini-Palais. E se precisavam se alimentar, que fosse ali, onde as grandes janelas que se abriam para o Sena e a Ponte Alexandre III não os deixariam esquecer de que a  busca da beleza é um dever permanente do olhar.

Foram frugais, em defesa da magia do momento, Nada de álcool, uma garrafa de água Vittel. Para madame, apenas uma entrada: galantine de volaille truffé et foie gras de canard. Para ele, somente um prato: ris de veau em croûte. Uma sobremesa e um café depois, caminharam abraçados e lentamente em direção às renas, já com as saudades do presente ditando o ritmo dos passos.

A todos os amigos que se reúnem à mesa dos Comensais, La Blonde e eu desejamos um natal tão pleno quanto este.

Beth e Dodô

O mais antigo

by Pedro Arraes

Em viagem a Madrid em setembro de 2010 resolvi visitar o restaurante mais antigo do mundo em atividade, segundo o Guinness World Book of Records. O Restaurante Botín foi fundado em 1725 pelo cozinheiro francês Jean Botín e sua esposa. Originalmente o restaurante foi chamado de Casa Botín pois era considerado uma “Casa de Pasto”, já que o termo “Restaurante” na época era aplicado a apenas alguns estabelecimentos, muito raros e exclusivos, que pretendiam imitar os locais parisienses.

O termo “Casa de Pasto” foi uma denominação muito comum até o final do século XIX, inclusive em Portugal e no Brasil, e se referia aos estabelecimentos que serviam almoços e jantares. O termo pasto é derivado do latim pastus, que se referia a qualquer tipo de alimento. A Casa de Pasto era uma mistura entre uma taberna e um restaurante de petiscos. Serviam também refeições ligeiras ao longo do dia, acompanhadas de vinho ou cerveja.

Após a morte de Jean Botín, o restaurante foi herdado por seu sobrinho chamado Candido Remis que imediatamente alterou o nome do estabelecimento para Sobrino de Botín, que é o nome que se mantem até os dias de hoje, inclusive na fachada, apesar de ser reconhecido mundialmente como Restaurante Botín. No início do século XX o estabelecimento foi adquirido pelos atuais proprietários, a família Gonzáles. Desde sua fundação várias curiosidades e mitos percorrem o ambiente, como relatos de que por volta de 1765, um adolescente chamado Goya trabalhou lavando pratos no Botín…

A especialidade do Botín é a cozinha castelhana e, mais concretamente, os assados de cordeiro e leitão. Três a quatro vezes por semana, chegam ao restaurante carregamentos de leitões procedentes da cidade murada de Segóvia e cordeiros originários do triângulo mágico desta carne: Sepúlveda-Aranda-Riaza. Pouco a pouco, lentamente, cordeiros e leitões vão ganhando uma cor dourada ao calor do velho forno alimentado a lenha de azinho.

O prato mais famoso do Botín é com certeza o cochinillo assado, nada mais do que um leitãozinho de apenas 21 dias, abatido para degustação dos clientes. A carne é tenra mas a pele bem gordurosa. Apesar de eu ter ido no jantar não achei o prato tão pesado, até porque nesse prato são servidos apenas duas postas do leitão com batatas cozidas. Uma ou duas taças de vinho, uma bela caminhada pelas ruas madrileñas e pronto! Digestão garantida!


Não achei o atendimento lá essas coisas… O garçom estava meio ranzinza e só melhorou o humor quando perguntei se lá de fato era o restaurante mais antigo do mundo. Ele trouxe, todo orgulhoso, o Livro dos Recordes já com a página marcada com o registro. Dei os parabéns e com isso ele mudou tanto o humor que me convidou para visitar o forno a lenha e apreciar todos os leitõezinhos expostos, todos limpos e temperados, prontos para enfrentarem o calor infernal. Vale a pena a visita.

Rating:

Restaurante Botín
Calle de los Cuchilleros, 17
Madrid, España
+34 91 366-3026
www.botin.es

O centauro de botas

by Evandro Barreto

Saimos do Boulevard Saint Germain pela Rue de Saint-Pères e, à medida  que nos aproximamos da Rue de Sèvres, a sensação  que tenho é de que me afasto de uma Paris que não há mais para a Paris-dos-parisienses-de-hoje-em-dia. Gente que faz compras em mercearias do bairro, executivos apressados de smartphone em punho, bandos de estudantes que falam ao mesmo tempo (jamais entre eles, cada qual em seu celular), idosos com cachorros quase da mesma idade, mulheres de várias gerações em seus casacos de outono de corte impecável, echarpes que dão voltas incríveis, calças compridas imunes a salto-agulha – sem fazer disso uma performance.

Chegamos ao fim do trajeto e temos a sorte de encontrar mesa vaga na varanda do “Au Sauvignon”, o bar a vin recomendado pela sabedoria requintada da amiga Lucia e que Betty la Blonde vinha querendo conhecer há um bom tempo.

O que o Sauvignon tem de mais? Felizmente, nada que os guias de turismo destaquem. Não se apresenta como um templo da haute cuisine, não foi incorporado pelos irmãos Costes, de lá não se vê a torre ou o arco. O que o Sauvignon tem é esse valor atemporal chamado caráter. Dirigido pela mesma família da região de Auvergne desde 1954, vem fazendo amigos de lá para cá. Nas paredes internas, a decoração quase se resume a fotos e caricaturas dos donos com clientes felizes, entre eles artistas, intelectuais e personalidades para todo gosto, inclusive o ex-presidente Jacques Chirac. Além da cave criteriosa, o que torna a casa um “bar a vin” (em vez de bistrot, brasserie ou restaurant) é ausência de panelas na cozinha. O que mais lembra comida quente são torradas de pão poilâne – tronos crocantes onde se assentam tentações que já chegam prontas para receber o toque final.

Escolher o que pedir é um deliciosa angústia. Assiette ou terrine? Presunto d’Auvergne ou pescoço de ganso recheado?

Lembramo-nos que estávamos no meio da tarde e com várias coisas a fazer. O bom-senso indicava sair da mesa sem peso nas pernas nem na consciência. Pedimos, então, algo de que ninguém se arrepende: foie gras com geléia de figos para La Blonde, salmão defumado para mim. Da lista de vinhos pinçamos o frescor de um Sancerre. A começar pelo dourado ponto das torradas, tudo perfeito. Compreendido o camembert au calvados que substituiu a sobremesa.

Depois do café, o prazer de observar sem nenhuma urgência a vida que  passa na calçada. Mães que retornam com os filhos corados da escola, o cidadão que carrega uma moldura às costas, permitindo-nos fantasiar o quadro a que se destina, o casal que parece fugido de um texto de Roland Barthes: ela, oriental de meia-idade, ele com todo jeito de anarquista espanhol aposentado.

A juventude chega de scooter e se senta ao nosso lado. Retirados os capacetes, revelam-se duas moças bonitas, de uma elegância sem alarde, provavelmente  transmitida em família há algumas gerações. E isso nos lembra que a Rue de Sèvres é um santuário de griffes. A mais recente no pedaço é a Hermès, instalada no espaço onde era a piscina do Hotel Lutetia. É para lá que vamos em seguida, à procura de um objeto de desejo. La Blonde me ensina que “carré” é uma espécie de Rolls-Royce dos lenços de mulher, assinado pelo artista e cada exemplar tem seu próprio nome. Acho prudente não dizer nada. Apenas me preparo para aplaudir o efeito, decisão que logo viria se provar justificada.

Já escurecia quando passamos pela Place de la Croix Rouge e me chama a atenção uma estátua eqüestre. Um bravo guerreiro, logo na praça da Cruz Vermelha? Chegando mais perto, vejo tratar-se de um centauro de aço. Mas não um centauro qualquer: este calça botas e exibe uma lança apontada para trás, que começa num ponto suspeito da anatomia híbrida. Talvez uma hermética homenagem pacifista a Brancaleone e seu corcel Aquilante. Esta cidade é cheia de sutilezas.

Sherlock Holmes comia lá

by Evandro Barreto

Se alguém propusesse a você sair da França só para almoçar na Inglaterra e voltar no mesmo dia, o que você diria? Pois eu digo que é uma proposta decorosa.   Desde que seja para comer no “Simpson’s – in-the-Strand”.

Integrado ao Hotel Savoy, de Londres, o Simpson’s  existe desde 1828 e serve o roastbeef mais famoso do mundo, maturado por 28 dias e levado à sua mesa em carrinhos cobertos por grandes tampas de pratas com mossas centenárias. O veículo é pilotado por um especialista no assunto, que parece trabalhar na casa desde a fundação. O nome dele é Giuseppe, a postura é de lord e a perícia de Pitanguy. Em movimentos precisos, ele corta do grande assado de “scottish beef” fatias exatamente da espessura e no ponto que você pedir. O perfume cheio de sutilezas desprende-se da monumental peça de carne, antecipando um sabor que se revelará em camadas. Ancorando o paladar, maravilhosos yorkshire puddings mergulhados no molho, raiz forte, batatas discretas e perfeitas. Para coroar a experiência, cintilações de rubi nos copos de Chateau Martour, um bordeaux  daqueles que os ingleses sabem escolher como ninguém.

No começo, o Simpson’s era clube de xadrez, onde bebia-se café turco e fumava-se sem culpa. Até hoje, a área de restaurante chama-se “Grand Divan”  e convive com o britaníssimo  Knights Bar. Ao longo da história, passaram por ali, além da família real, personagens como Charles Dickens,George Bernard Shaw e Vincent Van Gogh (este, provavelmente convidado). Segundo registros insuspeitos de Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes era cliente assíduo.

Certas normas de conduta seguem inflexíveis. Ao reservarmos mesa, ainda no Brasil, fomos informados por um solene Mr. Neil Milanga de que o atraso máximo permitido seria de quinze minutos e não se admitiam no recinto trajes e periféricos como jeans,  bermudas, shorts, trainings, camisetas, tênis e  sandálias – inclusive  havaianas. Como concessão aos tempos modernos, dispensava-se gravata no almoço.

Depois da sobremesa, do café e do cálice de Chartreuse (La Blonde prefere o verde), ainda sobrava  tempo na cidade, antes de tomarmos  na estação de Saint Pancras o trem que nos conduziria de volta a Paris em duas horas e poucos minutos, pelo Eurotunnel.

La Blonde e eu decidimos levar o filho Victor, que não conhecia Londres, para um giro pelos lugares de que mais gostamos – da beira do Tâmisa aos jardins da outra Beth, da Sloan Street a Trafalgar Square. Claro que confortavelmente aboletados nessa admirável instituição – o táxi inglês. Ainda importarei um para passear na orla carioca.

É óbvio que o Harrod’s não poderia fica de fora. Na varanda (ensolarada! em Londontown!), saboreamos, em pequenos goles, taças de chocolate do “Ladurée”.

God save the Queen!

www.simpsonsinthestrand.co.uk/

 

Comida como a mamãe do Nietzsche fazia

by Evandro Barreto

Depois do grand jeté em cabeça de alfinete que foi o jantar no Margaux-Berlin (assunto do post anterior), senti saudade da falta de sutileza da cozinha alemã de segunda-mão do Rio de Janeiro, companhia indispensável do chopp gelado depois da praia. A inimitável salada de batatas do Bar Luiz, o salsichão do Zeppelin, o kassler com lentilhas do Lucas.

Betty, la Blonde, conhecedora profunda das germanidades, decidiu onde iríamos almoçar no dia seguinte: no Lutter & Wegner. O nome já me fez gostar da escolha.  Soa quase como Luther & Wagner –  dois pilares da maneira de ser alemã Não me decepcionei. Os pratos tradicionais estavam lá, inclusive reminiscências de um vizinho falecido há quase cem anos: o império austro-húngaro. Mas havia espaço para receitas mais sofisticadas, como o duo de terrines (vitela e foie gras) com feld salat, uma salada de folhas que lembram a rúcula. Esta foi a escolha de La Blonde. Em homenagem à xará dela, a imperatriz Elisabeth d”Áustria, vulgo Sissi, pedi um goulasch com spätzl. Ambas as decisões acertadíssimas, como logo se provou. Nos copos, um honesto Riesling. A sobremesa foi óbvia: apfelstrudel recém-saída do forno.

Felizes e saciados, fomos ao encontro de Einstein. Não o da relatividade em pessoa, mas uma rede de cafés que o homenageia. Escolhemos o Einstein da Friedrich Strasse, com providencial terraço para os fumantes e vista para a sociedade do consumo, que desfila com olhos ávidos e sacolas de griffe estufadas, Nas calçadas lotadas de uma rua que é elegante de segunda à sexta e cafona nos fins-de-semana, esbarram-se mochileiros, mulheres que parecem  saídas da última edição da Vogue, famílias do interior, turistas de todos os passaportes. A poucos passos, um shopping exibia como atração nada menos do que modelos de Bugattis de diferentes épocas, inclusive um relíquia, da maior incorreção política, onde os passageiros se acomodam na cabine coberta e o motorista dirige ao ar livre, sujeito às intempéries.

Nas ruas em volta não se vê mais nenhum Traban, ícone da indústria automobilística proletária nos velhos tempos do muro, a não ser uma “versão limousine” para turistas, aberta e com estofamento zebrado. Não consigo imaginar como a Stasi encararia isso.

www.l-w-berlin.de