Comensais

Curiosidade insaciável

A Prima de Muitas

by Mariana Souza

Minha primeira reação à Prima Bruschetteria foi de implicância – eles se anunciavam como a primeira bruschetteria da cidade, mas eu já conhecia (e adorava!), a La Pasta Gialla, bruschetteria do paulistano Sergio Arno que funcionou no Shopping da Gávea e depois mudou para a Barra.

Então eu, comensal e leal, discordava da propaganda.  Mas logo outra propaganda – o boca a boca – me chegou, de que o Prima era ótimo. Boa comida, boa bebida, bom astral.  E lá fui eu, com minhas “Companheiras da Boa Mesa”.

Já sabia que o lugar lotava cedo.  Além de ser pequeno, o forte era o happy hour.  Então combinamos de chegar às 20h, e pegamos a última mesa antes de começar a fila.

O restaurante é pequeno, mas ajeitadinho.  As luminárias do teto ficam embutidas em garrafas que, aliás, também são porta-guardanapos.  A hostess não é das mais simpáticas.  Como toda hostess de lugar da moda, se acha a última coca-cola do deserto.  Colocou-nos numa mesa apertada, no meio do salão, a única vaga.  Mas quando vagou uma mesa maior, no canto, pedi para mudarmos (já que minha bolsa caía no chão a cada vez em que alguém passava pela nossa mesa), e ela autorizou.  Ganhou pontos.

O cardápio é uma delícia, a começar do conceito: comidinhas, que eu adoro. Nada de entrada, prato principal, sobremesa.  É possível passar horas beliscando e experimentando bruschettas de vários sabores, sem ter o compromisso de fazer uma “refeição completa”.  E assim foi, durante mais de três horas.

Começamos pelas Pomodoro (tomate e manjericão), Cogumelos (com salsinha! Argh!), Brie com mel e nozes e Fois Gras brûlé – todas gostosas, com destaque para as duas últimas, que, além de super diferentes (especialmente a de fois gras!) estavam absolutamente divinas.

No 2º round, pedimos bruschetta de abobrinha, mozzarella de búfala e tomate cereja, de queijo de cabra com tomate confit, e de presunto de Parma com grana padano.  Com exceção da primeira, que é mais trivial, as outras duas estavam maravilhosas.

Para acompanhar, nos deliciamos com drinques servidos em jarras, que parecem sangria, mas que o nosso simpático garçom, Kiki, jurava de pés juntos que não eram: Rossini Spritz (espumante, morango, vodka, club soda e hortelã) e Arancia Spritz (espumante, club soda, laranja e cointreau).

Mas eis que a fome apertou, e resolvemos pedir 2 risotos para dividir.  O de camarão e pesto estava ruim.  Insosso, arroz meio cru, mas, depois de horas de bebida e bruschetta, resolvemos encarar.  Já o de cogumelos e azeite de trufas estava absolutamente intragável, aguado e sem gosto.  Devolvemos.

Rapidamente Kiki levou nossa queixa ao chef, que providenciou novo risoto de cogumelos.  Dessa vez estava gostoso, mas nada especial.  Sem contar que o azeite de trufas passou longe.  Ou seja, numa bruschetteria, melhor ficar nas bruschettas.

No fim, resolvemos experimentar uma das bruschettas doces, de nutella com avelãs.  Estava gostosa, mas nada comparado ao soverte do La Basque que fica do outro lado da rua – e por onde passamos para sobremesa e cafezinho, encerrando, felizes da vida, a noite.

Rating: ?????

Prima Bruschetteria
R. Rainha Guilhermina, 95, Lj C

www.primab.com.br

Café-da-manhã

by Evandro Barreto

Da padaria da esquina à declaração de motel do Roberto Carlos, as opções são incontáveis. Numa fazenda do interior cearense, refresco de cajá, tapioca com ovo frito, canja, queijo coalho, aipim cozido com manteiga, café e leite de cabra. No avião de volta ao Rio, barra de cereais. Em Roma, suco de laranja cor-de-abóbora, mais azedo do que entrevista de republicano na Fox News, mas redimido pelo sabor e perfume do capuccino.

Em Minas, a mesa sustentável: pão, café, leite, queijo, coalhada, manteiga, geléia, mel de abelha, compotas – tudo produzido na propriedade. Enquanto turistas e intelectuais ainda dormem, a simplicidade de um café com croissants e brioches na varanda do Café de Flore. No quartel de prontidão, mate em caneca amassada e pão tão vencido quanto o governo derrubado na véspera. Num hotel-castelo da Holanda, camareiras em bando invadem a alcova com a maior variedade já vista de pães, bolos e queijos, escoltados por bules de café, chocolate, leite e creme, sem falar nos periféricos. Pelo menos, podiam bater na porta, para se certificarem de não estar interrompendo alguma coisa.

Esse balanço caótico do primeiro contato com o dia me ocorreu por provocação da Rede Globo. Por que será que nos copos de suco de laranja das novelas resta sempre um terço perfeito do conteúdo? Por que será que as personagens jamais conseguem terminar em paz o chamado desjejum? Há sempre alguém que se levanta furioso e sempre alguém que grita “fulana, volte aqui!”, mas ninguém volta.

Fiquei pensando: se o café-da-manhã é tão importante na vida da gente, e comentários freqüentes sobre o tema aqui nos Comensais dão provas disso, algum cineasta de plantão bem poderia realizar um documentário sobre o assunto.

O que comem os esquimós em seus iglus, quando enfim a manhã nasce, após meses de noite polar? A que horas de que lugar os astronautas fazem a primeira refeição? O que ligava o motor de arranque matutino de gregos e romanos antes da incorporação da cafeína à dieta ocidental? Como reage aos pedidos imprevistos o serviço de quarto de um hotel de altíssimo nível?

A esta última questão eu posso responder. Um brilhante arquiteto brasileiro passou longo tempo lecionando no Japão, a convite do governo, e hospedado no melhor hotel de Tóquio. Todos os dias, ao acordar, ligava para o “room service” e era submetido ao mesmo questionário: café? sim; quantos? um; suco de laranja? sim; quantos? um; ovos quentes? Sim; quantos? um. Isso por meses a fio. Certo dia despertou de ressaca e irritado por ter que detalhar, pela enésima vez, o que queria. E explodiu. Quantos copos de suco? Duzentos. Quantas taças de café? Trezentas. Quantos ovos quentes? Quatrocentos. E foi tomar banho.

Quando saiu do banheiro, uma fila de garçons, como samurais de Kurosawa, havia se formado, da entrada do quarto ao fim do corredor, e se perdia escada abaixo. Oceanos de suco, dilúvios de café e um gerente consternado. Como não havia ovos suficientes no fornecedor local, tinham mandado vir de Osaka no trem-bala.

O lagarto e a lagosta

by Evandro Barreto

No sul, chamam de posta branca e eu achava que era peixe. De São Paulo para cima, vira lagarto e os sulistas acham que é o bicho. No Rio, há quem o chame de lagarto redondo, para distingui-lo do primo, o lagarto atravessado; mas não vamos perder tempo com questões de família. Em qualquer latitude, aquele cilindro imperfeito de carne bovina é uma obra aberta. Fácil de tratar e sem muito sabor intrínseco, convida à criatividade na escolha de temperos e recheios, no tempo e na técnica do cozimento, na forma de apresentação à mesa (ou na vitrine dos botecos). Na Inglaterra, deixaram a carne no fogo por menos tempo do que deviam, porque time is money, e chegaram a uma descoberta sensacional: o roast beef, que os ingleses sabem fazer como ninguém. Em outro reino unido, o de Brasil, Portugal e Algarve, o calor tropical recomendava prudente distância do fogão de lenha e a verificação do ponto se fazia a intervalos maiores, o que redundou na nossa carne assada, com seu glorioso molho “ferrugem”.

A esta altura, vocês devem estar se perguntando: onde é que entra a lagosta do título? Calma, que eu explico. Mergulhado num projeto profissional de desenvolvimento a longo prazo no Ceará, aluguei um flat em Fortaleza, não só pela incrível vista para o mar, mas também pelo bom restaurante instalado no prédio.Voltei a um regime alimentar de solteiro, já que La Blonde tinha seu próprio trabalho, a mais de 2 mil quilômetros, e não podia ficar comigo o tempo todo, embora baixasse no pedaço com agradável freqüência.

No princípio, foi a festa de Netuno: lagostas de todas as formas, camarões de todos os tamanhos, siris de todas as pinças, peixes de todos os nomes – de arabaiana a sirigado (este, acabei suspeitando que fosse badejo). Mas o tempo foi passando…e o tédio do paladar só não chegou logo porque eu fazia incursões de trabalho ao interior, onde o cardápio era outro. Mesmo assim, veio a noite do pesadelo. Fui dormir depois de um jantar mais farto e logo surgiram matilhas de lagostas passeando pelo meu peito, cáfilas de arraias saltando junto à cama, um insistente pitu beliscando o dedão do pé. Foi aí que dei um basta.

Nos dias que seguiram experimentei todos os italianos, franceses, árabes, chineses e as poucas churrascarias da cidade. Fiz até um trato com o garçom que me atendia no flat e incluí nas minhas alternativas a comida servida aos empregados. Aliás, o baião-de-dois feito pelo chef Zé Firmino para uso próprio era ótimo. Por certo período a questão parecia resolvida. Mas o organismo começou a dar sinais de protesto e as roupas foram ficando apertadas.

O que fazer? Carne assada , é lógico. É comida de casa de família, aceita acompanhantes inocentes, como batatas cozidas e arroz branco e, como queria Lavoisier, nos dias seguintes não se perde, se transforma. Num robusto sanduíche, ou em tostados croquetes; servida fria, em fatias bem finas, temperada com azeite de oliva, ervas e rodelas de cebola, pode juntar-se a aspargos e salada verde um almoço virtuoso. Voila! A necessidade é a mãe da invenção.

Havia um bom super-mercado na esquina e a cozinha do flat tinha panelas, louças e talheres suficientes. Mãos à obra, portanto. Foi então que me lembrei de um pequeno problema, Eu nunca tinha feito carne assada em toda a minha vida. A história poderia terminar por aí, triste e perplexa como um filme de Antonioni. Mas como prefiro De Sicca, confiei nos milagres do amor. No primeiro dia de chuva, e não há nada mais lúgubre do que um domingo chuvoso no litoral nordestino, reuni os ingredientes, sendo o mais vital de todos eles o telefone. Acordei Betty, la Blonde no Leblon, expliquei meu drama e levei uma bronca monumental. Carne assada de verdade tem que ser iniciada na véspera. Portanto, que eu vestisse o avental e começasse a preparar, sob orientação inquestionável dela, e passo-a-passo, o almoço – do dia seguinte.

Foi um longo domingo aquele, em que sobrevivi com uma omelete trazida pelo serviço de quarto . Ligo o telefone: “Recheia o lagarto”; ligações sucessivas: “ Salga o lagarto, “Sela o Lagarto”, “Prepara a vinha d’alhos e não esquece o alecrim”, “Deixa eu descansar e o lagarto também”. Muitas horas e etapas depois, quem foi descansar fui eu. Acho que dormi de avental. Na manhã seguinte, cancelei duas reuniões, para finalizar a empreitada. Consegui. Para meu orgulho e espanto, o assado ficou pronto, macio e saboroso! Foi a refeição mais deliciosa que eu já tinha preparado. E, com a participação da Embratel, uma das mais caras.

Daí por diante, e para todo o sempre, a iguaria tornou-se conhecida como “lagarto a Graham Bell”.

Vinho no freezer?

by Evandro Barreto

Problemas recorrentes provocam reações correspondentes. Por isso, resolvi tirar do freezer as fórmulas que desenvolvi, a partir da sofrida experiência própria, para combater uma praga moderna mais ameaçadora que a gripe suína.

Mal começa o pretenso inverno carioca e lá vêm eles de novo: os enochatos ululantes. Logo no início das história dos Comensais, há mais de dois anos, postei um texto sob o título “Antídoto para enochatos”, que reproduzo abaixo, por justa causa.

Antidotos contra enochatos
postado originalmente em 18/01/2008

Tomara que não, mas pode acontecer. Num desses ritos tribais inevitáveis, festa de fim de ano da empresa, jantar de desagravo a senador absolvido, você pode vir a dividir a mesa com um enochato ululante – e só descobrir com quem se sentou quando ele cheirar com ar de nojo a rolha do vinho mercosulino comprado pelo dono do buffet num atacadista informal da fronteira. Mas aí será tarde demais para puxar qualquer outro assunto.

Como esse tipo de parceiro de mesa parece sentir irresistível atração pela minha companhia fortuita, acabei por acumular experiência específica, o que me possibilitou descobrir antídotos para maus discursos a respeito de bons vinhos.

É verdade que tive bastante tempo para pesquisar. Quando um enochato fala, não faz a menor questão de interatividade. Você pode pensar com calma enquanto o cafezinho não chega. Por puro espírito de solidariedade, abro mão de eventuais direitos de autor e passo ao domínio público cinco fórmulas testadas com êxito.

Escolha a que melhor combine com o seu estilo pessoal.

1) Entre no clima – Mostre-se deslumbrado pelos conhecimentos do interlocutor e pergunte se é verdade que o aquecimento global chegou à Patagônia e está acabando com os vinhedos da província de Nestor e Cristina Kirchner. Qualquer que seja a resposta, você terá o gancho que precisa para mudar o foco para política sul-americana e falar mal do Hugo Chávez até a hora de se despedir.

2) Vinhos de estação – Surpreenda o inimigo com uma questão técnica. Pergunte se ele concorda que, a partir de 1998, mais franceses têm se deslocado de Denfert-Rocherau para Chateau de Vincennes. Talvez ele não perceba que você se refere a duas estações do metrô de Paris.

3) Revele os seus limites de conhecimento e verba – Confesse que você não vai alem de um Saint Emilion com pratos de carne e hesita na hora do peixe. Então, peça humildemente um conselho: entre os brancos do Loire, qual ele recomenda?

4) Paquere a mulher dele – Olhos nos olhos, e acariciando com prazer e perícia o bojo do seu próprio copo, pergunte o que ela prefere para acompanhar a sobremesa: a sabedoria maliciosa de um Chateau de Yquem ou o abismo de tons e cores de um Porto Taylor envelhecido 20 anos?

5) Se as alternativas anteriores falharem, ponha vintão na mão do garçom para derrubar a garrafa na roupa do oponente.

30 anos sem Vinicius e uma receita inesquecível

by Evandro Barreto

Em 1980 a poesia ficou de luto. Vinicius de Moraes cansou de ser “infinito enquanto dure” em tantas vozes desavisadas. A homenagem que um blog que trata de prazeres sábios pode prestar ao poeta é transcrever o final de um banquete para a alma. A última e mais relevante parte de sua Receita de Mulher.

“… Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida
Oh, sobretudo, que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias
A sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume
E destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita
De toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes

Pela transcrição,
Dodô