Comensais

Curiosidade insaciável

30 anos sem Vinicius e uma receita inesquecível

by Evandro Barreto

Em 1980 a poesia ficou de luto. Vinicius de Moraes cansou de ser “infinito enquanto dure” em tantas vozes desavisadas. A homenagem que um blog que trata de prazeres sábios pode prestar ao poeta é transcrever o final de um banquete para a alma. A última e mais relevante parte de sua Receita de Mulher.

“… Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida
Oh, sobretudo, que ela não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias
A sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume
E destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita
De toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes

Pela transcrição,
Dodô

Carlota – primeira parada do circuito gastronômico carioca

by Pedro Arraes

Um ano em Nova York, como passou rápido… Sim, estamos de volta ao Brasil (calma, ainda temos várias dicas gastronômicas da Big Apple para publicar, a conferir…). Com o nosso retorno definitivo ao Rio de Janeiro no ano passado, resolvemos iniciar algumas incursões aos restaurantes mais badalados da cidade e começamos nosso circuito pelo Carlota, no Leblon. O Carlota é definido como “Cozinha Multicultural” pela dona do estabelecimento, Carla Pernambuco, aliás, nada melhor do que jantar em um restaurante em que a chef – publicitária por formação – teve seu despertar culinário quando morou em Nova York por 3 anos no início da década de 90.

A comemoração era especial: Bodas de Algodão (2 anos de casados). Como eu e Lê trabalhamos normalmente até tarde e era uma segunda-feira, reservamos (sim, mesmo sendo início de semana resolvemos não arriscar – detesto fila em restaurante) para um horário mais tarde: 22h. Ao chegar vimos que a reserva não era necessária, apesar do restaurante ser muito pequeno apenas dois casais se aventuraram naquela segunda-feira de maio.

Os garçons foram muito atenciosos (também deviam estar meio ociosos e loucos para se movimentar) e logo trouxeram o couvert, simples mas gostoso. De entrada pedimos a deliciosa panelinha de cogumelos shiitake. É servida com torradas e tem um gosto espetacular. Foi com certeza uma das entradas mais gostosas que comi até hoje.



panelinha de cogumelos shiitake

De prato principal eu pedi o magret de pato fumet com molho de laranja caramelizada e purê de batata baroa. Estava muito saboroso, mas eu ainda não consegui comer um pato que não estivesse duro, não sei se a carne de pato é realmente dura ou se o preparo nas três vezes que me aventurei a pedir esse prato (Filadélfia, Nova York e agora no RJ) não foram tão bem feito assim, será?


magret de pato fumet com molho de laranja
caramelizada e purê de batata baroa

A Lê fez um pedido melhor que o meu: sashimi de salmão com molho ponzu e arroz de jasmim. Estava uma delícia!! O salmão no ponto certo (ligeiramente selado por fora e cru – eu disse cru – por dentro) e era coberto por gergelim. O molho ponzu era muito gostoso, a base de limão, muito utilizado na culinária japonesa. O arroz de jasmim tirava toda a acidez do molho e deixava o salmão ainda mais gostoso. Ótima pedida!



sashimi de salmão com molho ponzu e
arroz de jasmim

Depois de bem satisfeitos, a Lê – só para variar – fez questão da sobremesa. Por questões de força maior ela não está comendo chocolate então partimos para um petit gâteau de doce de leite. Servido com sorvete de creme e farofa de castanha, fechou o jantar com chave de ouro. Olha que eu não sou de doce mas esse gâteau estava especial, pensei no início que iria enjoar com o doce de leite mas nada… Se não estivéssemos tão satisfeitos (leia-se cheios), teríamos pedido outro. Mas foi engraçado a disputa bonita de colheres para ver quem pegava mais pedaços do bolinho, do recheio quentinho do doce de leite, da farofinha, do sorvete…


petit gâteau de doce de leite

O único ponto negativo (mas que não estragou em nada a noite) foi a inexplicável situação da conta, onde pagamos o valor sem o serviço no cartão de crédito. O serviço deve ser pago separadamente em dinheiro ou cheque. Nem cartão de débito pode. Perguntei ao garçom do porquê disso e ele respondeu que é norma da casa (?!?) e que eles estavam acostumados a nem receber o valor porque os clientes normalmente não andam com dinheiro e nem cheque na carteira. Felizmente para ele eu ainda tinha uma folhinha na minha…

Rating:

Carlota
Rua Dias Ferreira, 64 – Leblon
Rio de Janeiro, RJ
(21) 2540-6821
www.carlota.com.br

Dois cancerianos e três louras

by Evandro Barreto

Eu e meu genro, Paulo, temos muito em comum. Ele, como arquiteto e urbanista, eu como publicitário e escritor, trabalhamos com a ocupação criativa de espaços – físicos, mentais, emocionais. Somos cancerianos; carregamos pela vida a dentro o ônus e o bônus das águas, das luas, das marés. Amamos as louras de nossa vidas, Beth, Márcia, Laura. Fazemos anos com dois dias de diferença. Por tudo isso, comemoramos juntos o que o tempo nos soma.

Desta vez, o jantar de duplo aniversário foi em Curitiba, no “D. Louis Bistrot”. David Louis é um chef parisiense, casado com a brasileira Giovanna. E como em todo bistrot autêntico, ele no fogão, ela no salão. Conhecemos a casa há alguns anos. Da primeira vez, entramos por impulso e não nos arrependemos. Tudo foi além da expectativa. Das opções de cardápio ao preparo e apresentação dos pratos, do bom-senso dos preços até o atendimento, mais do que gentil, amistoso. O tempo passou, o bistrot conquistou um público requintado e cativo e, sempre que estamos no pedaço, voltamos lá para um jantar “tête a tête”, ou com a neta que adora o lugar, de vez em quando com a família completa.
A idéia inicial, por imposição da Laurinha, que exerce na plenitude sua autoridade de filha única e neta , deveria consistir numa só pedida para todos: a monumental cascata de frutos do mar, que congrega numa travessa de múltiplos estágios (acho que projetada pela NASA), lagostins, camarões, vieiras e quase tudo mais que o frio oceano sulino oculta, à exceção das sondas do pré-sal. Quando ligamos para encomendar, David Louis estava chegando das compras no litoral e avisou com tristeza que o caos climático estava retendo os barcos de pesca no cais. “Pas de cascata”. Mas, ainda assim, ele não nos deixaria totalmente frustrados.
Dito e feito. O jantar começou com uma generosa porção de “moules a la marinière”, prontamente devoradas em consórcio, já que a moderação era aconselhável, em vista do que viria depois. Os mexilhões estavam fresquíssimos, o caldo de vinho branco e ervas, resultante do cozimento, pedia para ser tomado de colher ou barbaramente absorvido pelo pão, quando as colheres já se mostravam inúteis.
Na seqüência, as louras pediram o mesmo prato, provado e aprovado com louvor em ocasiões anteriores: “magret de canard” com “risoto de champignons de Paris au champagne”. Por sugestão do David Louis, e com a mesma guarnição, substituí o peito rosado pela dourada coxa da mesma desventurada ave, lentamente cozida em sua própria gordura. O genro escolheu outra dica do chef, igualmente perfeita: contra-filé com batatas sautées e lascas de maçã glacées. Cabernet-sauvingon para os adultos, suco de uva para a senhorita.
Por mais que todos estivessem felicíssimos com suas escolhas, olhares de admiração e velada súplica ante o aspecto e o aroma do ”confit” extraíram de mim um desprendimento relutante e promovi uma degustação homeopática do meu prato. A reação foi unânime – da próxima vez, “confit de canard” para todos. Ou reservamos com antecedência, ou o David Louis vai ter que inventar um pato com cinco coxas.
Dado o estado de beatitude que se apossou dos presentes após a última garfada, sedutoras sobremesas e queijos foram dispensados. Somente flutes de champagne oferecidas pela casa aos aniversariantes e convidados. O frio da noite curitibana providenciou as condições mínimas de dirigibilidade, quando deixamos o bistrot, já com saudades antecipadas.

O violão corso

by Evandro Barreto

Para Lina, que tem um pied-a-terre na Córsega de fazer inveja à família Bonaparte

Amo o verão e amo Paris – mas nunca juntos. Se o americano T.S. Eliot tivesse escolhido viver na França, e não na Inglaterra, jamais escreveria que abril é o mais cruel dos meses – teria escolhido agosto.
Uma vez fui à Europa em agosto por motivo de trabalho. Encerrada a missão em Munique, aluguei um carro para ir passeando até Paris e lá pegar o avião de volta ao Brasil. Enquanto atravessava a Floresta Negra, parando aqui e ali para uma wurst ou uma torta, tudo bem. Mas quando saí da sombra e atravessei o Reno, bateu um calor insuportável. Em Strasbourg escolhi o hotel pela potência do ar condicionado. E mal deu para caminhar pelas ruas de uma cidade adorável, nas outras estações do ano. Comi todo o foie gras a que tinha direito, mas meu condicionamento tropical impôs distância do vinho, por mais que eu tentasse racionalizar a neura. Fui de cerveja. Na manhã seguinte, entreguei o carro na Hertz e embarquei no primeiro vôo doméstico.
Paris não estava tão quente, apesar da sensação difusa de desconforto. No hotel, fui informado que na véspera estava muito pior, mas um aguaceiro durante a noite melhorou as coisas. Como de hábito, a cidade estava de férias. No boulervard Saint Germain, tudo fechado, menos o Vagenende, reaberto dias antes, para sorte minha, que curto o ambiente, a comida e o atendimento de lá.
Entrei… e parecia que tinha chegado a Ipanema. Como as francesas ficam mais familiares aos olhos, quando bronzeadas dos dedinhos dos pés à altiva fronte! Acho que é uma compensação da justiça divina a quem veio de longe para bater com o nariz em portas cerradas.
No dia seguinte, o barato foi passear a pé pelas ruas vazias, beber pastis na varanda do Fouquet, andar simplesmente, sem ansiedade consumista, desviando o rumo para percorrer jardins tranqüilos, onde crianças comandam barquinhos no lago por controle remoto. Mas à noite, o que fazer? Acabei esbarrando num daqueles pequenos “cinemas de arte”, que exibem o ano inteiro filmes que não vimos porque saíram de cartaz antes de nascermos. Naquela sala específica, o filme não era tão antigo, mas merecia ser revisto em cada oportunidade: “Cidadão Kane”. Meia dúzia de espectadores – um devia ser o Goddard. Pulo o discurso crítico e corto para cena de rua, após a sessão, onde me vejo de novo sem script, mas agora com fome.
Fui parar na Ilha de Saint Louis, em busca de um hotel recomendado pela excelente mesa de hors d’oueuvres do seu restaurante, boa pedida em noite quente. Esse não estava de férias – estava em reforma. Já não sabia o que fazer, quando o som de um violão veio flutuando de uma discreta rua transversal. Não era um violão qualquer; tinha acordes que lembravam guitarra cigana e algo mais, entre o grego e o árabe, Domenico Modugno e sei lá o quê. Guiado pela música, cheguei a uma portinha com o letreiro esclarecedor em cima: “Especialidades da Córsega”. Então era isso!
Da mesa, guardo pouca memória. Pão caseiro, bons salames e queijos, salada correta e bem temperada, vinho jovem decente. Mas o violão corso até hoje me soa vez por outra na alma.

A mesa do tamanho do mundo

by Evandro Barreto

Este texto é dedicado à Helena, que nasceu na Bahia, mora hoje em outro estado, estudou na Europa, é casada com europeu e faz esculturas gastronômicas com um produto inventado pelos mexicanos, muito antes de um italiano descobrir a América a serviço dos espanhóis.

O que coloco aqui não é uma crônica, ensaio, tratado ou reportagem. È uma proposta a todos os amigos, comentaristas e leitores dos “Comensais”. Quem de nós jamais chegou a uma cidade estranha do próprio país ou do exterior, sem a mínima idéia de onde comer, beber ou divertir-se? Quem de nós, por isso mesmo, não teve experiências que gostaria de esquecer, mas foi compensado com descobertas até hoje lembradas com prazer? E então, vamos compartilhar esse acervo de conhecimentos?
Dou eu o pontapé inicial. Pior experiência: uma pizza em restaurante de estrada no interior de Goiás. “Aquilo” em cima do queijo muzzarella não era orégano nem manjericão, era folha de louro crua e picada, Acrescento o último must do segmento afluente-deslumbrado nacional: queijo Brie recoberto de geléia de damasco. Pauvre Brie.
As mais inesperadas e deliciosas descobertas: um bistrot em Arles, em frente à arena, onde comi os melhores aspargos frescos da minha vida.
Outros achados: a sopa de cabeça de garoupa da “Peixada do Lula”, na orla marítima do Recife, facilmente identificável, no mais superficial dos exames da FIFA, como poderoso dopping; o creme de feijão branco do “Golden Stadt”, restaurante tcheco de Munique.
La blonde acaba de me lembrar do pitty panna, um quebra-galho experimentado em meio à neve que nos isolava em Linköping, no interior da Suécia, circunstância que tornava qualquer outro pedido de difícil execução. Simples, substancial e saboroso, o pitty panna consiste em cubos de batatas cozidas e presunto cozido refogados na frigideira e acrescidos de picles e de ovos fritos por cima.
Como bebida, outra bela surpresa foi o vinho grego Boutari Naussa, que nada tem a ver com o preocupante “retsina”.
Bola com vocês.
Abraços a todos,

Dodô, o globetrotter da fome.