Comensais

Curiosidade insaciável

O nome do fruto

by Evandro Barreto

Há um misterioso vegetal que brota somente na planície de Savasandir e cuja silhueta ao entardecer lembra uma ave. No dialeto local é chamado de u-á.

A planta propicia uma iguaria digna dos deuses, desde que o solo forneça nutrição abundante. Super-alimentada, produz um único fruto, difícil de ser percebido porque se desenvolve internamente. Na terceira lua cheia do ano, os iniciados se reúnem em torno de fogueiras acesas na planície e dão início ao ritual de degustação. O u-á é colhido pelas virgens de Savasandir enquanto os sacerdotes repetem como mantra o nome do fruto: “ fu-á… fu-á… fu-á…”. Absolutamente intraduzível. E seu algum bárbaro ousar pronunciá-lo será fulminado pelo anjo Escoffierus.

Depois de convenientemente tratado, segundo receita mantida em segredo ao longo dos séculos o fu-á é cortado em porções da mesma espessura, que revelam seu hipnótico interior rosado. Numa cerimônia comovente, as tenras fatias são depositadas com todo o cuidado em pratos de magnífica porcelana da dinastia Koste, ladeadas por torradas ainda fumegantes e geléia de frutas colhidas na negra floresta que se estende do outro lado do rio. Viajantes que se aventuram pela região contam dos “ais” e suspiros que se propagam sobre as águas e podem ser ouvidos à distância.

Ultimamente, porém, teme-se pela continuidade do ritual na forma consagrada há milênios. Um noviço do mosteiro, que se pensava devorado pelos lobos, retornou na terceira lua cheia, trazendo garrafas de um elixir de denominação impronunciável na língua de seus antigos: chateaulatour. Provado pelas virgens e sacerdotes na Festa da Degustação, entre bocados de fu-á e crocantes torradas, provocou urros, delírios e demasias. Dizem até que pode faltar mão de obra na próxima colheita.

Mas há um perigo maior. Hordas cada vez mais numerosas de avatares, ululando maldições contra o fruto, rondam dia e noite a mágica planície de  Savasandir.

Coquetéis históricos

by Evandro Barreto

Li no blog “Em busca do drinque perfeito” * um post essencial para quem curte alquimia de balcão: o ranking dos coquetéis mais prestigiados do ano de – vejam só! – 1934.

Naquela época, entre duas guerras globais, havia menos gente no mundo, menos atalhos para o barato e mais tempo para tudo. Entende-se, portanto, a profusão de ingredientes, a lentidão do ritual e a precisão na dosagem. Não vou dar aqui a lista completa, para incentivar a visitação ao site de origem. Mas destaco alguns drinks da relação, imortalizados em músicas, romances e filmes. Quem quiser se aventurar nas receitas, está tudo lá. Começe pelo “manhattan” avançe para o “old fashioned” e chegue à saideira com o “sidecar”. Você entenderá melhor o espírito das canções de Cole Porter.

Aí, fiquei pensando sobre o que pintou na área nas décadas seguintes. E cheguei a alguns coquetéis representativos de momentos históricos marcantes. O poder soviético, entre 1945 e 1990, popularizou a vodka e a ameaça de um conflito nuclear aumentou o consumo e as ressacas. Resultado: fórmulas para enfrentar a manhã seguinte à noite anterior, como o “bloody mary” e o “bull shot”. Nos anos sessenta, la dolce vita romana popularizou o “negrone”, e a evidência alcançada por Cuba, nas versões de Hemingway e Fidel, universalizou o “mojito”.  Caminhando contra o vento, a garota de Ipanema fez os gringos prestarem atenção no Brasil e descobrirem que aqui há mais frutas do que cabiam no turbante de Carmen Miranda, inclusive algumas imigradas de outras floras, como o limão Tahiti e a lima da Pérsia. Ponto para a caipirinha. E neste século XXI, de práticas tão saudáveis e drogas tão destrutivas?

Sei não, mas acho que estamos em via de um novo must nas coqueteleiras: o “Fukushima”, à base de água mineral enriquecida e urânio idem.

* rac.com.br/blogs

Baião of Two

by Evandro Barreto

Pois é, o Obama acabou não subindo ao palanque na Cinelândia. Preferiu um contato “allegro, ma no troppo” com uma turma menos espontânea e mais acostumada aos rituais do Theatro Municipal. Dizem que ele achou prudente evitar o coquetel que os movimentos sociais (o que quer que seja isso) iam lhe oferecer.  A primeira rodada chegou a ser servida, por especial deferência, em frente ao consulado americano.

É bem verdade que o coquetel era molotov. Mas as referências cinematográficas da viagem, na era do Estado-Espetáculo, não estão de todo descartadas. Na agenda do “Barraco da Brahma”, como o eminente estadista foi chamado por um popular entrevistado em frente ao “Amarelinho”, consta uma visita à Cidade de Deus. Barack teria manifestado interesse em conhecer um tal de Little Joe, conhecido na comunidade e no festival de Cannes como Zé Pequeno.

Enquanto isso, em Brasília, decidia-se o destino do país. Não do nosso, mas o do Kadafi. Entre olhares da dona Michelle ao xale da dona Dilma, e as cotoveladas trocadas por Sarney e FHC para garantir um lugar melhor na mesa, chegavam bilhetinhos: da França, da Inglaterra, do Canadá – e até do Berlusconi – todos com o mesmo teor: “Já estamos atacando a Líbia, e vocês? No entanto, Obama estava zen. Sonhava com a hora de conhecer Copacabana Beach, the girls from Ipanema e a quadra da sua escola de samba favorita (nascido no Havaí e criado na Indonésia, ele é União da Ilha).

A coisa começou a se complicar quando serviram o baião de dois. Observando aquele corpo- a- corpo do feijão com o arroz, Barack lembrou-se do lema dos racistas sul-africanos: “iguais, mas separados”. Em todo caso, foi em frente. Até o momento fatídico em que serviram a feijoada vegetariana, com tofu defumado no lugar da carne seca. Pra quê? Mister President sacou a montblanc e ordenou ao cara dos mísseis: Fuck the son of a bitch!

Ressaca de Natal, promessas de Ano Novo

by Evandro Barreto

Serão as tâmaras ou a rabanada? Alergia a papel de presente ou sentimento de culpa pelo presente esquecido?  A escolha da lembrancinha do porteiro ou a dúvida sobre justo valor da gorjeta ao lixeiro? O “tem que” ou o “não pode”?

Nunca cheguei a uma conclusão definitiva sobre a causa, mas as conseqüências se repetem a cada ano. Minha ressaca de natal começa antes do próprio, dá uma doce trégua na reunião de família, piora com os fogos do reveillon e só tenho a certeza de que passou no dia de São Sebastião. E hoje é o dia do padroeiro da muy leal e valerosa cidade do Rio de Janeiro, que só podia, mesmo, ter um padroeiro meio pelado. Portanto, concedo-me alta médica e passo sem delongas às promessas que fiz para cumprir neste ano.

- Prometo não misturar vinhos com o verbo harmonizar;
- Prometo não me meter na briga do brie com a geléia;
- Prometo responder a todos os e-mails de boas festas, até os de telemarketing;
- Prometo voltar a três lugares inesquecíveis: um museu, um restaurante, uma cidade – só ainda não sei quais;
- Em defesa das coronárias, prometo não me indignar demais  com explicações e as providências anunciadas pelas  chamadas autoridades depois  de cada catástrofe;
- Prometo que vou prometer parar de fumar;
- Prometo ter ressacas de natal mais curtas e fazer promessas de ano novo mais realistas.

Pelo que, firmo a presente declaração de próprio mouse.

Evandro ‘Dodô’ Barreto

Eu em Floripa

by Mariana Souza

Por conta de um compromisso do Marido, fomos obrigados (que chato!) a passar alguns dias em Florianópolis, bem no início do verão.  Eu, que ficaria parte do tempo por conta própria, me apressei em pegar dicas de passeios, praias, hotéis e, claro, bons restaurantes.

Da outra vez em que havia estado lá, me lembrava do Box 32.  Lugar despretensioso que, pela qualidade da comida, caiu no gosto dos locais e turistas.  Como o nome diz, é um Box no Mercado Público, com poucas mesas e muita procura.

Depois de rodar um pouco pelo mercado, encontramos.  O lugar continua o mesmo, mas agora virou definitivamente uma atração turística.  Os caras vendem de tudo com a sua marca: cachaça, livro com a história do local, cerveja, sal aromatizado, e por aí vai.  E como o Marido dava papo, o inconveniente do garçom vinha à nossa mesa a cada 5 minutos apresentar um novo “produto”.

Para não errar, preferimos pedir apenas pastéis.  Assim, também, a refeição seria mais rápida, e poderíamos voltar a explorar o Mercado e fugir do garçom-marketeiro.  E os pastéis não decepcionaram.  Todos bem recheados (eles são famosos por ter 100 gramas de recheio) estavam impecáveis: camarão, camarão com catupiry, queijo e, para arrematar, um de chocolate, simplesmente maravilhoso.  E tudo isso com muita pimenta!

Outra indicação quase unânime foi o Café Riso, que ficava ao lado do nosso hotel.  Como éramos quatro, achei por bem fazer uma reserva para as 22h, achando, no fundo, que era desnecessário. Ledo engano.  Chegamos às 22h e, às 22:10, o lugar estava com lotação esgotada.

O couvert era gostoso e bem servido – pães frescos, pastinhas, antepasto.  Resolvemos então pular as entradas e pedir os pratos.  O marido pediu o filé Chef Nico (mignon, waffles de batata e cogumelos salteados).  A carne estava no ponto certo e as batatas -que fofas!- vinham mesmo no formato de waffle:

Eu fui na trilogia de risotos, que são três risotos escolhidos pelo chef (claro, podendo experimentar mais de um prato, por que não?).  Como já tinha namorado o cardápio, queria experimentar o Trifolati (cogumelos) e o Morhua (bacalhau).  Pedi ao garçom que, por gentileza, desse essa “dica” ao chef.  E qual não foi minha surpresa ao ouvir, como resposta, que eu não poderia interferir, já que a escolha seria do chef.  Aí eu, que não sou boba nem nada, dei uma geral nos risotos e expliquei para ele que eu não podia comer lula, pato, lingüiça, e otras cositas más.  Com isso, não sobraram muitas opções de risotos para o chef que não os de cogumelo e bacalhau ;-)

No fim, minha trilogia foi: Trifolati (um pouco sem graça, sem tempero, mas gostosinho), Morhua (frio, catei os pedaços de bacalhau) e Arretado (com carne seca, o melhor dos três).

Depois disso já não tinha mais forças para sobremesa, e voltamos para o hotel à pé, na esperança de abrir um espacinho na barriga para as refeições do dia seguinte.

Rating: ★★★★☆
Box 32
Mercado Público de Florianópolis, Box 32
www.box32.com.br

Rating: ★★★☆☆
Café Riso e etc
R. Bocaiúva, 2090
www.caferisoetc.com.br