Pare seu mundo!
Por Márcia Luz | 14 de Julho de 2008.Parar o mundo. Interromper o fluxo de trabalho, de preocupações cotidianas, de estresse. É exatamente essa a sensação de passar um fim de semana na Ilha do Mel, no litoral paranaense, em pleno inverno. Friozinho, mas com sol, céu azul, nenhuma nuvem no horizonte.
Já chegarei na comida, ingrediente importante desse texto. Estou contextualizando. A Ilha fica a uma hora de meia de Curitiba, de carro. É perfeitamente possível ir num dia e voltar no outro, sem neuras.
Primeiro, leitores, babem: na Ilha os carros são proibidos. 24 horas sem ouvir um ronco de motor é uma das coisas mais gratificantes da terra. Ir no inverno é fundamental: sem gente, sem mosquitos, sem batucadas, sem morsas humanas rolando no rasinho. Só a areia branca, o mar cristalino, e algumas pessoas inteligentes, como nós, aqui ou ali.
O lugar perfeito para a hospedagem é a Colméia, uma das primeiras pousadas da Ilha. Deliciosamente agradável, toda de madeira, rodeada por um belo jardim, muito freqüentado por passarinhos vermelhos – os tiês-sangue, que vêm se alimentar das frutas deixadas para eles em vários pontos do jardim.
A vinte passos da pousada, o restaurante Mar e Sol, ou “do Valdir”, competente cozinheiro, serve o melhor peixe do lugar. Vamos a ele. Desde que nosso colaborador eventual, Dante Mendonça, escreveu sobre a chegada das tainhas, peixes sazonais, só encontrados no inverno, no Sul do país, ando com um desejo incontrolável de ovas de tainha. Pois bem, quando chegamos à pousada, na hora do almoço, meu adorável marido me deixou desfazendo as malas e rumou direto ao restaurante, para pedir um aperitivo e me esperar.
Quando sentei à mesa, a surpresa: o garçom serve uma cerveja gelada e deposita na nossa frente um prato de moedas de ouro. É isso mesmo. As ovas de tainha são retiradas do peixe envoltas numa membrana, parecendo uma salsicha. São grelhadas, cortadas em rodelas e passadas na chapa, e graças à sua coloração amarela e à competência no preparo, parecem moedas de ouro. Deliciosas preciosidades que explodem na boca em milhões de minúsculas bolinhas de sabor suave e marítimo. Desculpem-me, mas é MUITO melhor que caviar. Leitores, sintonizem comigo: uma ilha quase deserta, sol absoluto, brisa fresca de inverno, cerveja gelada e um mar dourado na boca. Pronto, já posso morrer, pensei. Mas não, ainda faltava a moqueca de siri, reservada para a noite.
Depois de uma tarde no mar, voltamos à pousada, que é outro capítulo gastronômico da história. Há uma agradável varanda com um café, que atrai todos os (poucos) visitantes do lugar nos fins de tarde por dois motivos: primeiro, os pães de queijo quentinhos servidos com café, ou os doces – tortas de limão, de maracujá, de chocolate, bombom de morango gigante e brigadeiro de colher; absolutamente irresistíveis. Segundo, porque no começo da noite os proprietários da pousada executam uma audição de flauta doce na varanda, para acompanhar as iguarias e desfazer de vez qualquer resquício de estresse urbano que ainda reste na alma de alguém. Agora posso morrer? Nãão, a moqueca!
Depois de horas de bate-papo na varanda, voltamos ao Valdir. Caipira de maracujá para começar. Várias.
Chega a moqueca. Uma pequena alimenta três pessoas tranqüilamente. Servida na panela de barro, chega borbulhante, decorada com a sensibilidade rosada de quatro camarões grandes. A panela vem repleta de carne de siri desfiada, e o molho, suave e com tempero equilibrado, envolve a carne na medida certa, apenas para dar liga, sem inundação. Cada pedacinho de siri absorve o molho, que enfatiza com delicadeza o seu sabor. Lugar comum, vá lá: come-se rezando. E rindo. Como o prazer pode ser tão simples de obter?
As moquecas do Valdir são famosas, em qualquer sabor, peixe, camarão ou ambos. Eu prefiro a de siri, mas recomendo qualquer uma. Há ótimos peixes grelhados e outros quitutes do mar. Nessa época, ele também serve tainha recheada, que é uma delícia, mas como estávamos apenas em três e o peixe é imenso, deixamos para outra ocasião – mais um motivo para voltar à Ilha antes que o inverno acabe.
Pousada Colméia – Farol das Conchas/ Ilha do Mel. Tel: (41) 3426-8029.
Restaurante Mar & Sol – Farol das Conchas/ Ilha do Mel. Tel: (41) 3426-8021.



Chamem o Gilmar! Eu preciso de uma liminar, urgente. Essa mulher não pode continuar nos torturando - pobres mortais leitores - com esses textos deliciosos, falando de manjares inascessíveis, deixando-nos doentes de desejo, desidratados de tanto salivar.
Parabéns, seus textos, um depois do outro, estão cada vez melhores. Haja gênio!
Ahá! Ficou com vontade de comer ovas de tainha, hein? Quem sabe não conseguimos nos encontrar em um momento tão mágico quanto aquele que você nos proporcionou em Recife… já temos o cardápio!
Eu fico imensamente feliz com os preciosos elogios, e espero que possa continuar torturando bastante, com muito prazer!
beijocassss
Marcia,
Eu que sou super quantitativo senti falta da cotação no final. Acho que pelo texto, estamos falando de um 5 estrelas. Estou certo!?
Bjs
A
Oiii Arthur
Desculpe a demora em te responder. Não coloquei estrelas porque fiquei meio confusa… afinal foi uma viagem, onde vários elementos culminaram nesse clima. Talvez só a ida ao restaurante não causasse tantas sensações inebriantes. Mas a Ilha, no inverno, é 5 estrelas sim, confira!
Márcia,
Não estou conseguindo responder os seus emails.
bjs