Pensar gordo e pensar magro

Por Márcia Luz | 17 de Outubro de 2008.

Muita gente deve ter lido a reportagem da Veja dessa semana sobre “a dieta do pensamento”, por isso nem vou perder tempo em explicações mais detalhadas. Basicamente, segundo a “nova” terapia, emagrece quem “pensa” magro e engorda – ou permanece gordo – quem “pensa” gordo. Gente, descobriram a América! Como é que ninguém tinha percebido isso antes? O negócio é reprogramar o cérebro pra pensar magro! Ahahah. Estou sendo irônica, não sei se deu pra perceber, não sou muito boa nisso.

É moleza: você só tem que se convencer que comida não é tudo na vida e quando estiver, por exemplo, numa feijoada, servir-se só de meia conchinha de feijão, uma colher de sopa de arroz e um punhado de couve. Simples, né? Fiz o teste do abacatão sábado passado. Enquanto todo mundo devorava baldes de feijoada e bebia litros de cerveja, comi e bebi como um passarinho. As conseqüências sociais são desastrosas, no mínimo.  Os olhares ofendidos do cozinheiro deixaram isso bem claro.

Bem, o fato é que essa história de pensar gordo ou magro é a pura realidade, tão simples e óbvio como somar dois mais dois. Novidade nenhuma. O problema é que é dificílimo fazer a tal “reprogramação” do cérebro. Eu tinha um amigo que era ex-gordo (digo “tinha” porque não o vejo há décadas). Foi nessa época que descobri o que era o tal pensamento gordo. Era coisa de família: a mãe dele pensava gordo e criou os filhos da mesma forma – cozinhava maravilhosamente bem, e só coisas irresistivelmente calóricas: estrogonofes, moquecas, ensopados, mousses, pudins. Diariamente. Ele foi gorducho até o início da idade adulta, quando revoltou-se e decidiu virar macrobiótico. Passou cerca de dois anos comendo alfafa e depois revoltou-se de novo e voltou a comer normalmente. O problema é que o período macrobiótico não apagou o pensamento gordo da sua mente. Por exemplo, ele não podia conceber comer nada que não tivesse molho. Quando almoçávamos juntos, eu sempre ouvia a mesma reclamação: “ai, que comida seca!” (por exemplo, bife, arroz e salada) e já ia providenciar uma lata de creme de leite. Um biscoito recheado nunca era suficiente. Tinha que ser o pacote todo. Podem imaginar o resultado, né?

Tinha também um outro amigo, da época de escola, cujo apelido era geléia, que também gozava de excesso de dimensões corporais. E também pensava gordo. Certa vez, fui visitá-lo em sua casa, nós já adultos, ele mais magro, resultado de anos de academia, e presenciei a seguinte cena: a sobrinha dele, com cerca de seis anos, entra na cozinha. – Rápido, tio, o papai já vai voltar! Ele abre a geladeira e serve um enorme pedaço de torta à menina, que o devora com um apetite africano. A menina era bem gordinha, e os pais viviam controlando tudo que ela comia. Quando eu perguntei o que significava aquilo, ele respondeu: - Eu sei o quanto um gordo incompreendido sofre, viu? Meus pais viviam me obrigando a fazer dieta. Não agüento ver o sofrimento da minha sobrinha!!!!

Pois é. Não é fácil. No meu caso, eu agradeço meus pais por terem me criado segundo os preceitos do pensamento magro. Sem neuras. Simplesmente o cardápio de casa sempre foi simples e leve – arroz, bife grelhado, legumes, saladas, sopas… frituras e pratos com molhos, só aos domingos, único dia em que era permitido refrigerante à mesa. Por questões de saúde: meu pai sempre prezou a boa saúde e estimulava muito a prática de exercícios – a começar por ele mesmo, que praticava duas horas de ioga por dia. Assim, graças e mais graças, naturalmente não sinto falta de coisas engordativas.

O problema é que a ocasião faz o ladrão. Domingo, por exemplo. Domingo tem cheiro de churrasco. É só ir no jardim no final da manhã e aspirar profundamente. O aroma da costela assando chega de todos os lados da cidade, onde quer que eu esteja, me dominando, me hipnotizando. Aí pronto. Mais um domingo-picanha-maionese-cerveja. Mais uma segunda-feira de culpa à vista…

Mas é tããããão bom!!!!!

5 Comentários

(Obrigatrio)
(Obrigatrio)

Comentário para este texto serão fechados em 17 de October de 2009.

Obrigado por por deixar um comentário. Se ele não for ofensivo aos autores, a outras pessoas ou a empresas, ele será aprovado. Às vezes, contudo, o comentário pode ficar preso no sistema anti-spam e ser apagado por engano. Desde já pedimos desculpas se isto acontecer. Ah, e obrigado pela visita.