Primo Piatto

Por Márcia Luz | 17 de Setembro de 2008.

Mais uma da temporada na Itália. Em outro texto publicado aqui, contei uma aventura gastronômica que envolvia uma galinha, uma colher de pau e três mulheres – uma senhora de 70 anos, sua sobrinha, com 24, e a neta, no auge dos 15 aninhos – que foram morar uns tempos com um padre, filho da senhora, em Bologna.

Pois bem, lá vai outra. Logo que chegaram na Itália, foram recebidas pelo padre em Roma, e lá passaram alguns dias antes de partir para Bologna, hospedadas em um hotel para padres (sei que não é essa a denominação correta do lugar, mas deu para entender, né?). Claro que as três causaram uma certa agitação no local, que certamente não costuma receber mulheres, mas isso é tema para outro texto. Lá, as refeições eram servidas em sistema de bufê, e elas podiam servir-se do que quisessem e quanto quisessem, sem precisar seguir o ritual italiano, que será descrito daqui a pouco. Bem, para alívio do pessoal da hospedagem, em poucos dias todos seguiram para Bologna, onde ficariam no apartamento do padre. Que, aliás, era muito querido pela comunidade local. Em Bologna, seriam recebidos com um almoço carinhosamente organizado pela família de outro padre, Don Giulio. No caminho, foram alertadas insistentemente sobre os hábitos italianos à mesa. “Não podem deixar nada no prato, isso é uma grande falta de educação aqui”, dizia o padre às três. A recomendação nem seria necessária: chegaram tão famintas em Bologna que podiam comer um boi.

Direto para a casa de Don Giulio. Depois das apresentações e rapapés, sentaram-se à mesa. E começa o ritual: primo piatto, la pasta. A dona da casa traz uma enorme panela de tagliatelle com molho ragú – o verdadeiro bolonhesa – fumegando; e serviu pessoalmente cada comensal. As duas garotas mais novas bateram o prato em tempo recorde, e aí cometeram o grande erro: aceitaram um bis. O que elas não sabiam é que tudo estava apenas começando. Em seguida, secondo piatto. A carne. Que, no caso, era peixe: tomates recheados com atum. As duas já estavam satisfeitas, lógico. Mas lembraram-se da recomendação do padre e aceitaram. Um tomate cada uma. Ingerido com certa dificuldade. Então… la insalata! Uma tigela de folhas foi depositada na frente de cada pessoa, e as duas, aflitas, tentavam se consolar com a idéia de que folhas não irão fazer tanta diferença em seus estômagos repletos. “Deve ser o final”, torciam. Mas não era. Veio o queijo. Queijo! Pobres garotas. Inspiradas pelo santo ambiente, começaram a rezar quando a anfitriã, gentilíssima, deitou duas grandes fatias do laticínio em seus pratos. A mais velha foi ao banheiro, na esperança de que a caminhada assentasse a comida, abrindo espaço. Após o queijo, sentiram-se aliviadas: “agora acabou, não é possível”. Incrédulas, viram a sorridente dona da casa aparecer com mais uma grande travessa: il dolce! Claro, a sobremesa. “Deve ser algo leve, um sorvete, não será tão difícil”, suplicavam mentalmente. Mas não, tratava-se de um imenso bolo de maçã, bem massudo. Foi a vez da mais nova ir ao banheiro, para chorar. A outra também queria cair em prantos, talvez simular um desmaio, mas conteve-se, concentrou-se e literalmente empurrou dolorosamente cada garfada do bolo goela abaixo. Tudo em nome da boa educação. Rolaram pra casa, entendendo perfeitamente como se sente um ganso parisiense. E aprenderam definitivamente a lição: na Itália, nunca se empolgue com o primeiro prato!

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