QUE VENHAM OS CAMARÕES! E as ostras, as vieiras, os mexilhões…
por Antigos(as) Autores(as)
Por Márcia Luz
Cascata de frutos do mar. Pode haver nome mais grandioso para uma comida? Há tempos estava curiosa para conhecer o resultado de tal atrevimento. Afinal, uma cascata é uma cascata, é algo volumoso, voluptuoso, abundante. Não é qualquer pilhinha de camarões que pode ser chamada assim. Quem oferece a pantagruélica refeição é o chef parisiense David Louis, que comanda o bistrô homônimo, no Alto da XV, em Curitiba.
A cascata deve ser encomendada com 48 horas de antecedência, para dar tempo ao chef de providenciar a viagem dos bichinhos, do mar à mesa, no menor tempo possÃvel. E também para espicaçar o apetite dos que vão devorá-la. Dois dias salivando.
Chegamos ansiosos ao restaurante, cinco adultos e uma criança, todos ávidos pelo banho de mar. Somos recebidos com taças de espumante, gentilmente oferecidas pela mulher do chef. À vontade. Depois do que pareceram horas – 15 minutos e duas taças depois – o garçom nos chama. Antes de sentar, passamos alguns momentos embevecidos em volta da mesa, contemplando o que se pode chamar de uma obra de arte renascentista, com leves toques de orgia romana. Dispostos numa peça de louça de três andares – não tenho a menor idéia de como se chama aquilo, uma seqüência de pratos na vertical sustentados por uma haste central – os frutos do mar repousam lânguidos num caos de formas, cheiros, texturas e sabores. Ostras, camarões, lagostins, vieiras e mexilhões nas cascas, vôngoles e amêijoas oferecem-se generosamente à nossa gula. No alto, dois gigantescos camarões simulam um terno abraço. Raminhos de erva-doce e barquinhos de limão completam o quadro.
Solenemente, nos sentamos. Todos em silêncio, esperando para ver quem tinha coragem de atacar primeiro. Foi a criança, lógico, rapidamente arrebatando um lagostim do alto da pilha. Começa o festim. Para acompanhar os frutos do mar – que são previamente cozidos em vapor de água aromática, com exceção das ostras – David trouxe dois tipos de molho, vinagrete de echalotte e maionese especial. E duas pequenas travessas de batatas fritas – crocantes e macias, cortadas em forma de canoas.
Simples, simplÃssimo. Mas maravilhoso. Durante muito tempo, nos ocupamos com o ritual selvagem – descascar camarões, retirar ostras e mariscos de suas conchas, mergulhar no molho… enquanto comÃamos, esvaziamos cerca de quatro garrafas de espumante. Em seguida, o chef retira da mesa as imensas pilhas de cascas – não sobrou nem um vongolezinho pra contar a história – e serve o prato principal (!): magret de canard com risoto de champagne. Aliás, o champagne foi o denominador comum que harmonizou toda a refeição, explorado em várias versões. O pato estava macio, no ponto certo, e o risoto perfeitamente úmido e cremoso. Foram quatro horas de puro prazer.
Sobre a casa – Autêntico desde a decoração à moda da cidade-luz até o atendimento informal, prestado pelo casal de proprietários, o bistrô serve pratos tÃpicos de algumas regiões da França. Formado pelo Institut des Metiers de L´hotelerie et de la Restauration, em Cotes D´Armor, David Louis traz da região da Bretagna especialidades litorâneas como moules frites – além da cascata. Os moules são mexilhões de cinco centÃmetros de comprimento cozidos com casca em base de vinho branco, e ganham diversos molhos para acompanhar, como mostarda de Dijon e gorgonzola, entre outros. Entre os pratos parisienses, a casa faz sucesso com o clássico contra-filé, também acompanhado de uma série de opções de molhos, como bearnaise ou champignons de Paris, os mais pedidos.
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David Louis Bistrot – Rua Schiller, 1370/ Alto da XV – Curitiba. Tel: (41) 3363-2391
Comments
Marcia,
não sei o que é melhor, seu texto ou a comida do David Louis!
Bjs
Ah, com certeza a comida do David. Mas o complemento perfeito, o melhor de tudo, foi a companhia.
beijos
Marcia, nao tenho palavras para dizer o que eu senti, lendo a tua materia. So posso te dizer que tua arte, e tuas letras, tocaram o meu coracao, e dos meus fonctionarios. Voce nos fiz sentir como nao so o melhor restaurante de curitiba, mas como o melhor do mundo…
Muito abrigado.
Caro David
A sua arte também tocou o meu coração, e de toda a nossa famÃlia. Fico muito feliz que você tenha gostado do texto – foi escrito por uma alma e um paladar satisfeito! Ah, e a Laura manda dizer que você tem sim, o melhor restaurante do mundo!
beijo
Se um dia eu chegar a ir para Curitiba, certamente não me furtarei de ir. Mesmo que minha esposa seja alérgica a camarões e etc.
Um pouco fora da rota do site, segue uma sugestão de minha autoria e de alguns outros amigos de Fortaleza. É o outro lado da moeda.
http://www.biroscas.com.br
Oi, João!
ADOREI o biroscas, já adicionei à minha lista de favoritos. Não creio em coincidências, mas seu site é um prato cheio – não resisto a um bom e autêntico boteco. Se você tiver paciência, no arquivo do comensais há vários textos meus sobre o assunto (Diretorias, Touro Manso e outros).
valeu!
Marcia, Da próxima vez, o côngrio!
Quanto ao seu texto anterior, sobre spas e picanhas, vem à memória a declaração histórica de Tim Maia: “Spa, nunca mais! Em duas semanas, perdi quinze dias”.
Oiiii
Sobre o côngrio, ninguém melhor que você para comentar. Assim o David acaba erguendo uma estátua em homenagem à nossa famÃlia!
beijo
Thanks for writing this.