Rabugice atrasada
por Márcia Luz
Sou mãe. Amo ser mãe, de longe a melhor coisa que já me aconteceu. Mas detesto o Dia das Mães. Olha, não sei quem criou essa data (já ouvi várias versões), mas ela não faz o menor sentido. Ser mãe já é um prêmio. E é uma função full-time. Para sempre. Ninguém deixa de ser mãe. Ninguém precisa ser lembrado que é mãe, nem que tem mãe. Então, pra que serve o tal dia?
Ããããã… para movimentar o comércio? Eu quero a minha parte em dinheiro. Então passamos a vida inteira criando, educando e amando incondicionalmente os filhos e não levamos um centavinho do lucro astronômico gerado pelo Dia das Mães que, sem nós, nem existiria? Mãe que é mãe não está nem aí para presente, eu pelo menos não estou. Todos os anos, digo à minha filha que não quero que ela compre nada, prefiro que crie algo com as próprias mãos. Minha mãe também não liga pra isso. Pior: o Dia das Mães ganhou tanto prestígio que o presente passou a ter status de presente de Natal. Tem que ser grande, caro, espaventoso. Argh.
Bem, mas esse é um blog de comida, certo? Já vou chegar lá.
O fato é que além da falta de sentido da data, da inescapável neura por causa dos presentes, ainda temos que passar obrigatoriamente pelo torturante ritual do Almoço de Dia das Mães. Como mãe não pode cozinhar nesse dia, temos que nos acotovelar em restaurantes entupidos de adoráveis famílias loucas para celebrar esse momento tão especial. Nenhum sacrifício é grande demais nesse dia: filas de espera intermináveis, garçons atrapalhados, comida morna e outros singelos fatores que, afinal, contribuem para “abrilhantar” ainda mais o evento. E ainda ficamos por dentro dos conflitos das outras famílias (há ótimas brigas entre cunhados), podemos conferir como as outras crianças são educadas (este ano a novidade foi o lúdico arremesso de azeitonas com garfo. Ainda bem que foi longe da nossa mesa). Muito emocionante.
Vocês devem estar pensando: “tá, sua chata, porque não fica em casa nesse dia?”
Simplesmente porque também tenho mãe, o marido idem, a família é numerosa e dá menos trabalho encarar a tradição do que tentar provocar um boicote ao Dia das Mães. As conseqüências poderiam ser desastrosas.
Bem, esse ano o evento foi no restaurante do Clube. Curitibano. Toda a fina flor da sociedade compareceu, levando suas mamães para almoçar nos salões rosa, azul e furta-cor, com música ao vivo e etc. Demais! Por sorte, nossa família optou pelo restaurante do clube, que é só restaurante e serve boa comida. Apesar do inevitável tumulto, os familiares têm senso de estratégia: o almoço foi marcado bem cedo para evitar fila. Não é nosso costume, mas encaramos um almoço dominical às 13h30. Foi certeiro: zero de fila e a comida mais quente e fresca do dia. Encaramos a mistureba do bufê como um pitoresco passeio pela culinária mundial em três capítulos: sushis e sashimis com coquetel de camarão, salmão grelhado ao molho de maracujá com risoto de… sei lá, risoto com umas coisinhas róseas; e por fim, carré de cordeiro com batatas douradas e legumes na manteiga. Genial, né?
O mais divertido foi observar a multidão que se formava em volta das paredes do restaurante, que é todo de vidro - chegava a galera do segundo turno do almoço. Passamos a nos sentir parte de uma bizzarra vitrine viva. Dezenas de pessoas olhando para a nossa e outras mesas, inicialmente com cara de fome, depois de impaciência e finalmente de ódio. Decidimos ir embora antes que algum cunhado menos bem-humorado iniciasse um levante atirando a sogra contra os vidros.
Comments
Não posso não comentar essa passagem: “… podemos conferir como as outras crianças são educadas (este ano a novidade foi o lúdico arremesso de azeitonas com garfo. Ainda bem que foi longe da nossa mesa). Muito emocionante”.
Não entendi.
Afinal, para alguém que no texto anterior afirmou “todo mundo adora azeitonas, eu odeio”, criticar essa crianças que provavelmente encontraram uma maneira divertida de eliminar as odiadas azeitonas, sem comê-las, parece-me de uma rabugice indigna de tão brilhante articulista.
Beijos do titio nordestino, que foi comer com a família na “Feijoada do Vavá”, um lugar super popular, que serve uma feijoada honesta e, nos Dias das Mães, sempre entrega às distintas clientes um belo botão de rosas.
Querido tio!
Você tem toda razão, não tenho a mínima moral para condenar as crianças! Não tinha me tocado: os bólidos eram detestáveis azeitonas! Creio que ainda estava muito afetada pela rabugice sazonal… obrigada pelo alerta.
Que delícia seu Dia das Mães nordestino, ai que invejinha… e aposto que ainda por cima estava quente! Buá…
beijos saudades saudades!
Olá Márcia!
Descobri este blog quando estava procurando sobre o livro “Chama o Garçom”, e gostei muito!
Gostaria de entrar em contato contigo. Você poderia me passar seu e-mail?