Sabores e contradições do Maranhão

Por Márcia Luz | 7 de Novembro de 2008.

Com a colaboração de Délio Canabrava*

            Conheço poucas pessoas que levam tão a sério os assuntos comida e boteco quanto o meu amigo e exímio botequeur Délio Canabrava. Por isso, ele nem pestanejou quando a irmã, Ângela, comentou que havia descoberto o “melhor boteco do Brasil” em São Luiz do Maranhão. Em pouco tempo, Délio rumava ao Maranhão para mais uma pesquisa botecogastronômica, acompanhado da irmã. Voltou cheio de histórias.

            Para enfrentar o calor, logo descobriu a melhor arma maranhense: picolés de frutas locais – açaí, castanha, cupuaçu, tapioca (não tem gosto de nada), e, o supra-sumo, cajá. Outra descoberta interessantíssima foi o guaraná Jesus, bebida mais consumida no estado, um refrigerante ultra-doce, com sabor que lembra cravo e canela. O destaque vai para a cor da bebida: um tom de rosa que beira o psicodélico.

            Os maranhenses tem uma cultura gastronômica própria – e muito variada. À mesa, não pode faltar farinha de puba, uma versão diferente da farinha de mandioca, amarela, com bolinhas grandes e duras – Délio não conseguiu descobrir como consumi-la sem se arriscar a perder um dente. Outro acompanhamento muito popular é o arroz de cuxá, arroz misturado a uma espécie de pirão feito com planta vinagreira. O resultado é verde e saboroso. Come-se muitos miúdos, aves e muita, muita carne-de-sol. E peixes, claro, além de frutos do mar, com o caranguejo no topo da preferência local.

A exploração do Délio começa na direção contrária da maioria dos turistas. Antes de pensar em restaurantes ou passeios turísticos, ele prefere descobrir o cotidiano maranhense – um povo simples, que vive em sua maioria na pobreza, mas que sabe fazer do limão uma limonada. A culinária popular é extremamente saborosa, feita com ingredientes simples, baratos, mas sempre fresquíssimos. E muito bem temperada.

A primeira providência foi conhecer a famosa feira de pescado de São Luiz, onde o povo compra peixes baratos no sistema “de balde”. Todo mundo leva seu balde à feira, enchendo-o de peixes e crustáceos recém-pescados. Não há geladeira à vista, nem mesmo nos açougues, mas curiosamente também não se vêem moscas – Délio atribui isso ao frescor das carnes, já que os animais são abatidos na medida certa para serem vendidos no mesmo dia. O que não se aproveita, é salgado e seco. As aves de caça, como codorna e jacu, são muito apreciadas, assim como pato, bode, galinha caipira, carne de porco e de boi.

Uma peculiaridade: pela manhã, é hábito tomar um caldo de ovos, feito de caldo de carne adicionado de ovos e farinha, o que resulta num mingau capaz de levantar defunto. Aliás, o café da manhã maranhense é de corar cardiologista: vai desde PF de tripa de porco até caldo de mocotó.

Segundo o Délio, a melhor comida de São Luiz é aquela vendida nas ruas, preparada na hora. Há barraquinhas de peixe grelhado, sucos de açaí, murici, cajá – uma mania local é a vitamina de abacate – caldo de mocotó, que na verdade é feito com dobradinha, carne de sol na brasa, muito macia, com sabor maturado. Nas barracas, carrinhos, feiras e quiosques pode-se saborear os pratos mais típicos, como o mungunzá, um mingau de milho branco doce e muito macio, o cozidão – músculo, costela, maxixe, quiabo, abóbora e batata cozidos e temperados – galinha à cabidela, sarapatel, de miúdos de porco cozidos no próprio sangue, e sarrabulho, a mesma coisa só que sem o sangue.

            Uma visita a Alcântara, cidade histórica tombada pelo patrimônio histórico, revela outras riquezas do Maranhão. Nas ruas, come-se de tudo, do café da manhã ao jantar, servidos por gente hospitaleira e atenciosa. Lá, Délio foi apresentado ao doce-de-espécie, um misto de queijadinha, quindim e cocada, macio, molhado, “simplesmente delicioso”, segundo ele. Alcântara também mostra um lado triste. Apesar do tombamento, o casario da cidade encontra-se em estado de miséria, completamente abandonado, depredado, com várias construções parcial ou totalmente destruídas. Lamentável.

            De volta a São Luiz, Délio foi conferir o “melhor boteco do país”. Trata-se do Bar do Leo, localizado no mercado municipal, entre bancas de galinhas vivas, bananas, peças de carne, legumes e até manicure, que fica ao lado do bar. Ao contrário do que ele imaginava, o que conquistou a sua irmã não foi a gastronomia da casa, mas a música. O tal Leo mantém um impressionante acervo de CDs, vinis, fitas cassetes e afins, que cobrem as paredes da casa e proporcionam uma trilha sonora dificilmente encontrável em qualquer casa noturna do país. O homem entende mesmo de música.  Momento surreal: ao fazer o pedido, Délio observou que a garçonete não estava acostumada a anotar – nem tinha bloquinho – e diante da impossibilidade de decorar tudo o que estava sendo pedido, simplesmente começou a escrever na própria mão.

            Finalmente, a ultima etapa do roteiro: conhecer os restaurantes mais renomados da cidade. Decepção. Pratos semelhantes aos servidos nas ruas – guisados, carne de sol, cozidão, sarapatel – porém muito mal feitos, mal temperados, elaborados com ingredientes congelados e que custavam dez vezes mais do que as versões das barraquinhas. Pra turista ver, com direito a drinques de guarda-chuvinha. No mais badalado deles – Délio prefere não citar nomes – freqüentados por artistas, políticos e afins, a refeição foi patética. A casquinha de caranguejo, totalmente desprovida de qualquer sabor – podia ser até de tapioca – foi devolvida ao garçom sem que este pedisse qualquer explicação. A codorna tinha gosto de pinto molhado, se é que alguém conhece esse gosto. Entre os momentos mais bizarros do jantar, a medalha de prata foi para o festejado camarão no abacaxi da casa. Consistia em três camarões nadando em creme de maisena dentro de um abacaxi espetado com – pasmem - uma velinha que soltava faíscas!!! Se eu não fosse muito amiga do Délio acharia que era cascata. Depois dessa piada, a medalha de ouro do restaurante: Camarão do Imperador. Composto de camarões fritos na farinha de rosca sobre molho de… creme de maisena! O apurado paladar do Délio não suportou chegar à terceira garfada. Sobre a conta, ele não quis nem comentar.

 

* Proprietário do Canabenta, um boteco até a alma, do restaurante italiano Cantina do Délio e do café Bella Banoffi, Délio Canabrava e a mulher, Renata, fazem uma dupla indispensável para estômagos e espíritos curitibanos.

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