Slow food eu entendo – mas… e a vida?!
por Paulo Polzonoff Jr
Sou absolutamente simpático ao movimento Slow Food – e ainda quero escrever uma longa matéria a respeito do assunto. Mas confesso que, quando penso na idéia por trás do movimento, me deparo com uma simples questão: “E a vida?”.
Sim, porque nada indica que a vida ande mais devagar. Pelo contrário. Tenho a impressão de que estamos com mais e mais pressa. E mudar a velocidade não depende só da gente. Meus prazos, por exemplo, são cada vez mais apertados. E, não bastasse isso, eu os apresso ainda mais para que possa gerar volume e, assim, aumentar minha receita. Sobra tempo para a feira? Claro que não.
Ultimamente, tenho estado angustiado no supermercado. Ontem mesmo fui fazer compras. Às oito da noite eu estava exausto. Tinha começado a trabalhar às seis da manhã, com apenas pequenas pausas para evitar dores musculares. Andando pelos corredores, com fome, me vi tentado a comprar várias comidas industrializadas. Não que eu goste delas. Afinal, quem é que pode gostar genuinamente de miojo?
Parei em frente aos pacotinhos do macarrão instantâneo. E me senti extremamente culpado por querer comê-los. Imediatamente me lembrei do cilindro que comprei recentemente com o intuito de fazer massa em casa, fresquinha, deliciosa. É uma vontade honesta, mas que, ultimamente, não vejo como realizar. O cansaço me consome. E, por conseqüência, eu quero consumir alimentos rápidos. Não por ignorância. Eu sei que alimentos processados fazem mal. Mas há dias em que é impossível ter forças para se fazer um suco de laranja. Nestes casos, vai refrigerante mesmo.
Desculpa? Demorei bastante a escrever este texto, porque imagino que muitas pessoas pensarão mesmo que eu estou inventando uma desculpa esfarrapada. Mas, veja bem, não estou dizendo que o movimento Slow Food é desprezível ou que os alimentos industrializados acabam salvando nossas vidas em dias cansativos demais. Meu foco aqui é outro: a culpa em relação à alimentação.
Não. Não comprei miojo. Cheguei em casa e, com um esforço tremendo, acabei preparando panquecas. Mas não sem culpa: usei tomates italianos (devidamente enlatados), carne não-orgânica, leite em embalagem longa-vida, etc. Ora, sei que não cometi nenhum crime. Mas a pulga atrás da orelha não parava de me morder. Afinal, de algum modo, eu estava errando. Tudo bem que estivesse errando menos, por assim dizer, do que se tivesse preparando os indefectíveis miojos. Mas…
Me senti sujo. E comi as panquecas temperadas com esta frustração.
Foi, no entanto, uma experiência catalizadora. Por mais que eu admire pessoas como Michael Pollan e por mais simpatia que eu tenha pelo movimento Slow Food, não posso (não podemos?) ficar paranóico e nem tampouco posso tapar o sol com a peneira: tenho uma vida conturbada, mais do que eu gostaria, mas é a minha vida e, por ora, mudar esta situação é impossível. Eu adoraria comer alimentos sempre frescos e da melhor procedência possível (de preferência que tenham sido produzidos perto de São Paulo, como manda a cartilha), mas muitas vezes isto é inviável. Só sei que, depois deste dia, tenho ganas de virar Scarlet O’Hara:
- Jamais comerei comida temperada com frustração novamente.
[bl]frustração, miojo, orgânicos, slow food, michael pollan[/bl]
Comments
Gostei do texto , é reflexivo e a verdade é que tem verdade, é um texto bem honesto.
Somos vitimas de um sistema,que nos tritura, nos isola,e nos tira a individualidade,e também o tempo..
Hoje acabamos também por ser produto para consumo e quase que nos tornamos canibais de nós próprios..
Bjs e Feliz Páscoa
Paulo, vc não está sozinho! Se eu tivesse uma hortinha como a de vocês já estaria feliz…mas acabo no miojo com nuggets váááárias noites na semana… Pelo menos o almoço dá pra salvar, mas sempre num restaurante a quilo no Centro. A verdade é que adoraria comer muitas verduras, legumes, e tudo temperado só com azeite e muitas ervas. Mas quem vai cozinhar pra mim??? haha, sim, porque não quero ter que tirar tempo do meu trabalho, da minha família, dos amigos, da ginástica…então, miojo será
Beijos!
Nem me fale em culpa, ultimamente são muitas na minha cabeça e a alimentação está no topo. Cadê tempo para fazer uma salada, comer mais legumes, quando vejo a cenoura já estragou, o alfaçe muchou. Você não imagina a minha felicidade quando consigo sair as 19:00 do trabalho e preparo uma comidinha bem colorida. Ah e os orgânicos ainda passam longe lá de casa. Outro habito que tento mudar mas é dificil é o comer rápido, quando lembro de comer devagar a comida já acabou,rs
Feliz Páscoa
Bjs
Rosangela,
Ainda vou escrever mais a respeito no livro que estou produzindo. Mas a verdade é que esta culpa deve fazer mal, não? Tanto ou mais mal do que o miojo que nos salva depois de um dia desgraçadamente pesado.
Vou me lembrar de você quando escrever o texto.
bjs
Mariana,
Esta questão tem me interessado cada vez mais. Novamente acho que a palavra-chave aqui é culpa. Esta nossa ansiedade por coisas saudáveis acaba gerando frustração. Há um descompasso entre o que DEVEMOS QUERER e o que PODEMOS QUERER. E nem sempre isto se resolve com dinheiro.
No próximo livro haverá um bom capítulo sobre isso.
bjs
Nanda,
Tenta fazer de honestidade meu segundo nome.
Mas, quando ao tal sistema, bem, o que vejo aqui é um choque de sistemas. De um lado, miojo com coca-cola. Do outro, orgânicos e farinha integral.
Para onde fugir?
Uma dica:
Exaustão, dores musculares, ansiedade? É legal observar o q seu corpo pede e o que sua cabeça quer.
Uma boa massagem ayurvédica pode recuperar a energia do corpo, diminuir a ansiedade e a cabeça pensar com mais clareza para distinguir o que se quer do que se pode. Sábios orientais.
Feliz Páscoa para todos
Um abraço
Izabella,
O que se quer do que se pode?
Acho que a questão aqui é outra: o que é certo, mas inatingível em determinado momento, e o que é errado, mas está tão à mão…
Aliás, ando descobrindo que o certo, no que diz respeito à boa alimentação. Tem lá suas sutilezas. Se tudo der certo, escreverei sobre isso em breve.
bjs
O ceto no q diz respeito á boa alimentação é tão simples.
Não é?
Izabella,
Recentemente descobri que não é tão simples assim. Mas, como disse, pretendo escrever mais longamente sobre isso. Torça para eu conseguir um tempinho.
bjs
Estou torcendo
vc sabe disso
abraços