Tradição sem viço
Por Paulo Polzonoff Jr | 7 de Janeiro de 2008.
São Cristóvão, Rio de Janeiro, meio-dia. Tenho um encontro marcado com o que dizem ser o melhor restaurante português da cidade. Isto numa cidade cheia de bons restaurantes especializados na culinária da terrinha. O bolinho de bacalhau, dizem, é algo de outro mundo. “Lá, tudo é bom. Você vai amar”, alguém me empolga. A fama do Adegão Português está apoiada em mais de 40 anos de história.
Em 2000, comi em Portugal um inesquecível coelho com laranjas. Prato simples mas de sabores marcantes. Desde então, venho tentando comer novamente um coelho. Mas, por algum motivo, ninguém ao meu redor tem coragem de saborear o bichinho fofinho. Penso que a visita ao Adegão Português, na companhia de alguns amigos que saboreiam de tudo, é uma possibilidade de me reencontrar com um prato à base de coelho. Estou cheio de expectativas.
O restaurante está vazio àquela hora. Melhor assim. Gosto de ter os garçons à minha disposição. O ambiente é acolhedor. Tem cara de casa de avó – e isso é bom. Dou de ombros para o mau gosto das pinturas na parede. Com um pouco de generosidade, é possível ver certo charme neste tipo de decoração.
Escolho uma mesa e me sento. Peço água, enquanto espero os amigos. Eles chegam. Conversamos um pouco. Peço, então, um bolinho de bacalhau de entrada. Ele é mesmo divino. Ao contrário do que se serve por aí, o bolinho de bacalhau do Adegão Português tem muito mais peixe do que batata. Pena que o azeite disponível na mesa não seja dos melhores. Penso que é um desperdício misturar o melhor bolinho de bacalhau com um azeite tão aguado.
Como. O bolinho de bacalhau imediatamente abre meu apetite. Faz um calor surreal lá fora, mas o ar condicionado do restaurante nos proporciona civilizados vinte graus. Hora de pedir um vinho.
Gosto imensamente dos vinhos portugueses – que, imagino, são a especialidade da casa. Ao abrir a carta de vinhos, contudo, percebo que a eno-ostentação ali aportou. O menu é didático, com mapas de Portugal mostrando todas as regiões produtoras. Mas a variedade dos vinhos é decepcionante. Sem contar o preço. Estou num restaurante da década de 50, sem luxo ou requinte, mas, por alguns instantes, me pergunto se não estou num restaurante agraciado com três estrelas no Guia Michelin.
Peço um Porta dos Cavaleiros 2000. O vinho está bom, mas não sou especialista. E tenho a tendência a achar que todo vinho fica melhor na companhia de bons amigos. A conversa corre solta e percebo que o vinho melhora na medida em que rimos mais e mais alto. A vida é tão boa que decidimos pedir a refeição. Olho em volta e percebo que o restaurante está cheio. Pessoas velhas, em sua maioria. É difícil chamar o garçom.
Quando, finalmente, consigo ser atendido, peço o aguardadíssimo coelho. Apesar dos sete anos de espera, cogito mudar de idéia por causa do preço exorbitante, quando sou informado pelo garçom que o prato serve duas pessoas. “Ou mais”, ele brinca. Toda a minha expectativa vai por água abaixo.
A tradição deste tipo de restaurante segue uma regra que custa a mudar no Brasil: a de que comida boa é comida farta. Conheço pessoas capazes de pagar, sem nenhum esforço, R$ 100,00 em uma churrascaria, mas que se recusam a pagar R$ 30 por um prato. Ao que parece, os clientes do Adegão Português são deste tipo.
Dou de ombros. A vontade de comer o tal coelho é mais forte. Conversamos bebericando o vinho que, tenho a impressão, fica melhor com o tempo. Quando chega nosso prato, porém, sou acometido por uma decepção que quase me tira a fome. O coelho é um amontoado marrom cercado por uma montanha de purê de batata. A visão daquele prato me deixa confuso. Olho para o prato e para o vinho. Respiro fundo. Quero ainda crer que, apesar da aparência, o prato é bom.
Mas aquela era uma tarde de enganos. O coelho vinha soterrado por um guisado de cebolas, presunto, ervilhas. E muito, muito salsão mesmo. A carne mal era percebida em meio àquilo tudo. O guisado impregnava o coelho – que, àquela altura, poderia ser qualquer animal. Eu tinha duas opções: ou tentava saborear aquilo ou aderia à cultura local e me empanturrava.
Não fiz nem uma coisa nem outra. Comi pouco, preocupado em não ficar enjoado com aquela comida cujo aspecto o pudor me proíbe de comparar com exatidão.
Foi neste momento que ocorreu o milagre: o vinho subitamente se tornou o melhor do mundo. Perfeito para me embriagar e disfarçar a decepção com o coelho. Melhor: perfeito para camuflar o gosto da comida.
Não experimentei nenhuma sobremesa. Não só porque não queria como também porque o restaurante estava cheio e o garçom esperava impacientemente que desocupássemos a mesa para o próximo cliente. Na rua, lembrei que estava em São Cristóvão, bairro imperial em franca e inegável decadência. De certo modo, pode-se dizer que o Adegão Português faz jus ao local. É uma tradição que perdeu o viço – se é que teve algum.
Adegão Português
Campo de São Cristóvão, 212-A
(21) 2580-7288
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