Um mundo de valores estranhos

por Paulo Polzonoff Jr

hellskitchen.jpgHá muito tempo eu não assistia televisão. Mas, porque estava doente na noite de sábado, doente e sozinho, resolvi ligar o aparelho para assistir a qualquer coisa. Súbito descobri que seria exibido um programa do Jamie Oliver. Antes, porém, seria exibida uma série chamada Hell’s Kitchen. A chamada mostrava um chef humilhando as pessoas. Passivo, deixe-me entreter pelo negócio.

Meia hora depois, eu estava nauseado. O programa não é apenas humilhação pura e simples. Se fosse, talvez eu pudesse rir. Hell’s Kitchen é, por outra, um infinito desfiar dos valores estranhos (eu diria tortos) que regem o nosso mundo. A humilhação, no caso do programa, não procura o riso puro e simples. Pelo contrário, há um suposto efeito pragmático nisso tudo. Os infelizes buscam a perfeição e o sucesso. A pergunta é: a que preço?

O chef que comanda a verdadeira sessão de tortura é um tal de Gordon Ramsay. Ele é um Bernandinho da cozinha. E as bobagens que fala ao longo do programa me fizeram pensar no quanto o nosso querido técnico “vencedor” também não passa de um pobre-diabo, um porta-voz de valores completamente deturpados, um corrompedor de boas e sadias almas em nome de um tal de sucesso. Sapiência é uma palavra que não passa perto nem da cozinha do chef Ramsay nem das quadras de vôlei sob as ordens de Bernandinho.

Eu não tinha caneta e papel à mão. Pena. Deveria ter anotado cada besteira dita pelo chef. Besteiras que eu já ouvi repetidas mais de uma vez, por pessoas que buscam o sucesso a qualquer preço. Em dado momento, por exemplo, ele disse, com voz de demônio, que não tinha nascido para ser o segundo melhor. E que por isso pressionava as pessoas até o limite delas: para que elas também jamais se contentassem com o segundo lugar.

A “esportificação” da vida é um fenômeno dos mais tristes do nosso tempo. Ganhar, ganhar, ganhar, vencer, vencer, vencer. As pessoas competem entre si pelas coisas mais ordinárias. Não que eu seja contrário à competição, algo inerente ao capitalismo, mas é que as coisas, de uns tempos para cá, têm sido ridículas. Buscar ser o melhor é uma coisa; passar por cima de tudo e de todos para ser o melhor é outra bem diferente.

O que vi em Hell’s Kitchen foi a exaltação da falta de caráter. Não só por parte do apresentador, mas sobretudo por parte dos participantes que, pelo que entendi, concorrem a um restaurante. Frases lapidares me tiraram o sono. Com total serenidade, se é que se pode chamar assim, uma mulher diz que “não está ali para fazer amigos”. O que, mais tarde, justificaria uma traição no processo seletivo. Eu, doente, quase pulo do sofá. Como assim, mulher?!

Que tipo de mundo é este onde as pessoas acham que há algo mais importante do que fazer amigos? Um restaurante é mais importante do que… viver? É mesmo preciso passar por cima de todo mundo para se alcançar um sonho. E um sonho tão besta assim, diga-se de passagem, sujeito a uma simples salmonela?…

Eu confesso que fiquei com os olhos grudados na TV, me perguntando, de tempos em tempos, sobre minha posição neste mundo tão corrompido. Eu jamais serei capaz de passar por cima de alguém para conquistar qual objetivo seja. Até porque, cedo demais, talvez, aprendi que simplesmente não vale a pena. Restaurantes vão à falência, relacionamentos se desfazem, empregos são perdidos, dinheiro é gasto. Em meio a tanta finitude, o que nos resta?

Por falar em comida, tenho de dizer que eu jamais comeria qualquer prato feito naquela cozinha. Acredito que cozinhar para alguém, mesmo que comercialmente, seja um ato de carinho. Bons chefs não são necessariamente aqueles que buscam obsessivamente a perfeição em um prato, e sim aqueles que cozinham como se alimentassem seus filhos. Há, sim, um quê sempre maternal na arte de cozinhar. A culinária é uma forma alquímica – por que não? – de amor.

Daí que o programa e suas idéias de vitória a qualquer preço, de valores tortos, de honradez e sapiência jogados no lixo está assentado em bases para lá de frágeis. Um bando de críticos pode dizer que o chef Ramsay é um gênio (duvido). Mas, para mim, tudo o que ele cozinhar é, desde já, uma porcaria. Entre xingamentos, humilhações e, principalmente, a idéia de que as pessoas não são importantes, e sim os pratos, o chef Ramsay só consegue ser um pobre-diabo que vai chegar ao fim da vida sem ter a menor idéia de por que recebeu o sopro divino um dia.

Se é que ele vai se perguntar isso, claro.
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* Este texto foi escrito em 21 de agosto de 2007 e publicado originalmente no site de Paulo Polzonoff Jr.

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