Um terremoto seria bom para o Brasil
Por Paulo Polzonoff Jr | 5 de Dezembro de 2007.
Michel Rolland está ansioso. Há 22 anos ele espera pela oportunidade de comer novamente um prato de feijoada. Duas caipirinhas depois, ele interrompe a entrevista no terraço do Hotel Pestana, em Copacabana, para se servir no buffet. É preciso explicar, em inglês ou espanhol precário, o que cada cumbuca contém: orelha, paio, língua defumada, carne seca. Sem nenhuma cerimônia, Rolland se serve de tudo. Senta-se à mesa e, quando o garçom lhe pergunta pela bebida, o enólogo mais famoso do mundo hesita.
Ele esteve no Brasil para o lançamento de três vinho produzidos sob a sua supervisão pela vinícola Miolo, uma das mais tradicionais do país: o Quinta do Seival, o Cuvée Guiseppe e o Terranova Cabernet Shiraz. Rolland escolhe a dedo as vinícolas para as quais oferece seus conhecimentos e, claro, seu nome. São mais de cem ao redor do mundo, em terras tradicionais, como as dos arredores de Bordeaux, na França, e também terras novas, como as do Vale do Rio São Francisco, no nordeste brasileiro – a mais promissora das fronteiras da vitivinicultura nacional.
Na feijoada, Michel Rolland surpreende a todos ao declinar do vinho e pedir uma cerveja Cerpa. Ainda há pouco, durante a entrevista, ele havia criado expectativa em torno de um juízo: qual o melhor vinho para se beber com uma feijoada. Ao que parece, o melhor vinho, nestes caso, é cerveja.
Especialista em bebidas, quando a cerveja chega Michel Rolland a prova como se estivesse saboreando um produto do Château Le Bom Pasteur, de propriedade do seu avô na região do Pomerol, onde aprendeu tudo o que sabe sobre vinhos. Cheira a bebida, mas sem a afetação do neófilo, e a bebe em pequenos goles. A feijoada também parece agradá-lo.
Aos 56 anos, Michel Rolland se diferencia de seus colegas enólogos por não se ater somente ao passado. Ele acredita em novas fronteiras para o vinho mundial e procura aplicar seu conhecimento de modo a levar a tradição dos vinhedos franceses aos lugares de boas terras, bons vinhedos, mas sem o conhecimento secular da fermentação da uva. Ele acredita na criação de uma tradição a partir da produção de vinhos de qualidade.
Para tanto, a arma do enólogo é a observação, principalmente do solo e do plantio das uvas. Não há, para Rolland, um solo e clima perfeitos para a fabricação de um vinho perfeito. Há, isto sim, nuances, diferenças que fazem de cada vinho uma bebida com personalidade própria, com qualidades únicas a serem descobertas e salientadas.
Rolland é, sobretudo, um curioso. Diante uma lata de guaraná, ele interrompe a apreciação da cerveja e da feijoada para aprender sobre o refrigerante brasileiro. Escuta com atenção sobre a fruta da Amazônia, mas não sossega enquanto não prova da bebida. Cheira-a, balança o líquido no copo e, por fim, bebe, para sentenciar: “Bom. Para um refrigerante”.
Na entrevista a seguir, realizada numa manhã de sol tímido no outono carioca, Rolland mostra todo o seu humor ao falar de sua paixão: os vinhos, claro. Defendendo o vinho como cultura e a tradição como conseqüência de uma produção de qualidade, Michel Rolland acaba por estimular a produção em países tidos até então como periféricos, como o Brasil. Cachaça e até terremotos também estão na pauta desta conversa com o mais importante enólogo do mundo.
Me parece que, muitas vezes, na avaliação de um bom vinho a tradição conta mais do que a qualidade. Afinal de contas, para o senhor, o que é mais importante?
Acredito que um pouco das duas coisas. Se o lugar onde o vinho for produzido tiver uma tradição de se fazer vinhos de baixo nível, é complicado. Mas é preciso pensar que é por meio de um vinho de qualidade que a tradição se impõe. Além disso, temos que pensar que a produção de vinho é uma coisa tradicional, porque respeita as mesmas idéias de cultivo, fermentação, etc. Ou seja, nisso tudo há uma tradição que deve ser respeitada para se conseguir um vinho de qualidade.
A partir do seu trabalho como consultor em vinhedos brasileiros, o senhor acredita que um vinho nacional pode ter a mesma qualidade de um, digamos, Bordeaux, mesmo sem ter o valor da tradição agregado?
A Miolo é uma família de produz vinho desde 1897. Por definição, é uma vinícola que tem tradição. Mas eu entendo a sua pergunta. Acho que todos os vinhos que hoje são tradicionais tiveram de começar do nada um dia. Porque não havia uma história de cultivo de vinho na região. Produzir um vinho de qualidade hoje é a mesma coisa. É preciso aplicar o que se aprendeu na história da vinicultura para se produzir vinhos mais tradicionais em lugares que ainda não tem tradição.
Antes de fazer consultoria no Brasil o senhor fez o mesmo trabalho na Argentina e Chile, onde até mesmo investiu seu dinheiro. O senhor investiria seu dinheiro numa vinícola brasileira?
Se eu achasse que um vinho tem potencial, investiria, sim. Mas não diga isso à Miolo, porque eles podem achar que eu quero ser concorrente. (risos)
Para a Miolo, o senhor fez uma consultoria específica para cada região produtora ou para todas?
Foram três projetos, um na região de fronteira com o Uruguai, outro em Bento Gonçalves e outro no Vale do Rio S. Francisco. A idéia foi desenvolver o melhor vinho para estes lugares. O que não quer dizer produzir um único vinho bom, e sim três vinhos distintos, que se adaptam às condições de cada um dos lugares.
O que o senhor achou dos vinhos produzidos no nordeste, uma região que tem atraído muitos produtores?
Acho que o terreno dá um vinho interessante. É um vinho agressivo. Não é perfeito, mas tem um potencial óbvio por causa das condições climáticas peculiares. O mais importante é que acho que sempre se pode melhorar um vinho. No nordeste, não sei quando se poderá dizer “chega”.
Há quem reclame do vinho produzido no nordeste por causa da alta concentração de açúcar, o que aumentaria o teor alcoólico, mas diminuiria a acidez…
Meu trabalho é buscar a harmonia de um vinho. É uma busca incessante. Como você sabe, todos estes fatores que você citou atrapalham a harmonia de um vinho. A idéia, então, é fazer nestes locais uma viticultura a mais adequada possível ao clima.
Hoje em dia a tecnologia permite corrigir muitas destas imperfeições nos vinhos. Como está o Brasil neste campo?
Como em todos os países em desenvolvimento, a viticultura no Brasil não está tão bem adaptada às novidades tecnológicas. Mas isso não é problema. Veja bem, há 15 anos o Chile, a Argentina e os EUA eram assim também. Nos EUA a viticultura se desenvolveu porque em 1985 houve um terremoto na região da Califórnia que destruiu todos os vinhedos. Foi a partir dos novos vinhedos que a região começou a dar bons vinhos…
O senhor acha que um terremoto, neste sentido, seria bom para o Brasil?Até que não seria má idéia. (risos)
Gostaria que o senhor me falasse um pouco sobre a sua filosofia em torno do vinho. Hoje em dia há uma corrente politicamente correta forte que é contra o consumo de bebida alcoólica…
Eu nasci no vinho. Minha família está desde sempre neste negócio. Por isso eu bebo desde sempre e, veja [Michel Rolland mostra as mãos firmes], não sou alcoólatra. Eu acredito que existe uma cultura do vinho e esta cultura é a melhor arma contra o alcoolismo. O que não significa que as pessoas não fiquem bêbadas de vez em quando. Mas a cultura do vinho ensina a beber para provar, e não para ficar bêbado. Tenho dito por aí que a cultura do vinho é a melhor coisa conta o alcoolismo.
No Brasil, o consumo de vinho pela classe média, principalmente a partir da década de 90, é visto como um hábito de novo-rico por muitos. O senhor acha que é preciso uma cultura anterior, um background para se beber bons vinhos?
A mim esta pergunta me parece até estranha, porque para mim um país que não bebe vinho não é um país, não tem cultura (risos). Mas acho, sim, que vinho faz parte da cultura, além de ser um excelente negócio. O aumento do consumo vai acabar formando as pessoas, que começam a sentir necessidade de mais informação.
O que o senhor acha do vinho Lote 43, da Miolo, considerado por muitos enólogos o melhor vinho nacional?É um bom vinho. Mas acho que pode melhorar. Quando falo isso estou falando de uma troca de filosofia. Acho que temos sempre que estar em busca do melhor vinho que podemos fazer. Quando aceitei trabalhar com a Miolo deixei isso bem claro: um vinho não precisa do meu nome, Michel Rolland. Precisa é desta mentalidade de querer sempre se aprimorar, por melhor que seja.
O senhor poderia nos dizer qual vinho combina melhor com feijoada?
Não tenho a menor idéia. Eu comi feijoada apenas uma vez – em 1982! Tenho lembranças deste feijoada, mas estou há 22 anos sem ela… Bem, depois de comer a feijoada eu respondo à sua pergunta.
Para finalizar, gostaria de saber o que o senhor acha da cachaça.
Eu acho que é alcóolico demais para mim. E também é um pouco duro, mas é bom. Eu bebi na casa de amigos uma cachaça envelhecida e acho que este processo de envelhecimento pode fazer a cachaça perder a agressividade… Enfim, eu gosto.
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