Uma pausa no trabalho com pinhão e quentão

Por Paulo Polzonoff Jr | 16 de Maio de 2008.

Faz frio em São Paulo. Muito. Estou assoberbado de trabalho. Feliz, podendo, finalmente, planejar algumas coisas muito boas na vida. Mas ainda assim assoberbado. Como é que vou dar conta disso tudo?, me pergunto. Sem obter respostas, às vezes me rendo. Foi assim no fim de semana. E tudo se tornou muito mais fácil com um pouco de pinhão e quentão à moda do sul.

Memórias de festas juninas, tenho muitas. Duas são especiais. Aos doze anos, por exemplo, passei toda a festa fugindo da menina de que gostava, por medo de que ela, veja só!, retribuísse o sentimento. Eram tempos inocentes, aqueles. Noutra festa junina de colégio, já corrompido, fiquei responsável pela barraca de quentão. Contrabandeei cachaça para dentro do colégio e, entre uma mexida e outra no caldeirão, adicionei álcool à mistura que era para ser apenas um suco de uva quente.

O quentão, aliás, foi motivo de controvérsias há alguns anos, quando descobri, pasmado, que no Nordeste não se usa vinho, e sim cachaça. Meu quentão é quentão do sul, isto é, de vinho. Sem adição de cachaça. Apenas com canela, gengibre, açúcar, cravo e água. O álcool do vinho evapora quase todo. Trata-se de uma bebida para a família, não algo para se embriagar. A não ser, claro, que esta seja a intenção primeira.

E o pinhão? Ah, o pinhão. Minha mulher, a Paula, carioca, nunca tinha experimentado pinhão. No ano em que nos conhecemos, levei para o Rio de Janeiro alguns quilos da iguaria. Devidamente cozida na panela de pressão por uma boa hora, é para se comer entre amigos, com goles de quentão. Foi o que fiz, entre outros cariocas. Para minha surpresa, nenhum deles gostou muito do pinhão. O que me levou a algumas elucubrações melancólicas.

A mais importante delas: o pinhão não é bom. Digo, em se tratando de sabor absoluto. Por isso, entendo a resistência da minha mulher e meus amigos cariocas, sobretudo depois de toda a propaganda que eu, ingênuo, fiz a respeito da semente. Para quem não tem memórias de noites geladíssimas comendo pinhão, ele é tão-somente um feijão superdesenvolvido ou, sei lá, uma batata subdesenvolvida, com uma carca dura demais. Para mim, contudo, ele é a madeleine no meu chá.

Cada pinhão que coloco na boca é uma fonte de memórias. Nem todas boas. Mas lembranças más também têm sua serventia, não? Gosto de me lembrar dos erros do passado, nem que seja para perceber o quão afortunado sou hoje. Pinhão após pinhão, sou capaz de ouvir vozes, a minha e a de outros, e de me lembrar de roupas e assuntos evocados nas mais enregelantes das noites. Se um dia construíssem uma máquina do tempo, ela teria de ser feita a partir de cascas de pinhão.

Há quem use o pinhão em receitas diferentes. Sopa de pinhão, risoto de pinhão, purê de pinhão. Conservador que sou, dispenso o que considero uma excentricidade. Pinhão, para mim, só ao natural, cozido a ponto de quase sair da casca. Nem mesmo pinhão assado eu tolero. Para mim, seria o mesmo tomar o chá de Proust com uma bolacha de maizena ou coisa que o valha.

De volta ao trabalho, nestes dias frios, às vezes fecho os olhos e me lembro do gosto da minha infância invernal: o cheiro da geada pela manhã, o quentão fervendo na panela, o quentão chiando sob a pressão. Não há, na minha memória, espaço para lareiras ou fogões à lenha, infelizmente. Este espaço eu o preencho com a imaginação. Há, no entanto, pessoas. Meus pais, minha irmã, amigos imberbes e ingênuos, amigos imberbes e nada ingênuos, meninas que achei que amava e meninas que talvez eu tenha amado. Há ainda a solidão, que nada mais é do que a presença da ausência de pessoas queridas.

Tudo isso num pinhão?, você me pergunta. Bem, talvez seja o quentão fazendo algum efeito.

Receitas

Não há mistério em se fazer pinhão. Na panela de pressão, cubra os pinhões com água e coloque um bocado de sal. Cozinhe por cerca de quarenta minutos ou uma hora. Se estiver difícil de tirar o pinhão da casca, cozinhe mais um pouco.

Quanto ao quentão, também há pouco mistério. A receita básica é vinho, que pode ser seco ou suave. No caso de usar vinho seco, é preciso colocar mais açúcar ao final. Numa panela, você despeja o vinho, com um pouco de água. Eu usei uma xícara de água para um litro de vinho. Coloque uns pedaços generosos de gengibre, uns paus de canela e cravo. Deixe ferver, mas não muito, porque se não o quentão perde todo o álcool. Se quiser algo mais forte, convém acrescentar um pouco de cachaça no final.

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