Usina de batidas

por Márcia Luz

Ninguém imagina que aquele pequeno espaço, com cerca de 20 metros quadrados, instalado numa ruazinha calma no bairro do Bacacheri, em Curitiba, é o reino de um veterano da história dos bares da cidade. Com respeitáveis 47 anos de carreira botequística, Lauro Ferreira da Silva começou como gerente do legendário bar Triângulo, teve seus próprios botecos por muitos anos, tentou se aposentar, mas felizmente desistiu da decisão. Hoje toca o singelo Solar das Batidas, instalado em anexo à sua residência. O local é literalmente pequeno para a quantidade de gente que aparece por lá, a partir das quatro, cinco horas da tarde. Entre habitués e novatos, todos em busca dos múltiplos sabores – e efeitos – guardados dentro das 42 qualidades de batidas criadas pelo senhor Lauro.

Com tantas opções, o Solar pode ser um dilema para os não-iniciados. O que escolher? O problema já está resolvido por antecipação: um grande banner orienta os novatos, dando uma mostra do espírito do dono do boteco:

Se você está resfriado, tome limão com mel.
Se você está fraquinho, tome ovos de codorna.
Se você está com pressa, tome Motor de Arranque.
Se você está com problemas, tome Amendoim Bento.
Se você precisa de reforço, tome Guindaste.
Se você quer estimulante, tome uma Carga Rápida.
Se você é levado das breca, tome Amansa Louco.
Se você gosta da sogra, tome Baba de Sogra.
Se você gosta de samba, tome Mulata Infernal.
Se você gosta de festança, tome Forró.
Se você quer ir para o céu, tome Xixi de Anjo.
Se sua esposa não que você beba, tome só um Teimoso.
Se você nunca viu uma explosão, tome Bomba Atômica.
Se você quer beber e não sabe onde cair, tome Míssil Americano.
Se você não sabe o que beber, tome Qualquer Coisa.
Mas se você gosta mesmo de beber, tome todas elas.

No final, o sábio conselho:

Se beber atrapalha seus negócios, abandone seus negócios e continue bebendo.
Solar das batidas: não cobramos consulta, mas temos uma batida para cada caso.

A criatividade bem temperada pelo bom humor se estampa nas batidas e em seus nomes inusitados. Ao observar, na época do conflito na Ioguslávia, que os americanos soltavam um foguete atrás do outro e viviam errando o alvo, Lauro imediatamente traduziu o drama em batida: Míssil Americano – você bebe, bebe e não sabe onde vai cair. Com jurubeba, catuaba, cravo, canela, mel e gengibre, a bebida cumpre com eficiência o seu objetivo. Para resolver o problema de quem não sabe o que pedir, Lauro inventou a Qualquer Coisa, de coco com abóbora. A Furacão, de chocolate e amendoim, é uma homenagem ao Atlético, time do coração do proprietário. Já a Amansa Louco, de sonho de valsa, tem propriedades calmantes pela doçura. Com funções energéticas, há a Bomba Atômica, de pinga, vodka, ovo de pata, ovo de codorna, amendoim e caracu; e a Motor de Arranque, de amendoim com caju. Guindaste, Mulata infernal, Brasileirinha, Prafrentex, Leite de Tigre, Calcinha de Nylon e muitos outros personagens compõem a galeria do Solar, com a nobre missão de tornar a clientela feliz e saltitante. Ou cambaleante, dependendo da quantidade de doses.

Como todo criador que se preza, Lauro é extremamente criterioso com relação à qualidade do que serve, principalmente no que concerne à cachaça. “Importada” do famoso alambique de Luiz Alves, em Santa Catarina, a cachaça é cuidadosamente tratada com um método que Lauro não revela nem sob tortura. O processo dura cerca de 20 dias e tira todo o travo amargo que a bebida costuma deixar na boca. Em seguida, a aguardente é cuidadosamente coada e está pronta para ser misturada aos ingredientes das batidas.

Além das bebidas, o Solar também serve petiscos tradicionais, preparados com carinho pela esposa de Lauro. Carne de Onça, sanduíche de pernil com verde, bolinho de bacalhau, queijo de coalho assado, enfim, o necessário para manter a freguesia forte enquanto a degustação de batidas corre solta. Aos sábados tem empadinhas especiais, e, eventualmente, pastéis caseiros.

HISTORINHAS DO LAURO

RECORDE – Uma vez apareceu um casal que consumiu 35 copinhos de batida. Ela tomou 18 doses, e ele, 17. Detalhe: a cada batida que eles pediam, iam fazendo anotações sobre cada tipo. Depois, chegaram à conclusão do que tinham gostado mais e levaram quatro litros das campeãs.

HOJE NADA – Essa é da época em que eu era gerente do Triângulo. O proprietário e a esposa, que moravam numa mansão na estrada velha de Paranaguá, chegavam todo dia no bar por volta das oito da manhã. Ele não fazia quase nada, fumava um charuto, ficava na porta olhando o movimento, tomava cafezinho… a esposa cuidava de tudo, recebia as bebidas e a mercadoria, gelava o chopp. Organizava o que era necessário para o bar abrir. Vendíamos uma média de 1.000 sanduíches por dia. Depois do almoço eles iam embora e só voltavam no dia seguinte. Ele mantinha um apartamento em cima do Triângulo para dormir nos fins de semana, quando o movimento era bem maior. Nos sábados, o bar ficava aberto até quatro, cinco horas da manhã, e eu era encarregado de fechar a casa e escrever na porta quantos pães seriam necessários para o domingo. O padeiro, da padaria Brasil, vinha lá pelas oito horas, conferia o pedido e voltava à tarde com os pães. Numa ocasião, não me lembro bem porque, não iríamos precisar de pães para o domingo, então escrevi na porta do bar: HOJE NADA. O padeiro chegou, viu a mensagem e tudo bem. Porém, no sábado seguinte, eu precisava pedir 800 pães, mas, cansado, esqueci de anotar. Fui para casa, tomei um banho e deitei. Quando o padeiro chegou, viu novamente o HOJE NADA e ficou intrigado. Resolveu bater no apartamento do proprietário pra tomar satisfações, saber se havia algum problema com os pães. Enquanto isso, após uns 15 minutos de sono, eu acordei, me dando conta do erro. Corri até lá e coloquei: 800 pães. E voltei pra casa. Enquanto isso, o proprietário discutia com o padeiro no apartamento, e resolveram conferir o que estava escrito na porta. Quando chegaram, viram a inscrição: 800 pães. O dono do bar virou para o padeiro: você está bêbado ou ficou maluco?

ORAÇÃO DO DONO DO BAR

Todas as noites, ao me deitar, eu faço essa oração e peço ao senhor meu Deus que dê aos meus amigos e fregueses muita saúde e muitos anos de vida para que possam usufruir de todas as delícias que o bar oferece.

Que a cabeça, o coração, os pulmões, os rins e o fígado, principalmente o fígado, estejam sempre na mais perfeita ordem, e que nunca lhes falte o dinheirinho de todo dia para poderem tomar aquele aperitivo, aquela batidinha e aquela cervejinha com a maior boa vontade. Amém.

Solar das Batidas
Rua Aviador Vicente Woslki, 798 – Bacacheri – Curitiba.
Tel: (41) 3257-6296.

[bl]batidas, bares, boteco, carne de onça[/bl]